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23/03/2017

A mulher gorda, a mulher velha, a mulher feia


Entra várias expressões que usamos sem pensar há uma que é quase cotidiana: “padrão de beleza”. Eis aí alguma coisa que não existe. Talvez tenha existido. Mas já faz algum tempo que, ao menos o Ocidente, é mais correto pensarmos antes em uma esgarçada tipologia de beleza que em algo como padrão.

Durante um tempo do século XX o que marcava a beleza consensual do rosto da mulher era seu nariz empinado, o que todos diziam que era o “nariz de boneca”. Nariz adunco para mulher era um crime da natureza. Hoje não sabemos dizer o que seria um bom nariz para uma mulher. Aliás, menos ainda olhos, boca ou qualquer outra coisa. Até seios que uma maioria pode classificar como bizarros são amados e podem ser admirados. As formas que nos atraem ganharam o mundo da diversidade e o mesmo ocorreu com a cor e detalhes centrais do desenho corporal. Cedemos a algo que estamos fazendo mais intensamente há uns quatrocentos anos: estamos sendo capazes de usar o termo “beleza” para os frutos de nossa intensa miscigenação.

Talvez estejamos menos tolerantes moralmente, se olharmos as batalhas de minorias, mas paradoxalmente estamos nos tornando mais tolerantes com a estética.

Anne Hathaway - olhe mais fixamente durante um tempo.

Anne Hathaway – olhe mais fixamente durante um tempo.

As mulheres começaram esse movimento primeiro. Homens horrorosos passaram a ser atraentes. Elas mudaram a noção do que é uma plástica. Os homens a seguiram um pouco mais tarde, mas isso também ocorreu – e eis que os homens agora podem olhar para mulheres que até pouco tempo ninguém olhava.  É interessante notar que até mesmo mulheres que continuam a ser qualificadas como feias ganharam seu espaço para serem notadas, e desejadas, como feias – ainda como feias! A beleza que sempre deveria ser subjetiva, na verdade só realmente alcançou essa condição recentemente.

Subjetivamos tudo ao longo da modernidade e, finalmente, fizemos isso com nossos corpos – em especial com o corpo da mulher. Mas é uma subjetivização esquisita, pois sempre pronta a alçar-se na condição de universal subjetivo e, então, ter algo no plano dito objetivo.

Sabe quem é?

Sabe quem é?

O feminismo tirou os concursos de beleza da jogada nos anos oitenta. Mas agora, com a onda feminista tendo readquirido outro volume e novas conotações, esses concursos voltaram. O interessante deles é que até eles, que sempre se pautaram pela objetividade e, de certo modo, pela geometrização da beleza, agora tiveram de abandonar critérios e deixar a chamada diversidade cultural deslizar nos palcos. Em suma: todos nós sabemos dizer o que é belo e o que é feio, isso mudou, mas não mudou a ponto de não se poder dizer, com algum consenso, do que se trata. O que ocorreu foi que nos descobrimos podendo gostar do feio, e até ver beleza no feio. Entramos por uma situação que só o paradoxo semântico dá conta do que é o nosso gosto no caso do corpo humano, especialmente o feminino.

Tirando a Bruxa da Branca de Neve, somos capazes de gostar, e não por simpatia, mas por beleza, de mulheres que admitimos serem feias. É como se a revolução que ocorreu na história da arte, aquela que vários filósofos contemporâneos descreveram como sendo a ascensão do que não é belo como possível candidato a ser obra de arte, tivesse de certo modo influenciado também o nosso olhar para com a beleza da mulher. A obra de apreciação chamada mulher pode ter todas as características reprováveis e, ainda assim, chamar atenção, poder ser colocada num pedestal e, então, numa transformação curiosa, ser vista não como “o feio que agrada”, mas como belo. O feio que é … belo! E isso não pelo “conjunto” ou pela “harmonia”, mas às vezes exatamente pelo não harmônico, pelo desconjuntado.

Ainda há a mulher que causa repulsa, a mulher feia que é feia mesmo. Mas já não a encontramos senão nas situações que nós mesmos não estamos falando de corpos de mulher, mas apenas de comédia ou monstruosidade ou coisa parecida.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

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4 Responses “A mulher gorda, a mulher velha, a mulher feia”

  1. Deleuza
    18/10/2015 at 20:07

    Existem padrões sim [não sei se de “beleza”] que fazem diversas mulheres se sentirem menos belas, e talvez por isso que seja chamado de “padrão de beleza”. Por exemplo, na compra de roupas há padrões extremamente milimétricos, tem quem não consiga comprar a calça e o blazer iguais porqe tem um tamanho de quadril diferente do tamanho do ombro, ou um sutiã que fica “desproporcional” nas costas e nos seios fazendo o corpo da mulher parecer que está todo amarrado resultando em camadas de pele e gordura que se assemelham ao boneco do michelan. Mas talvez eu tenha me equivocado e a indústria da moda não importa nada na auto-estima e auto-percepção de cada mulher já que o homem pós-moderno tem a cara e a coragem de comer qualquer tipo de mulher afinal ela fica sem roupa e pode-se apagar a luz

  2. Sátiro Satire
    15/07/2015 at 14:41

    Uma parte pode embelezar o todo. Uma bela bunda pode resultar em casamento.

  3. Kelson Js
    14/07/2015 at 23:14

    Se me interessar eu como mulher feia e até namoro.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo