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25/09/2018

A mágica da neurociência jornalística


A auto-ajuda é sem dúvida a pior literatura, seguida de perto de livros psicografados e livros de evangélicos caça-níquel. Nesse rol, a auto-ajuda adjetivada como “neurociência” segue firme no páreo. É tão ruim quanto as outras, mas talvez seja até mais danosa.

Ela se baseia em uma farsa de caráter tão infantil que é até assustador que seja algo de interesse de alguns professores universitários: o endeusamento do cérebro, sua eleição ao novo Absoluto. Tudo é relativo, menos o cérebro. Vindo dele, principalmente a partir de mapeamentos cuja ciência é, não raro, pouco científica, tudo deve ser levado a sério. Caso um rim venha a dar opinião ou uma classe social apareça para reclamar de algo, não devemos ouvir. Só ouvimos se isso vier por meio de um eco do cérebro. O mundo é reduzido a “células neuronais”. E até mesmo relacionamentos amorosos, casamentos e administração do país e “como cozinhar” só podem ser entendidos se a narrativa começar com “O cérebro humano …”. Deveria ser melhor assim: “Era uma vez um cérebro humano que …”

Qualquer aluno do ensino médio que tenha boas aulas de história, filosofia e biologia pode dar risada da literatura jornalística produzida pelos tais “neurocientistas”. A história mostra que no nosso corpo o cérebro nunca foi decisivo, que isso é algo recente e, talvez, passageiro. A filosofia mostra como que morte e vida não são simétricas pelos nossos critérios atuais, e que se a morte é cerebral tal coisa não vale para a vida. Só isso já deveria nos colocar alerta sobre o absolutismo do cérebro. Por fim, a biologia garante que nossa evolução se dá de maneira fortuita, e que não faz sentido tomar o cérebro como o cume da evolução a não ser por um vício moderno, onde a ideia de “progressismo” se casa com a ênfase na ideia de cognição centrada em um aparelho, no caso, o cérebro.

Além disso, o “neurocientista” de jornal deveria saber que não está em campo sério por uma simples razão, o nome dele: “neurocientista”. Um cientista de qualquer área é um cientista, nada se acrescenta a seu nome. Não precisa disso. A junção de “neuro” com “cientista”, para qualquer um que entende um pouco de idiomas e da língua, mostra-se como uma falcatrua semântica, um modo de fazer uma palavra receber o apoio de outra em favor de uma legitimidade que, se existisse, dispensaria a junção de palavras.

Por fim, o que mais salta aos olhos quanto à farsa da “neurociência” jornalística é sua não percepção que tudo que ela fala baseada no cérebro, outras áreas podem falar sem tal base, e que a consulta física ao cérebro não serve para identificar nada, a não ser fazer correlações. Quando digo que alguém é irritado e falo que a irritação ocorre junto com uma mudança química nos neurônios XWZ, não estou dizendo nada a não ser que há uma coincidência entre fatos que eu correlaciono, um fato no humor e outro no cérebro, mas tais ocorrências podem muito bem não constituir em causa e efeito, e que um não é o garantidor da verdade do outro. Esse é o saber mais simples que filósofos e biólogos conhecem bem, se são filósofos e biólogos sérios. Aliás, esse é um saber banal, e é interessante que o “neurocientista” jornalístico não perceba que ele não pode dizer que alguém é “nervoso” por causa da mudança de XWZ, e que, portanto, o mapeamento cerebral não revela nada de certo e indubitável.

Desse modo, pesquisar o cérebro e o humor para fazer correlações é útil, mas não serve para uma ciência de diagnósticos que busca afirmar verdades a partir de ocorrências cerebrais. Ou seja, o campo de pesquisa está aberto e é legítimo, mas o modo como a “neurociência” jornalística se aproveita dele para ditar normas, diagnósticos, pareceres e avaliações dos atos humanos não tem validade., não nos termos que ela trabalha.

Tudo isso é fácil de perceber para quem não lê auto-ajuda. Mas para quem lê auto-ajuda a pseudo-ciência é uma sobremesa, e todo esse meu artigo não faz sentido, porque é gente que tem o pensamento mágico, e não entende o raciocínio nada mágico que exibi aqui.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

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6 Responses “A mágica da neurociência jornalística”

  1. Maria Martins
    09/12/2015 at 02:07

    Muito bom.
    Imagino que, a contar com o avanço da neurociência, pequenas cirurgias nas áreas cerebrais da fome e da saciedade resolveriam questões tão “sem importância” da fome no mundo… a neurociência põe tudo ao nosso alcance. É só acessar. Que milagre!

  2. Sátiro Satire
    22/07/2015 at 11:20

    Paulo, porque é tão fácil para nós dar crédito a esse discurso da neurociência que claramente é um engodo? É só procurar pra saber que as pesquisas sérias nessa nessa área são aquelas que relacionam lesão cerebral com funções motoras, ou funções executivas como eles chamam. Será que é só desconhecimento?

    • ghiraldelli
      22/07/2015 at 11:30

      A pesquisa séria nessa área não leva o nome de “neurociência”, embora às vezes até aceite a denominação. Essa “neurociência” dessa mulher aí, a Susana, isso é uma grande bobagem.

  3. Wagner Santos
    22/07/2015 at 01:40

    Esse debate entre psicanálise e neurociência é um bom aperitivo:

    https://www.youtube.com/watch?v=gC6k3idaqaE

  4. Maximiliano J. Paim
    21/07/2015 at 21:04

    Lembrei de uma matéria que dizia que havia sido encontrado no cérebro onde se localizava o mal e que com um determinado procedimento se poderia extinguir o mal do indivíduo. Coitado do nosso amigo Agostinho e da Hannah, não?

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