Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

24/04/2017

A mulher estuprada deve se matar


Kant dizia que a mulher posta diante do estuprador, deveria lutar até a sua própria morte para se defender, e rezar para que, não conseguindo, viesse mesmo a morrer. Todavia, se conseguisse escapar com vida, mas estuprada, a ela não restava outra coisa senão o suicídio. 

É difícil explicar esse parágrafo para as pessoas que têm uma costumeira dificuldade diante de filosofia. É impossível explicar isso para as feministas atuais, que vão acusar Kant de “machismo” ou, então, organizar uma “marcha contra o patriarcado” para protestar contra Kant, talvez na Av. Paulista. Se descuidarmos, elas até pode fazer uma viagem até Konigsberg, para encontrá-lo!

Mas, exceto esse  tipo, é possível contar para muitas pessoas como Kant tinha lá sua razão para manter a sua tese aparentemente estranha e, claro, perversa, se a pensamos com nosso senso comum atual.

Temos de ler a tese kantiana sob a luz de uma tensão moderna. Foucault diz que a modernidade é a entrada em cena da biopolítica. Agamben diz que biopolítica é a consideração da vida biológica, e só ela, como elemento da política, e não a vida na sua concepção pré-moderna, a que lembra o homo sacer, a vida como pessoalidade, que inclui uma ética assumida. Ou seja, a modernidade considera a vida como a vida que não é a da pessoa. O estado social-democrata cuida de não pessoas, o campo de concentração mata não-pessoas. Quando entendemos isso, damos um passo para a compreensão da ética kantiana do dever, que sempre olhamos como tipicamente moderna, como alguma coisa que, no pensamento kantiano, passa por uma tensão moderna. Kant não reduz a vida à vida biológica, ele está, ainda, sob o fluxo de ideias que fazem da vida o que mantém certa sacralidade, e assim o corpo do homem ou da mulher não são um composto fisiológico, mas como que mantendo uma aura interna. Assim, o estupro, como alguma coisa que joga a mulher para a perda da aura, para o fim da possibilidade de assunção ética, é já, de qualquer maneira, o fim da vida. Se a vida biológica não vai embora com a vida, então, que se dê cabo dela logo depois do estupro.

A ética kantiana é uma ética do dever, não da felicidade, como a ética grega antiga. Kant insiste em dizer que a felicidade vai para um lado e o dever para o outro, e uma pessoa, ou seja, um sujeito ético, dirige-se para o lado do dever. O dever implica em não dar vazão para qualquer ação que não tenha condições, por si mesma, de ser universalizada. Em suma, a versão filosófica da regra que se fez depois senso comum por espraiamento do liberalismo: trate o outro segundo a dignidade própria dele, levando-o em consideração por ele mesmo, e não mensurando-o por meio de parâmetros valorativos externos.

Assim, em um primeiro momento, podemos ver Kant como mandatário de uma ética que, apesar de liberal e moderna, longe do eudaimonismo dos antigos, ainda assim carece da característica moderna descrita por Foucault e Agamben. Kant põe a mulher para obedecer os ditamos do homo sacer, da vida ética, da honra, e não os ditames do “salve-se como corpo biológico e, se conseguir, tudo bem”.

No entanto, se olhamos com mais cuidado, podemos pensar em Kant como quem já percebeu claramente, na prática, o teorizado e historiado bem mais tarde por Foucault e Agamben. Mais atentamente, vemos que Kant está colocando uma ética do dever que, exatamente por saber que é a vida biológica que passa a contar, que é a biopolítica que passa a ser vigente, então, o que lhe resta como filósofo é instituir ou, melhor, criar a dignidade. A dignidade é moderna, ela não é a honra, ela é já a capa sobre a vida biológica, dado que toda a vida se reduziu já à vida biológica ou está prestes a assim se tornar. Um século depois de Kant e os duelos estarão proibidos no mundo germânico. A vida nua, como a define Agamben, já estará dando o sentido para a vida. É como se Kant percebesse que as mulheres pudessem sobreviver plenamente ao estupro, e inclusive, vislumbrasse que elas assim iriam fazer, e isso por meio do abandono de qualquer dignidade imperativa; é como se ele estivesse tendo a visão da situação atual, em que mulher pode ser regrada pela expressão “ufa! escapei de morrer no estupro”. Mas escapar de morrer no estupro é simplesmente admitir viver sem honra. Só quem redefine a vida como vida nua (zoé) pode pensar isso.

Ora, uma sociedade que assim pensa reduz o crime contra a vida como um crime menor, um crime contra o corpo. Ou seja, pode-se fora dos pedido de manutenção da honra, pois esta já não está mais nos parâmetros da sociedade. Mas então, que não se viva sem dignidade, diz Kant. A dignidade é a tentativa de Kant de repor a vida como vida, como o que emana do homo sacer, não a simples vida biológica funcionando. É como se Kant soubesse que, se ele não criasse a dignidade, o campo de concentração como modelo da modernidade, de que Agamben fala, pudesse vir a ser institucionalizado. É como se Kant previsse que as mulheres logo conseguiriam reduzir o estupro a um situação não ética, mas psicológica, da qual se pode cuidar por meio de terapia, e, portanto, não como algo irreversível, que não tem nada a ver com trauma psicológico, mas como uma perda da honra que impede qualquer um de estar em sociedade porque já não se está mais vivo. Kant parece querer proibir que possamos virar mortos-vivos, pessoas andando com corpo, sem que esse corpo seja uma pessoa.

Se é assim, então Kant é moderno pelos seus olhos e pelos olhos de Foucault e Agamben. Um defensor da dignidade, inventada por ele, porque ela é a guardiã da vida no momento em que a vida parece querer ser vida biológica (somente).

Paulo Ghiraldelli, 58

PS: Agora é rezar para que as feministas atuais não venham ler isso e, sem entender nada de filosofia, comecem, como fizeram com o texto sobre a Marcela Temer, ter chiliques aqui e falar que o Kant era machista etc. Não cabe. Vamos orar, vamos torcer para que essas mulheres tiburciosas não apareçam. Afinal, a filosofia é para todos, mas não para qualquer um.

Neonomicon, de Alan Moore

Tags: , , ,

10 Responses “A mulher estuprada deve se matar”

  1. Roberto
    27/04/2016 at 17:51

    Viajar para Konigsberg? Tal cidade não existe mais, ao menos não com esse nome. Mas acho que disseste isso propositalmente, afinal só uma feminista superatualizada para querer ir a “Konigsberg”!!

    • 27/04/2016 at 18:16

      Roberto, só se pode viajar para encontrar Kant se se viajar para Konigsberg, acorda cara.

  2. Camila
    26/04/2016 at 12:53

    *Sabrina.

    Euforia das ideologias e dos grupos estudantis. Coisa passageira.

  3. Rodrigão
    26/04/2016 at 12:45

    Extraindo o pensamento do texto e sendo automaticamente anti-feminista, posso forçar um pensamento parecido de que seria uma desonra para o homem ser pau mandado de mulher, o homem que depende dela, o desempregado e em casa enquanto a esposa trabalha e dá pra algum macho alfa independente( he he he ). Creio que seria nesse caso melhor ir a uma guerra e morrer nela, ou tentando sobreviver de alguma maneira diferentemente hostil no mundo.

  4. Alan Jonatã Ribas
    26/04/2016 at 00:02

    O contexto filosófico é muito importante, estupro é errado, mas infelizmente ocorre. Estamos perdendo o que nos define como homens, não andamos mais com as nossas próprias pernas, deixamos o computador pensar por nós. No caso das feministas sinto que a maioria pouco sabe ou distorce muito o papel social deste movimento, eu mesmo as apoio quando estão combatendo a violência e desigualdades, mas as repúdio quando partem para a ignorância e violência. Kant é um autor difícil de ler e temos que estudá-lo deixando de lado nossos estereótipos. Boa reflexão Ghiraldelli.

  5. Priscila
    25/04/2016 at 19:10

    A elucidação sobre a colocação filosófica de Kant foi ótima, apesar de não levar em conta que o estupro e o estuprador é que devem ser repudiados e que à época de Kant a função e o papel das mulheres eram bem outro onde o machismo era regra e a morte seria a única forma de uma mulher recuperar sua dignidade se vítima de um estupro. Hoje o contexto não é bem esse, ainda que seja verdade que a lei protege (quando muito) o corpo material esquecendo completamente do fator humano.
    Porém lamentável e desnecessária a provocação e desrespeito às feministas que atuam em favor de uma causa justa, válida e imprecindível para uma sociedade mais equalitária. Mostra que o autor pode entender filosofia, mas não sabe nada sobre mulheres ou sobre equidade ou humanidade. :/

    • 25/04/2016 at 21:01

      Priscila, um texto de filosofia nesses termos NÃO tem que repudiar estupro meu anjo. Você não foi feita para entender o que está em jogo. Não volte mais, vá ver blogs de feministas. Não volte mais aqui porque eu quero só leitores inteligentes.

    • Sabrina
      26/04/2016 at 02:05

      Você toma prazer puramente por ofender o próximo ou é só uma necessidade incontrolável de auto afirmação?
      Quanto ao texto: Kant acertou em muita coisa quanto a sua ética, mas em outras faltou a vivência ser aplicada em sua tese, deixando sua filosofia idealizadora e quase ingênua. Não que ele esteja errado em descrever uma teoria ética da forma que o fez, apenas há como questioná-lo (o que acontece com todos filósofos).
      Pode-se dizer que a análise dessa afirmação de Kant sobre a mulher estuprada enquanto parte integrante de sua filosofia não foi equivocada; da mesma forma que o alerta para o contexto histórico dado acima também não o foi.
      Assim como cabe esse texto interpretativo/explicativo de uma micro parcela da filosofia de Kant, cabe também uma análise histórica contextual do trecho.
      Pra finalizar: Sua intolerância e generalização com as tão citadas “mulheres feministas” levanta um questionamento sobre você mesmo a cerca da ética tão explorada pela filosofia. A meu ver, de um filósofo, espera-se muito, mas não se espera a intolerância. Principalmente dirigida a um grupo de luta por igualdade.
      Espero que compreenda meu comentário sem exaltações e sem precisar se provar em cima dele.

      Feminista e estudante de Filosofia.
      Abraço.

    • 26/04/2016 at 09:14
    • Camila
      26/04/2016 at 12:50

      Priscila, você é apenas uma estudante, ainda na euforia dos movimentos. Apenas uma estudante.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo