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24/03/2017

Rousseau e Sloterdijk: a intimidade fantasma


Rousseau trouxe o conhecimento para o campo íntimo e moral. Mais que qualquer outra característica, foi isso que provocou o mau humor de Nietzsche. O filósofo alemão batizou O genebrino de “tarântula moral”. Afinal, trazendo o crivo do que pode ser aceito pela razão para o “coração sincero”, Rousseau fez do conhecimento alguma coisa dependente antes da honestidade que da inteligência. Para Rousseau, ninguém obtém a verdade se não pode, antes de tudo, admitir o que quer admitir em um exercício a quatro paredes, no exame íntimo. Desse modo, um cientista desonesto, tendo seu coração maculado e, por isso mesmo, já ser desonesto, no limite perderia a possibilidade de avaliar a verdade, e isso se estenderia para todos os seus juízos, não só para alguns. Logo, ele deixaria de ser um cientista de fato.

Para um filósofo como Nietzsche, tudo isso não passava de um sintoma claro de decadência, de espraiamento da “moral de escravo”, de modernidade e niilismo. Tarântula moral, sim, sempre picando as pessoas com o veneno que as conduziria a se perguntarem: será que estou sendo sincera? Será que os outros são sinceros? Será que os outros são tão bons assim para ocuparem os cargos que dizem que merecem?

Há coisa pior do que essa gente que tudo julga? Não julgueis para não ser julgado, dizia Jesus. Arquinimigo de Cristo, nisso Nietzsche concordava com ele: os humanos julgam. Malditos humanos que julgam. Não sabem viver, pois julgam.

Desse ponto de vista, nossa sociedade atual, envolta em redes sociais virtuais que nos deixa todos ligados a todos, transforma o mundo novamente em um pequeno vilarejo de comadres fofoqueiras. Saímos do estado de natureza hobbesiano da “guerra de todos contra todos” para o estado pós-rousseauísta da fofoca de todos sobre todos (e contra todos). Nunca a democracia de Rousseau foi tão efetiva como agora. Senão ela mesma, ao menos a caricatura dela, que vários outros pensadores diziam, maldosamente, que era a sua essência.

O que é viver em uma sociedade em que sou obrigado, por uma compulsão interna, a postar o meu plano secreto de derrubar um inimigo? O que é viver em uma sociedade em que os agentes secretos se transformaram em gente mais ridícula do que aqueles que andavam de preto protegendo Kennedy? Nada é mais segredo! Tudo é revelado e, quando não, é inventado. O volume de fofocas hoje é imenso, e o mundo parece ter se transformado em uma Ribeirão Preto dos anos oitenta. Todo pai que vai cheirar cocaína escondido da filha a encontra já viajando e esporreada em alguma rede da internet. No entanto, quanto mais tudo é devassado, mais e mais buscamos o que Rousseau nos colocou como lugar sacrossanto: a intimidade.

Nada é íntimo. O “coração sincero”, misterioso guardião que só se corromperia pelo processo de “alienação”, agora nada mais é que um lugar completamente desencantado. Mas, o interessante dessa nossa época, é que toda essa transparência, tão ridiculamente pedida na política quando ela já estava existindo em tudo o mais, e também na política, não faz cessar nossa busca pelo interior. Estamos agora com saudades de algo que nos foi prometido e que, antes de alcançarmos, devassamos. Estamos com mania de ver reality shows, porque acreditamos que lá, ao vermos mais um tipo de falsa intimidade, por um milagre encontraremos o lugar misterioso que julgava a razão, como Rousseau havia prometido.

A pornografia que fiscaliza não mais o close de genitais (boceta aberta é coisa do passado) agora compete com a ginecologia. Não sabemos se estamos nos masturbando fitando sexo ou se estamos vendo nossa esposa no médico, na tela que ele nos mostra na hora que faz o churrasco adentrar a sala, com a cauterização de mais uma ferida. A pornografia e a ginecologia participativa são exatamente a mesma coisa: todo o mistério acabou e, então, vamos mais fundo, mais fundo, para saber se lá, voltando ao útero, encontramos o tal órgão misterioso, rousseauniano, que iria avaliar e avalizar a razão. É a mania – uma loucura, claro. A mania de buscar o que era nosso sem nunca ter existido.

Nietzsche imaginava que iríamos nos afundar na intimidade, mas ele não chegou a pensar que iríamos nos derreter na perda de toda intimidade e, então, criar um fantasma de intimidade para seguirmos.

O que fazemos hoje nada é do que isso: acreditamos que há algum mistério em algum lugar. Estamos buscando. Não queremos e não podemos viver sem um mistério, unzinho ao menos. E este não pode estar nas galáxias, tem de estar em nós. Afinal, fomos picados pela tarântula.

Peter Sloterdijk é o filósofo que tem feito a tentativa de uma “arqueologia da intimidade”. Ele tem tentado mostrar que uma ontologia que nos descreve como indivíduos não é boa. Que nossa intimidade não é algo da solidão. Que nossa intimidade sempre foi um processo cabível em uma esfera que no mínimo tinha dois polos. Desse modo, nunca houve algo que fosse a subjetividade isolada como algo substancial e individual, e sim a participação na instância subjetividade por elementos que no mínimo tinham duas faces. Nunca houve outra coisa senão duplos: Deus soprando o barro e se tornando Deus, uma alma, ao insuflar alma em Adão; a mãe pondo seu filho para fora e o acolhendo nos braços, criando então uma segunda placenta.

Todos somos gêmeos. Nossa intimidade nunca foi aquela que Rousseau anunciou. Portanto, não erramos ao endossar Rousseau na busca da intimidade, do “coração sincero”, mas sim na hora que concordamos que cada um de nós adquiriu esse espaço interno não compartilhado. Não temos isso. Se o temos, é por contingência e defeito. Somos homens e mulheres adultos enquanto aqueles que vivem sempre, no mínimo, em forma de casal. Criamos esferas, lugares de ressonância, campos de imunidade e aclimatação.

Para um pensamento assim, a alienação não tem vez. Muito menos tem sentido ficarmos vagando em busca do íntimo solitário perdido, uma vez que ele é uma grande ilusão criada por um tipo de filosofia, um tipo de metafísica, um tipo de rousseauísmo.

Se pudermos seguir Sloterdijk, ao menos como eu o leio, poderíamos dizer que Nietzsche atirou no que viu e acertou no que não viu. Além disso, talvez possamos deixar de sermos tão ridículos nessa saudade do que não foi perdido porque nunca foi dado.

2014 Paulo Ghiraldelli Jr., filósofo.

Quer saber mais? Leia: A aventura da Filosofia, dois volumes, da Editora Manole.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo