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27/03/2017

A mulher gostosa feminista


A mulher vai ao ginecologista e passa por um exame super invasivo. Não faz mal. Não faz mesmo! Mas quando o homem vai fazer o necessário exame de próstata, com toque, aparecem vozes de todo lado – inclusive de mulheres – dizendo “sou médico (e portanto sabichão) e afirmo que o exame de toque causa mais mal que ficar sem o exame de prevenção de câncer. Juro! Aparece!

A mulher vai para o parto. Em condições normais, sem pobreza e outros problemas, são nove meses de peso na barriga, ânsia de vômito, pressão no emprego e, depois, depressão pós-parto e bebê chorando na cabeça. Dois a três anos sem dormir. Nem todas as mulheres querem ser mães no grau que os maridos exigem, sabiam? Nem todas querem ser mães na hora que a família começa a exigir, sabiam? Um homem em parto não aguentaria a dor e não teria paciência para nada. Aliás, se homens parissem, a humanidade não aumentaria de modo algum, pois os homens colocariam o aborto como prioridade – como aliás já foi, em sociedades antigas (o não-aborto é conquista moderna!). (Aliás, tá difícil de convencer os homens a pararem de convencer as mulheres de que a adoção na barriga não é uma solução – é sim, mas todo mundo prefere é o aborto, até os que se dizem contrários).

A mulher vai para o trabalho e volta dele para chegar em casa e entrar no trabalho doméstico. Depois disso, entra no trabalho do sexo. E para tal, caso não esteja “gostosona”, vai ter de aguentar mais uma mulher junto com ela, a amante. O homem não aguenta nem a jornada normal, imagine a tripla. Sabemos disso. Mas uma amante ou duas, até o pobre quer ter.

No trabalho o homem adora ser assediado e assediar. Mas não quer que façam isso com a mulher dele. Ele quer fazer com a do outro. Já a mulher tem obrigação de assediar o homem no trabalho. Uma secretária que não se insinua para o patrão, em algum grau, verá que não terá facilidade para subir na carreira. É difícil! E a regra implícita está posta. O patrão espera isso da funcionária que quer “subir na vida”. As mulheres que sobem na carreira sem serem dóceis com homens os fazem a custa de agir de um modo que nem mulheres e homens, na hora de pesarem as coisas com consciência, aprovariam.

A mulher pobre reclama, mas aí reclama como trabalhadora. Não tem o direito de reclamar como mulher. Desgastada fisicamente, não está na forma física que a apresente como “mulher”. Então, tem de reclamar como trabalhadora e, como tal, perde direitos. Fica na condição de trabalhadora de segunda mão. Pois o mundo é do trabalhador, não da trabalhadora.

Mulher para fazer protesto tem que mostrar os seios. Claro, quem não gosta de seios nus na rua? Só moralistóides tontos condenam isso. Mas peito nu de homem é “coisa de viado”. Ou seja, até para protestar a mulher tem que ir uniformizada: com o peito de fora em forma de procissão. A anarquia da mulher é organizada. Ainda vai chegar o dia que vai ser exigido da mulher que protesta que ele faça, antes, na rua, um pouquinho de pole dance, quer apostar?

Um dia escrevi sobre a “ditadura do amor”. É um dos textos meus mais odiados pelos conservadores. Eles não admitem que as mulheres estão sob o tacão do “ame-o” a qualquer preço. As mulheres precisam amar. Mulheres e amor. Homens e amor? Não, homens não tem a ver com amor. Mulher obrigatoriamente tem a ver. Mulher tem que amar como esposa, como mãe, como dona de butique e escritora. Tudo ela tem que fazer “com amor”. O homem pode chutar todo mundo, é homem. A mulher tem sempre que amar. Tem que dar o “toque de mulher”. Quem aguenta?

Todas essas situações de desgraça da mulher estão aí acima. Há dezenas a mais. Caso eu diga para tudo isso “é machismo”, transformo então todas essas situações numa palavra vazia, incapaz de trazer indignação. Perco a descrição narrativa pela síntese que nada mais representa. Faço uma revolução semântica ao contrário, ou seja, abafo as descrições em nome de uma palavra que não revela o que a mulher passa, mas, ao contrário, esconde. Preciso ser mais claro, ainda? Será que o feminismo agora me entende sobre como é necessário prestar atenção na linguagem para que possamos construir um mundo melhor (sim, somos ingênuos, queremos um mundo melhor)? Palavras não são meras palavras. Nunca.

A mulher gostosa é a que se gosta e, portanto, começa a gostar da linguagem que lhe favorece.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Grávida fotografa de lingerie pelas ruas de BH para protestar contra machismo

Grávida fotografa de lingerie pelas ruas de BH para protestar contra machismo

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16 Responses “A mulher gostosa feminista”

  1. Solopico Norego
    24/06/2016 at 22:16

    BONS TEMPOS EM QUE HOMENS ERAM SIMPLESMENTE MACHOS E MULHERES SIMPLESMENTE FEMININAS, AGORA TODO MUNDO DIZ ALGO QUE NÃO TEM NEXO … SIMPLESMENTE DEVE EXISTIR RESPEITO DE AMBOS OU LADOS , FEMINISTAS RECALCADAS MACHISTAS IMBECIS !!!

  2. Luiz Henrique
    13/11/2015 at 00:30

    deve ser culpa da maldita crise de representação… por falar em contexto histórico hahahahah o discurso feminista cai no mais puro anacronismo. que se salvem as gostosas deste Mundo.

  3. roberto quintas
    12/11/2015 at 15:00

    eu estava mastigando sobre nossa ultima interação e eu acho que cheguei a algo. o cliche, ou o rotulo, são recursos fáceis. esta não é uma opção ao pensador que deve ir além do imediato, do obvio.
    a mulher é agente de sua vida, mas torna-se interessante que seja um homem a declará-la. a mulher tem seu espaço, ainda que de forma subversiva. seu ser conquista espaço quando, como que por concessão/condescendência, blogs e páginas escritas por homens “ajudam” para que ela tenha voz na hashtag #agoraequesaoelas.
    sempre foi ela. negada, omitida, sua existência é admitida dentro de modelos e parâmetros bem definidos a favor do gênero dominante. ela não quer “favores”. ela quer apenas que o mundo admita sua importância. ela é mãe, irmã, filha. ela é Deusa.

    • 12/11/2015 at 15:26

      Roberto eu falava do cliché em geral. O cliché é a reificação, o lugar comum, o nome esvaziado. São temporários. Há duradouros. Você encarreou uma série de clichés de discurso feminista. Esvaziou o seu próprio. Era isso.

  4. Raimundo Guambi
    11/11/2015 at 09:37

    em verdade elas sao forte, mas quando damos o osso a roer elas exageram, mulher nao tem o nivelador do comportamento as vezes e necessario fingir k nao reconhecemos os esforcos de algumas, pois mal usam o merito…

  5. Lohas
    10/11/2015 at 20:04

    O problema eh que o Brasiu eh um pais muito machista, pobres mulheres que vivem nesse país de terceiro mundo.

    • 10/11/2015 at 20:30

      Lohas por que você não leu meu texto?

    • João Santos
      10/11/2015 at 21:30

      Paulo, relaxe, Lohas não passa de um trope bizarro!

    • João Santos
      10/11/2015 at 21:32

      Opa… trote! Coisas do corretor do celular.

    • 10/11/2015 at 22:30

      Estou sempre relaxado. Algumas bobagens eu deixo que é para divertir meu leitor.

  6. Ícaro
    10/11/2015 at 19:20

    Realmente, Guiraldelli, é necessário sair de uma concepção que parece que, hoje, nada mais acrescenta. O pior é fazer uso desses “ismos” sem ao menos saber seu contexto histórico o que acaba esvaziando seu significado e como o sr. falou, ofuscando o atual contexto. É preciso uma narrativa do hoje.

    • 10/11/2015 at 20:31

      Ícaro, é necessário pluralismo, várias narrativas, e não o que fez a Márcia Tibúrcio, ou seja, um livro autoritário sobre o autoritarismo, aquele “como conversar com o fascista”. Entende?

  7. vera bosco
    10/11/2015 at 18:21

    Xupins chupando a xeta da mulher 4 ever.

    • LMC
      11/11/2015 at 11:03

      Claro,as feminóias,feminazis e
      femichatas querem é que os
      homens que façam fiu-fius pra
      mulheres bonitas vão pra cadeia.
      Se isso é feminismo,meu Deus
      do céu……

  8. Kelson JS
    10/11/2015 at 18:10

    E pior que é assim mesmo, vida muito bizarra.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo