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26/09/2017

“A mulher é bela” – construindo a filosofia


Talvez a linguagem não seja o limite do mundo ou nem possa ser confundida ou fundida com o mundo, mas é difícil não dizer que à Bruxamedida que ela vai se transformando ela arrasta o mundo. Às vezes, ele não arrasta para diante, mas para os lados e até mesmo para trás.

“A mulher é bela”. As pessoas olham as mulheres e, então, descobrem que essa frase mente, pois Vanda é mulher e, por causa do trabalho (e infortúnios dele e da vida), não possui nenhuma beleza. Fisicamente está um trapo, espiritualmente não tem mais nenhum humor ou criatividade, intelectualmente não consegue formular nenhum raciocínio ou entender uma ideia, moralmente é ressentida, perversa e cruel. Vanda não é bela. Como então “A mulher é bela”? Ah, a solução é, ao menos inicialmente, dizer que Vanda já nem é mais mulher. Mas, sabemos bem, estamos nos enganando, Vanda é mulher. Então, tentamos outra saída e dizemos que o mundo desmente a linguagem, ainda que esse mundo que desmente a linguagem só o faça mediante a linguagem. “A mulher é bela e, no entanto, há mulheres que, com Vanda, não são belas”.  Ora, mas que fórmula ridícula é essa? Não nos serve absolutamente para nada.

Justamente porque uma frase dessas não nos serve, então deixamos “a mulher é bela” de lado e passamos a cultivar a frase “não se olha uma mulher pela beleza”. Achamos então que demos um passo maravilhoso. Mas não. O que fizemos foi abrir mão de uma marca importante: “A mulher é bela” dizia na cara de Vanda que ela não era bela e, ao mesmo tempo, também obrigava que se comentasse: “mas se Vanda é mulher e a mulher é bela, como é que foi que Vanda acabou sendo isso aí, mulher, porém não bela?” Ao fazer essa pergunta, exigida por “A mulher é bela” e por “Vanda não é bela”, todo um universo se abria: Vanda manteve-se mulher, mas sua vida lhe tirou a marca pela qual ela seria mais facilmente reconhecida como mulher. Vanda andando parece um trapo, falando parece um bicho e em ação parece um monstro. O que a vida fez com Vanda?

Essa pergunta só pode é colocada se não abrimos mão de “bela” como qualificativo de “mulher”. Então, que a linguagem segure o “bela” junto com “mulher”. A linguagem que arraste o “bela” e “mulher” no mesmo vagalhão, vá ela para onde for. Mas, se a linguagem se modificar, levando o termo “bela” para um lado e o termo “mulher” para outro, os dois perdem. Aí, tanto a mulher como o bela, e nós também, perdemos. Abre-se mão de um horizonte no mínimo questionador em favor de um horizonte conformista.

Há pessoas que preferem dizer que isso que eu fiz foi fixar o conceito de mulher e cobrar eternamente seu caráter normativo. Mas, não é verdade. Minha forma de filosofar não é a de produção de conceitos. Pois se traduzo “A mulher é bela” como conceito e não como apenas uma boa frase para o que quero conversar, corro o risco de nunca mais conseguir ter Vanda: ela é decretada como fora do conceito e, então, deixa de ser mulher. Ganha outro caminho e se perde enquanto não se achar para ela outro conceito.

É melhor mantermo-nos no âmbito do uso da linguagem para lidar com o mundo, não com conceitos para amarrar o mundo.

 Bar RefaeliPoderia alguém brigar por Vanda dizendo: “Vanda é mulher sim, e vou ampliar o conceito de mulher para que ela não seja injustiçada”. Não vou por esse caminho, pois eu duvido que algum conceito de mulher não resulte, ao final, em um campo excludente não mais de Vanda, mas de Lúcia. Prefiro lidar com enunciados, não com conceitos: “a mulher é bela” é um enunciado que me faz bem, me parece bom e, principalmente, vejo nele grande utilidade. Vanda ou vai ficar bela, de alguma maneira, ou não ficará bela, mas continuará, então, a ser uma fonte de indignação para todos. Minha filosofia se mantém, desse modo, no trabalho de não deixar tudo que ocorreu com Vanda cair no banal ou ser esquecido. Chamo a essa minha forma de trabalhar como “a filosofia enquanto desbanalização do banal”. É o oposto da crítica, que busca fundamentos, ou da produção de conceitos, que busca coroamentos. É diferente da filosofia que busca mostrar o que está “por trás”. Não busco mostrar nada, apenas continuando olhando para o que todos estão olhando e vendo. Cobro mais perspectivas, cobro mais enunciados, escolho bons enunciados. Só isso. Mas isso, para mim, é muito.

2013 © Paulo Ghiraldelli Jr. filósofo, escritor e professor da UFRRJ

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5 Responses ““A mulher é bela” – construindo a filosofia”

  1. JOELMA CAVALCANTE
    02/05/2013 at 12:39

    gostaria de comprar alguns livro seu, onde posso comprar, tem na net!

    • 02/05/2013 at 15:57

      Joelma, Livrarias: Cultura, Folha de S. Paulo, Martins Fontes, Travessa etc.

  2. Sara
    30/04/2013 at 15:45

    Combinado.

  3. Sara
    30/04/2013 at 10:07

    Ajude-me a entender….uma perspectiva crítica, da busca de fundamentos ou a produção de conceitos vai tentar explicar, justificar o fato de Vanda não ser bela e buscará ampliar o conceito de beleza, para que Vanda seja incluída, embora outras mulheres ainda permaneçam excluídas. E assim, é preciso ampliar ainda mais o conceito. Porém, ao fazer isso, banaliza-se o fato de Vanda não ser bela, já que ser mulher é ser bela. Desbanalizar o banal é ter mais perspectivas a partir de bons enunciados? E como escolher bons enunciados?

    • 30/04/2013 at 10:18

      Sara, de modo muito cru é isso, mas eu sugiro que pegue os meus dois volumes A aventura da Filosofia (Editora Manole). Combinado?

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