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25/07/2017

A internet é coisa do demônio


Woody Allen vira agora, nas mãos de moça magoada (como a mãe), e através de uma lembrança dela dos sete anos, um molestador de criança. Fácil! As pessoas com problemas querem acreditar nisso, e já divulgam na internet o veredito. Simples assim.

Seymour ainda não esfriou no caixão e alguns já dizem que ele escolheu a morte, pois já havia tido uma overdose de heroína em 2006. Morreu porque quis, como todo artista – um doido. Simples assim.

Coutinho é comentado como quem deveria ter mantido o filho sob cuidados, e não ficado sob o jugo de um doente mental. Ou seja, quem tem filhos com problemas devem dizer a eles: vá para um manicômio, não é mais meu filho. Simples assim. 

A maldade das pessoas que dizem isso tudo das três figuras do cinema é inaudita. E o instrumento pelo qual alardeiam tudo e tudo julgam e condenam são as redes sociais.

Hobbes dizia que valeria a pena sair para uma situação de estado forte, uma vez que nos livraríamos da “guerra de todos contra todos” do estado de natureza. Mas, hoje, o que temos é a delação e o julgamento de todos contra todos através da disseminação de pequenos “brothers”. Todos nós jogamos o outro na sarjeta. Todo mundo é mais ou menos conhecido para estar, logo, sob a acusação do outro e sob um veredicto malévolo na rede social. Ninguém mais é inocente. Os bons não existem mais. O bom é só aquele que está denunciando e acusando o outro naquele momento da denúncia. Naquele momento ele se julga um deus. Ele não sabe que há outro deus, na pele de seu colega, fazendo o mesmo com ele.

As pessoas não param mais de exercer o linchamento público. Ninguém mais precisa de Hitler para viver sob o fascismo nosso de cada dia. Estamos em desgraça, em um inferno de mentiras geradas pela patologia de todos contra todos. Não creio que sobreviveremos a isso. Estamos perto do fim. A Internet, ao contrário do que o Papa Francisco falou, é mesmo o que o papa passado diagnosticou: instrumento do demônio. Claro que é. É nosso instrumento.

Filósofo Paulo Ghiraldelli

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10 Responses “A internet é coisa do demônio”

  1. Fabian Pineyro
    03/02/2014 at 10:43

    Não será a condena dessas, afinal de contas, figuras imaginárias, uma das poucas possibilidades de sermos bons para além do privado? É difícil saber-se bom, na rua, no dia a dia, enquanto se é testemunha da miséria do outro. Dai o substituto, a “droga”: condeno Coutinho e Seymour e todos vêem que sou bom, que tenho coração.

  2. Julio Mott
    03/02/2014 at 01:00

    O senhor mesmo já saiu em vários jornais e recebeu linchamento público.

    • 03/02/2014 at 08:51

      Não, não recebi, mas quase. Os ataques foram grupelhísticos e esperados. Agora, imagine uma pessoa que não pode se defender e passa a ser atacada na rua, fisicamente, por conta de uma má fama. Ou então uma pessoa que é um artista, e que pode não ter mais contratos e trabalho por conta disso. Entende?

  3. Junior Barbosa
    03/02/2014 at 00:02

    completando o pensamento: por que não nadam para além da superfície? podem se afogar, congelar, e o pior, podem não ser mais lembrados. Seria isso uma síndrome de Aquiles versão kitsch 2.0?

  4. Junior Barbosa
    02/02/2014 at 23:56

    Eles deixaram os oceanos porque a vida era é profunda, e precisam de calor. Não atoa querem um lugar ao sol: é mais fácil pra se deitarem no chão para se bronzearem do que lidar com a incerteza do nadar. Abraço!

  5. Pedro Possebon
    02/02/2014 at 23:52

    A internet é o lugar em que a noite dos cristais ocorre todos os dias?

  6. Marcio
    02/02/2014 at 23:35

    Gosto dos textos escritos num momento de putice!

    Há algum tempo você disse por aqui para não levarmos a sério ou pouco considerarmos o que fosse visto e lido na Internet, principalmente no que diz respeito a uma certa burrice, pois seria só a Internet. Você acha que esse julgamento e linchamento também não rompe os limites da Internet?

    • 03/02/2014 at 00:53

      Márcio, o problema da internet é que de brincadeira que ninguém levava a sério, erradamente, agora ela passou a ser o lugar onde tudo que se fala é verdade e merece ser compartilhado, mesmo que se saiba que não pode muito bem não ser verdade. Há uma ânsia de passar a informação seja qual for.

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