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21/10/2018

A lição do Dr. Hélio – aprendida por uns, não aprendida por outros


[Artigo para o público em geral]

Para a nação, Hélio Bicudo foi o jurista que combateu o Esquadrão da Morte, e para os mais jovens que leem pouco, ele foi o autor do Impeachment de Dilma Roussef, do PT, partido que se transformou numa serpente que ele amargou ter alimentado. Para os que leram seu belo Minhas memórias, publicado quando ele tinha apenas 84 anos (Hélio morreu ontem, aos 96), ele nunca deixou de ser uma figura quixotesca. Para Carlos Lacerda, ícone da direita do passado que, enfim, ao menos sabia ler, ele foi aquilo que está relatado nesse livro. Lacerda não quis publicar seu relato sobre o Esquadrão da Morte dizendo “Você não vai tirar carteira de valente às minhas custas…” A história respondeu a Lacerda: você tirou a carteira de covarde, meu caro.

Para mim, Hélio Bicudo foi tudo isso, mas, também, algo valioso demais, para enaltecimento pessoal: ele foi meu amigo. Participou do Hora da Coruja, para o qual foi sozinho, ele mesmo dirigindo, aos noventa anos. Depois, esteve solitário em uma aula minha, na UFRRJ, para falar de Direitos Humanos, já aos 92 anos. Foi sem pedir nada, voltou sem pedir nada. Falou para uma plateia pequena. Dormiu em hotel modestíssimo e participou de uma rodada de vinho num boteco em Seropédica, com alguns amigos. “Paulo, você é um scholar, e hoje o que falta nesse governo aí são pessoas que ao menos saibam o que é um scholar” – ele me disse, lá pelas tantas da noite. Ele era de uma simplicidade ímpar, sem cerimônias.

Hélio Bicudo foi aquele homem que nasceu para ser um incômodo aos amantes do poder e das coisas fáceis. Se opôs a Adhemar de Barros e a Fleury, em questões espinhosas de Direitos Humanos. Fez o mesmo contra Dilma, quando ela e Lula entregaram as terras fronteiriças aos militares (sim!). Fez mais ainda ao ser o autor do processo de Impeachment. Mas já tinha marcado a história da esquerda ao sair do PT quando da expulsão da senadora Helena. Mas Hélio não acompanhou seu amigo Plínio Sampaio para o PSOL. Ele me confessou um dia: “Paulo, o Plínio … eu não sei o que ele quer, ele me fez entrar no PT, e agora ele está num partido pequeno que vai cometer todos os erros do PT”. Dito e feito: aí está o PSOL servindo de PT 2.0.

Talvez uma das minhas maiores dores em relação à morte de Hélio Bicudo, além da perda do amigo e do grande homem da cultura nacional, foi o de ele não ter conseguido ensinar à Janaína Paschoal que a direita formada por Bolsonaro, como ele mesmo enfatizava, é fascista mesmo, é herdeira dos dizeres de Plínio Salgado, o fundador do Integralismo. Hélio temia essa gente bolsonarista, os achava como piores que os integralistas, pois não sabiam ler um pequeno texto, um aviso, uma propaganda, nem mesmo uma bola de xarope popular. Hélio tinha pavor da incultura.

A juventude que aí está, e talvez a própria Janaína, mesmo sendo professora de pós-graduação em Direito na USP, não tem o apreço pelo Minhas memórias de Hélio Bicudo. Deveriam comprar o livro, ler com carinho, ganhar inspiração, e entender que a própria profissão de promotor ou de advogado ou de juiz não podem estar à serviço de partidos e homens que tem desprezo pelos Direitos Humanos. Gostaria muito que minha amiga Janaína pudesse ver isso, antes de ter a biografia manchada eternamento pelo convívio com os bolsonaristas.

Hélio Bicudo fechou o instituto que ele presidia, cuidador de Direitos Humanos, aos 93 anos. Encerrou o blog. E confessou: “não há mais quem se interesse por isso”. Era uma confissão de derrota. Mas, ao mesmo tempo, solitário e até mesmo contra a família, Helio Bicudo ainda subiu aos palanques para dizer que Lula era de fato um malefício. Ah! Que saudades que já sinto do “Dr. Helio”. Aos 60 anos, sinto-me como um criança órfã. Saudades do … Henfil. Saudades e uma geração que antes de ser de esquerda ou de direita, gostava dos livros, dos bons livros. Gente que pegava um Homero nas mãos e… ria.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo, professor da ECA-USP e do CEFA.

5 Responses “A lição do Dr. Hélio – aprendida por uns, não aprendida por outros”

  1. Marcelo Andrade
    17/10/2018 at 14:06

    Confesso que minhas impressões sobre o Hélio Bicudo passaram por três fases distintas.

    A primeira: como grande jurista de esquerda que ajudou a fundar o PT e depois o deixou por óbvias desavenças de ordem ética;

    A segunda: como o jurista velho gagá que ajudou a Janaína a pedir o Impeachment;

    A terceira: depois de ter lido seu artigo e compreender melhor este homem como um jurista legalista (olha que nesses tempos não é pleonasmo!!!). Fico muito feliz em descobrir que ele não estava do lado dessa gente bolsonarista que anda com a Janaína.

    Não conhecia sua biografia dele até os 84 anos, vou procurar ler ela. Todavia, já fica aqui um pedido a você Paulo Ghiraldelli. Essa biografia precisa ser completada em mais 12 anos, você bem que poderia fazê-lo. É um pedido de uma pessoa que mudou a visão que tinha de um homem mediante a leitura do seu curto artigo.

    • 17/10/2018 at 18:00

      Marcelo, o petismo é uma máquina de moer cabeças, como foi o janismo, o lacerdismo, o brizolismo, o varguismo etc. Agora temos o bolsonarismo. Esses “ismos” trituram cabeças e os filósofos precisam se manter alertas para falar para as pessoas coisas para além dos “ismos”

  2. LMC
    02/08/2018 at 13:08

    Foi o PSOL que entrou no STF com
    uma acão pra descriminalizar o
    aborto.O PT mandou no Brasil e não
    legalizou o aborto porque é um PMDB 2.0.

  3. Luma
    01/08/2018 at 20:29

    Grande perda para o país…

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