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20/10/2019

A invenção da razão


O pensamento que usa o elenkhós

“O bom senso é a coisa mais bem distribuída entre os homens”, escreveu o filósofo francês René Descartes. Sabemos que não é, mas trabalhamos com a mentira de que tem de ser. Em outras palavras: ainda carregamos a velha ideia de Aristóteles de que o homem é um “animal racional”, mas isso como um conceito, não como um qualificativo empírico, pois o que pode haver de racionalidade no homem sempre perde para o que há efetivamente de irracionalidade.

Não somos os guardiões e proprietários naturais da razão, como queremos ser ou ao menos como os intelectuais ocidentais quiseram que fôssemos, mas nossa autoimagem como tal acabou vingando. No meio disso, naturalizamos a razão. Mas a própria filosofia nos mostra que se há algo que tivemos de nos esforçar para construir historicamente, este algo realmente foi a nossa prática de racionalidade.

O pensamento é uma coisa, a razão outra.

A razão tem no mínimo três características para o filósofo americano Richard Rorty: ela é razão técnica, aquela faculdade de adequar meios a fins; ela é razão valorativa, aquela capacidade de hierarquizar e fixar fins e objetivos; ela é a razão social, aquela capacidade de sociabilidade liberal, com a qual dizemos “sejamos racionais”, principalmente diante de uma iminente prática de violência.

Os filósofos da Escola de Frankfurt preferiram falar que a razão não é devedora somente à palavra grega logos, mas também a eros e cronos. Ou seja, a razão é narrativa e cálculo, sendo logos, mas também abarca o desejo de completude e a dimensão temporal.

O pragmatismo americano e a os filósofos alemães frankfurtianos, ambas as escolas filhas de Hegel, nunca levaram a sério o próprio mestre como deveriam ter levado. Ficaram muito mais preocupadas em discutir a filosofia como “filosofia do sujeito”, como filosofia moderna, e não deram atenção devida à filosofia como construtora do nosso pensamento atual, ou seja, como a filosofia foi instigando todos nós a darmos importância para o uso da razão. Não o uso da caricatura da razão, nem o uso do conceito de razão, mas a razão mesma, aquilo que se colocou na estrutura da linguagem dos homens cultos nos seus regimes de atividades também cultas.

Houve uma história da filosofia que atentou para isso e terminou quase ridicularizada por tal empenho. Isso se deu com aqueles que chamaram o pensamento racional que emergiu na Grécia, a própria filosofia, como “o milagre grego”. Os marxistas chamaram tal história de ingênua. Eles sempre quiseram historicizar a sociedade para dela tirar o “milagre grego” como um não-milagre, como algo vindo de viagens, mercado, expansão de comércio e modificação do trabalho. Mas isso não ajudou em nada. Nunca entendemos mais do que já sabíamos ao fazer esse tipo de história da razão.

A filosofia, por ela mesma, mostrou que foi do embate entre Heráclito e Parmênides que o pensamento racional, o logos, se manifestou. Aí estaria o milagre. Parmênides reconheceu uma tal coisa como nova, grandiosa, ao iniciar seu poema falando que aquilo que iria contar era uma mensagem das Musas, não dele mesmo. Mas o processo racional como elemento do pensamento capaz de disputar espaço com outras formas de pensamento, só com Sócrates ganhou de fato um estatuto próprio. Platão (sim mais uma vez Platão!) foi o inventor disso tudo ao escrever como escreveu a Apologia de Sócrates. Esse é o texto que deveríamos notar como aquele que veio para contar como que foi que se fundou o pensamento racional.

A história do conteúdo da Apologia é conhecida e, não raro, é contada sem as emoções necessárias e sem a devida atenção. Pensa-se nela por meio de um viés energúmeno-cristão que atrapalha tudo. Fala-se de Sócrates antes como mártir da filosofia que como herói do pensamento. Colocam uma cruz nas suas costas. Ora, se há uma coisa que não cabe em pensadores gregos, nem mesmo em Platão, é cruz. Mas nós teimamos em não sermos inteligentes, e desprezamos o melhor da história.

O melhor da história se dá na decisão de Sócrates de não contratar os serviços de um advogado, de um bom retórico, para fazer sua defesa. Ao decidir isso, Xantipa, sua esposa, o avisou bem: você está agindo como louco, e vai morrer! Exatamente, ao optar pelo discurso próprio, que iria seguir os procedimentos estritamente racionais, Sócrates mostrou o que Nietzsche sempre disse: que tudo que reluz nasceu do escuro, que todo tipo de deus bondoso é filho do demônio. A razão é a antiloucura nascida da loucura dos filósofos. Sócrates fez a loucura de entregar-se a si mesmo, ao uso da argumentação racional, quando o correto para salvar-se da condenação e da morte seria o uso da retórica, a praxe do discurso jurídico de então.

O uso de argumentos racionais era uma novidade tão novidadeira que ninguém entendia como que Sócrates poderia, com a filosofia e com a exposição da verdade, obter os votos dos cidadãos de Atenas feitos jurados. Talvez um grande sofista retórico pudesse salvá-lo. Talvez? Não! Certamente o salvaria. Pois os julgamentos eram pautados exatamente no oposto de hoje. Os cidadãos-jurados ficavam esperando um discurso laudatório, bem reconhecível, e se este era feito com a pompa e com as palavras de praxe, necessárias, dificilmente as acusações contra Sócrates o levariam à morte. Mas Sócrates rejeitou isso e disse que ele próprio falaria diante dos jurados, que ele trabalharia em torno da verdade.

Sócrates fez aquilo que hoje fazemos. Alguém que faz uma defesa conta como as coisas chegaram ao pé que chegaram e, depois, diante das acusações, usa da chamada capacidade de levar as testemunhas de acusação a “cair em contradição”. Eis aí o que entendemos como o núcleo da lógica e o centro do pensamento racional. Qualquer bom advogado aprende isso. Qualquer um de nós trabalha dessa forma ao “aplicar a razão” com o intuito, óbvio, de obter a verdade. Mas isso não era o comum, ao contrário, exatamente a prática retórica despreocupada com a contradição ou com a verdade era o que se entendia como o máximo na arte de defesa.

O ritual de um discurso laudatório, com as palavras, vírgulas e entonações esperadas pelos jurados, era o que valia. Sócrates colocou de lado tudo isso e avisou no início de sua falação que iria trabalhar fora dos cânones e da praxe do tribunal. Ou seja, é como se tivesse dito: vou trabalhar da maneira que os advogados, no futuro, trabalharão, tentando mostrar a incoerência e a insustentabilidade das acusações. Que isso seja entendido. Como? Impossível. Ninguém na plateia tinha essa prática como alguma coisa normal, corriqueira, como o que se deve fazer para inocentar ou acusar alguém. A razão não era a coisa mais bem distribuída entre os homens e só depois de Platão teríamos, então, Aristóteles, dizendo que o homem é um “animal racional”.

Talvez seja por isso mesmo que Aristóteles, quando começou a ouvir que ele estava com fama de ateu, tratou de fugir de Atenas, e usou a justificativa ferina, irônica e digna de um bom filósofo: “vou fugir para que Atenas não cometa um segundo crime contra a filosofia”.

Caso conseguíssemos entender o que é uma sociedade que tem um pensamento rico, mas que não carrega a razão como prática natural, poderíamos ver para quem Sócrates discursou e entenderíamos facilmente como que perdeu. Aqueles que acham que ele perdeu por conluios políticos podem até estar certos, mas, pelo número de votos que ele obteve a seu favor, é muito provável que se seguisse a praxe teria se saído bem melhor.

Seu discurso foi pífio. Seu discurso foi o uso da filosofia: história de caso e manejo da contradição. Ninguém entendia disso. O que se entendia era um discurso em que os feitos dos ancestrais de Atenas, inclusive os deuses, tivessem alguma ligação com o demos de onde veio Sócrates, como que seu pai serviu a cidade a partir de dons de divinos que nele se manifestaram como escultor e assim por diante. Era isso o que se queria ouvir. Também se queria ouvir um pedido formal de desculpas de Sócrates, se pondo como um homem velho que teria falado algumas asneiras. Sócrates tinha de ser mostrado como alguém extraordinário nesse sentido fantástico e fantasioso, e ao mesmo tempo gagá.  Mas o que ele tinha de fantástico, o uso novidadeiro do discurso racional e filosófico, isso era ser louco, não gagá. Hoje, é sinal de sanidade. Mas, no seu início, era o sinal da loucura, da insanidade corruptora do pensamento de até então. Ora, nesse sentido, de fato Sócrates poderia mesmo ser um corrupto. Os atenienses atiraram no que viram e acertaram no que não viram.

Os ignorantes de hoje funcionam em um misto ridículo de enaltecimento e busca de verdade que não passa da verdade seca, infantil, fruto de uma literalidade imbecil. Não são os cidadãos de Atenas aquém da filosofia. Que não se confunda isso. Os cidadãos de Atenas eram inteligentes, mas ainda não eram os praticantes do logos. Platão fez a Apologia de Sócrates exatamente para mostrar que Sócrates morreu pela filosofia. Não era um mestre da corrupção dos jovens que, teimosamente, morreu para que a filosofia vivesse. Era um mestre no uso de uma novidade, a argumentação racional, a investigação que deveria caminhar para a refutação (elenkhós) daquilo que se assumiu no início e, então, testar outras e outras hipóteses. Esse tipo de procedimento, que também depois passou do campo jurídico para o da ciência, mas que fez longo estágio no confessionário, infelizmente brilhou sem brilho no julgamento do homem que era um devoto não só de Apolo, mas da capacidade racional que foi o “milagre grego”.

© 31 de dezembro de 2013, Paulo Ghiraldelli, filósofo

PS. O elenkhós deveria ser levado a sério como o modo de fazer filosofia que se universalizou como modo de pesquisa. Mas, no Brasil, há muitos estudando Sócrates sem nunca sequer atentar para essa palavrinha, o elenkhós, que diz muito. Sobre esse método, escrevi vários livros de história da filosofia. Pela Editora Contexto, Escrevi o História da filosofia – dos pré-socráticos a Santo Agostinho. Pela Editora Manole, escrevi os dois volumes de A aventura da Filosofia e o A filosofia como medicina da alma. Em todos eles há esse “pulo do gato” de Sócrates e a ideia de como criamos a razão para nos chamarmos, então, de os ocidentais, os racionais. Entender tudo isso é também entender o quanto os gregos não se deram muito bem com os persas, e como que hoje nosso império não se dá muito bem com o Irã.

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3 Responses “A invenção da razão”

  1. Sergio
    07/10/2014 at 09:49

    Olá Mestre! Tudo bem, estou lendo seu livro aventura da filosofia vol 2 e na pg25 você fala das três dimenções da razão, eros cronos e logos, quanto ao logos tudo certo, mas e quanto ao eros e cronos, gostaria que me explicasse melhor, pode ser?

  2. Mario Luis
    01/01/2014 at 23:13

    O grande problema, a meu ver, é que numa certa medida a razão derivada do logos tornou-se, via de regra, o limite dimensional da linguagem no que concerne a vigência do real.

    • 01/01/2014 at 23:58

      Mário Luis, essa tese weberiana frankfurtiana não se sustenta, pense na definição rortiana e verá que não há como reduzir a linguagem ao cálculo e não fazemos isso.

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