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29/05/2017

A inveja chega aos pensadores europeus: Zizek versus Sloterdijk


Peter SloterdijkSomos capazes de admitir tudo que há de mal em nós, menos a inveja e o ressentimento. Não negamos nunca que a inveja sobre nós exista, mas não a confessamos em nós jamais. Guardamos a muito mais que sete chaves nosso parentesco com Caim, mesmo admitindo sermos parentes de Abel.

Não à toa, ao erigirmos teorias sobre a cidade, nem sempre reservamos um lugar especial para considerar a inveja e o ressentimento. Marx a admitiu corajosamente. Ele falou em “comunismo de inveja” como um elemento psicossocial presente entre aqueles que poderiam querer antes expropriar burgueses individuais que efetivamente transformar a sociedade em algo melhor. Mas, sabe-se bem, o grande teórico do ressentimento foi Nietzsche, e com ele também a inveja entrou oficialmente para o interior do campo temático da filosofia social.

Os americanos trouxeram esse tema, nietzschiano par excellence, para o campo da filosofia política de uma maneira consistente e central. Justamente eles, sempre acusados de psicologismo, o trataram mais objetivamente, incluindo o par inveja-ressentimento como um problema a ser equacionado, quiçá resolvido, pela filosofia política liberal.

O liberalismo igualitário de John Rawls e o libertarismo de Robert Nozick brotaram entre os anos sessenta e início da década de oitenta como as duas grandes construções teóricas americanas, certamente mundiais, que trataram diretamente do par inveja-ressentimento. A Europa nunca deixou de lado esse assunto, mas chegou atrasada na assunção aberta de que a filosofia, centralmente, teria a ver com isso, e que não se deveria empurrar uma tal coisa para o interior de clínicas psicológicas ou devolvê-la para o confessionário ou, então, mantê-la no campo dos contos folclóricos, sempre muito restrita aos poderes de alguma potência mítica capaz de agarrar e dominar o vilão da história.

Mais recentemente os pensadores europeus tem conseguido colocar o assunto no campo da filosofia política. Dois pensadores midiáticos têm falado do tema. O filósofo alemão Peter Sloterdijk tem enfrentado o assunto de modo altamente criativo. Isso acabou forçando o filósofo esloveno Slavoj Zizek a retrucar, reeditando em moldes europeus, bem curiosos, o que foi feito na terminologia americana mais cedo.

Sloterdijk tem o seu livro Tempo e ira, publicado no Brasil, em que ele trata profundamente o ressentimento. Todavia, esse tema foi objeto de seus artigos recentes, escritos sob a ótica mais cotidiana e jornalística, e que foram reunidos no ano passado, 2012, em uma publicação francesa, Repenser l’impôt (Paris: Libella). Por sua vez, Zizek refere-se exatamente a esses artigos em um seu livro de 2012, O ano em que sonhamos perigosamente, também já publicado entre nós (São Paulo: Boitempo). Essas duas publicações dão um bom contorno ao tema.

Resumindo ao máximo, os argumentos são o seguinte.

Sloterdijk diz que a coisa toda do pensamento social começou de um modo senão equivocado, ao menos viciado, quando o filósofo genebrino Jean Jacques Rousseau iniciou a sua filosofia política a partir da célebre passagem em que o homem cerca um pedaço de terra e diz “isso é meu”. Essa tradição de abordagem desembocou em Marx, tendo passado por Kant e Hegel. Nessa linha, o homem proprietário e, de certo modo, mais rico, nunca mais foi visto senão como alguém que cometeu algo próximo de um roubo, e que então deveria ser tratado pelo estado como tendo contraído uma dívida para com todos os outros, dívida esta paga à sociedade por meio de uma quantia de dinheiro com um nome semanticamente revelador: imposto.

Peter SloterdijkSloterdijk acredita que uma sociedade assentada nessas bases estatais impositivas são fruto de uma ordem psicossocial gerada no desequilíbrio entre o que a filosofia de Platão tratou como eros e thymos.  A força desejante nos homens, a carência, é fruto de eros, e impulsiona todos nós para as tarefas de arrecadar dinheiro e acumular poder. Essa força sobrepujou a outra, a de origem no thymos, a ponto de ser descrita, não raramente, como a única existente, a base de toda a sociedade. Não precisamos nos lembrar da autoridade da psicanálise (como teoria descritiva do que somos) entre nós modernos.

Todavia, deveríamos nos lembrar de uma força que caracterizou o homem pré-moderno, aquela oriunda do thymos, o impulso para a ira, capaz dos atos de bravura, formação da identidade, exposição do orgulho e algo próprio no sentido de despertar o respeito. Considerando as inversões nietzschianas, Sloterdijk tende a dizer que é essa a força responsável pela generosidade, pela doação, enquanto que a força erótica é causa do ressentimento e da inveja. À primeira vista podemos duvidar disso, mas quando retornamos aos casos de crimes de inveja, a começar pelo que ocorreu com o trio Deus-Abel-Caim, temos de reconhecer que Nietzsche não era nada bobo. O amor de Deus, ao se dirigir a Abel, mesmo tendo sido ele o que não trabalhou e, sim, o que apenas fez filho, gerou o ressentimento e a inveja em Caim, levando-o ao assassinato do irmão.

ZizekConsiderando as energias timóticas, então, o tratamento dos mais ricos, pelo estado, estaria completamente errado. Visto por essa ótica, e não exclusivamente como no interior de um mundo predominantemente erótico, eles não deveriam ser tratados como produtores incapazes de generosidade. Eles deveriam ser vistos como agentes possíveis de forças timóticas, da identidade do orgulho gerado na ira combatente, e, por isso mesmo, capazes de generosidade. Assim, deveríamos tentar, em nossas sociedades, diminuir impostos e ampliar as possibilidades de doação voluntária. Isso não deveria ser feito abruptamente, mas em doses homeopáticas, dando aos ricos a liberdade de escolha na hora de investirem essas doações, o que substituiria o ex-impostos, na vida da cidade.

Zizek comenta essa proposta falando da substituição do “proletariado” pelo “voluntariado” no contexto do sujeito histórico de mudanças. Logo em seguida, passa a criticar a ideia de Sloterdijk, que, diga-se de passagem, não é alguma coisa pensada a partir de sociedades como a nossa, a brasileira, mas a partir de sociedades europeias em que anos de keynesianismo, de social democracia, teria deixado a classe média rica como a maior e talvez única força responsável pelos impostos.

É claro que Zizek não gosta dessa ideia. Ele tripudia sobre ela por meio de exemplos empíricos, de como que os causadores de males sociais são justamente os tais bons doadores. Ele vocifera até contra Bill Gates, dizendo que suas generosas doações só aparecem após ele ter se tornado rico por meio da eliminação da concorrência de maneira pouco louvável. Mas Zizek não fica nisso. Ele também tenta incursões pela filosofia propriamente dita. Diz que Sloterdijk ainda está baseado em Rousseau, e de modo acrítico até, pois está crente na “bondade natural” dos homens, ao menos os que seriam os doadores. Além de tudo isso, ele rediscute a relação entre thymos e eros.

Zizek relembra – não de todo errado – que a inveja e o ressentimento estão do lado do thymos, que intervém no domínio de eros, “distorcendo o egoísmo ‘normal’, isto é, “tornando aquilo que o outro tem (e eu não tenho) mais importante do que aquilo que eu tenho”. Já adiantando uma possível tréplica de Sloterdijk, que poderia dizer que não está considerando thymos e eros a partir da psicologia, responsável por tais e tais sentimentos individuais, mas como forças psicossociais e políticas, e que então deveríamos sim entender que é eros, a carência, que uma vez não satisfeita sempre produz a inveja e o ressentimento, Zizek lança uma cartada conhecida: por que Sloterdijk “afirma a generosidade somente dentro dos limites do capitalismo, que é a ordem o eros possessivo e da competição?”.

Estou longe de querer encerrar esse debate com uma conclusão minha. Prefiro colocar mais lenha na fogueira de ambos. Não estou entre aqueles filósofos que quer tirar os outros seus colegas do ringue, uma vez que, pelo que vejo nenhum ainda corre risco de traumatismo craniano. Talvez seja útil, então, ponderarmos esses argumentos todos em um próximo texto.

Mas, para deixar aqui já o gancho, deveríamos lembrar que o thymos, em Platão, é a parte da alma que tem sim, capacidade de se voltar para objetivos nobres. Não à toa é da força timótica que surgem os elementos da cidade ideal que seriam os responsáveis pela sua guarda, perante um inimigo externo. Assim pensando, a tese de Sloterdijk ganha uma coloração mais plausível diante das objeções de Zizek. Mantenham isso na cabeça, pois voltaremos ao assunto.

Paulo Ghiraldelli, filósofo http://ghiraldelli.pro.br

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22 Responses “A inveja chega aos pensadores europeus: Zizek versus Sloterdijk”

  1. jng
    20/09/2014 at 13:02

    texto ridiculo, comentários ainda mais absurdos…para filosofos percebem muito pouco de zizek

    • 20/09/2014 at 13:04

      Jng meu caro, nem todo mundo é gênio como você. Vamos correndo comprar todos os seus livros.

  2. Walace
    04/01/2014 at 22:52

    O vício inerente ao capitalismo é a distribuição desigual de benesse; o do socialismo é a distribuição por igual das misérias.
    Winston Churchill

    • 05/01/2014 at 00:10

      Faça uma frase sua, boa, já que não gosta de ideologias. Essa de Churchill, ele sabia bem, é ideológica (no sentido clássico de ideologia).

  3. Walace
    04/01/2014 at 22:49

    “E olha que quem está falando isso prá você é um cara que adora os Estados Unidos.” Tem acento ali mesmo? E não diga que não escreveu, já dei print.

    • 05/01/2014 at 00:12

      Wallace, isso que você está fazendo, “já dei print” é ideologia policialesca. Onde você quer acento linda? Caso falte algum, ponha, casu vá demais, tire. Tente uma vez na vida não se achar mais que os outros e aprender algo. Assim você só emburrece mais.

  4. Walace
    04/01/2014 at 22:44

    Então viva o socialismo e seremos todos felizes. Bolsa família pra geral e churrasco na laje, viva regina cazé (esquenta), cachaça com linguiça, etc. Felicidade, felicidade. Os socialistas nos amam.

    • 05/01/2014 at 00:14

      Wallace, esse comentário é de uma burrice extrema, meu artigo faz a defesa do argumento contrário ao socialismo de Zizek. Meu Deus, agora que vi, você quer usar arma porque é burrão mesmo, não entende o que lê. Putz! Eu realmente tenho paciência. Sou um iluminista crente em Deus.
      GEnte, esses dias mesmo o prof. Pasquale, estava comentando esse entendimento de artigos, de gente que lê exatamente o oposto do que está escrito. E existe mesmo isso!

  5. Walace
    04/01/2014 at 21:58

    A sociedade americana vivem bem por causa do capitalismo, livre mercado, mínimo de pertubação do governo. Eu morei lá 3 anos e ninguém me disse isso, eu vi mesmo.

    • 04/01/2014 at 22:25

      Walace eu trabalhei lá duas vezes, e lhe garanto, você viu uma parte da sociedade americana, como o carioca vê a Zona Sul e não sai de lá ou como o paulistano que mora nos Jardins e não sai de lá. E olha que quem está falando isso prá você é um cara que adora os Estados Unidos.

  6. 06/12/2013 at 22:45

    Oi de novo Paulo!
    Deixa prá lá! Deixei a preguiça de lado e fui pesquisar nos seus escritos.
    Grato
    peixoto

  7. 06/12/2013 at 22:24

    Oi Paulo!
    Por favor, desculpe pela pergunta que irei fazer, mas, se não quiser me responder ou se quiser dar uma porrada em mim por causa dela, tudo bem, aguento. Como você define a inveja? O invejoso?
    Grato se me ajudar.
    Peixoto

    • 06/12/2013 at 22:50

      Peixoto, vá no dicionário. Inveja não é um termo técnico e no texto está claro.

  8. Samir Faraj
    06/12/2013 at 19:03

    Creio que no momento fico, em parte, com Zizek pelo seguinte; temos exemplos de thymos, oriundos do próprio sistema capitalista, como o caso de Robert Owen, mas pautado também em eros, ou seja, tinha uma causa prática de melhor distribuir a renda e o controle da produção, mas não se desprendendo da vontade de ganhar dinheiro, só que aí, como resultado em benefício cooperativo. Diante do Estado burguês, esses empreendimentos de Owen falharam.

    O papel do Estado proletariado é potencializar o thymos, e controlar o eros (se entendi alguma coisa desses dois conceitos) de forma a que o resultado seja sempre em benefício da coletividade.

    Não vejo o crescimento do Thymos na sociedade burguesa (posta de forma marxista, ou seja, uma sociedade definida pela sua forma de produção) como algo plausível, sem a atuação do Estado, mesmo pensando no caso europeu do “Estado de bem estar social”. Até porque, nas últimas décadas, muito dessa política social vem tendo reveses.

    • 06/12/2013 at 19:11

      Você sabe o que é o thymos platônico? Por que está usando conceitos como “sociedade burguesa” etc?

    • Samir Faraj
      06/12/2013 at 19:43

      Seria a alma de caráter social, “passional” em contraste com a “psyche”. Quanto a termos como “sociedade burguesa” é por estar usando categorias marxistas em meu comentário. Não penso que podemos falar do homem como um indivíduo que “flutua” sob o meio, mas como membro de uma coletividade. Por isso, não estou inclinado à ideia de Sloterdijk de que o Estado deveria, como política, “diminuir impostos e ampliar as possibilidades de doação voluntária”. Não consigo me desprender do “ser social” então, não consigo, talvez como Zizek, aceitar que essa “política” leve a um resultado sistêmico diferente do que temos.
      Mas como o senhor mesmo falou, devemos seguir nesse filosofar, creio que encerrar esse debate é prematuro.

    • 06/12/2013 at 19:45

      Samir, com a cabeça cheia a leitura das coisas fica difícil.

    • Samir Faraj
      06/12/2013 at 19:58

      Veja bem que não neguei que haja vontade em “doar” por parte dos ricos. Mas, talvez adiantando um próximo texto seu, faço uma pergunta, se me permitir:
      Em que sentido político-econômico o filósofo Paulo Ghiraldelli acredita que a generosidade entre os mais abastados (aí não comento da classe média, mas das donas dos meios de produção – as que são realmente capazes de mudar o mundo, como Bill Gates) é capaz de modificar o sistema? E, em sua visão, até que ponto a troca de impostos (visto sere esta a fonte estatal para proceder políticas sociais) pela doação voluntaria pode ser melhor para a sociedade?

    • 06/12/2013 at 22:52

      Samir, essa é uma proposição não minha, e Sloterdijk explica bem no meu texto como isso pode ser feito. E pode, afinal, a sociedade americana vive com isso há muito.

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