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23/04/2017

A “incitação à violência” como farsa dos estúpidos


Não acho que o Papa Francisco estava fazendo incitação à violência quando disse que se xingassem a mãe dele então ele reagiria com um soco na cara do atrevido. Também não acho que o Homem Aranha, ao esmurrar vilões, esteja incitando à violência. Se Stédile diz que vai invadir terras aqui e ali se a sociedade não parar de fustigar Dilma, menos ainda acho que há incitação à violência. 

Já tentaram me pegar nessa de “incitação à violência”. Não provaram. Perderam na justiça. Sempre faço o mais burro perder. Esses dias, então, o jornalista Hélio Schwartsman, da Folha, comentou que Impeachment é uma forma melhor de tirar o presidente que o assassinato, e eis que os tolos e os de má fé vieram na Internet dizer que o “o jornalista golpista” estava pedindo a “morte de Dilma”. Em todos esses casos, o erro do leitor, e que logo a Justiça, quando acionada, desfaz, é o de criar cadeias causais inexistentes ou de chance probabilística zero. Os juízes fizeram o ensino médio, e isso já basta para corrigir os erros.

Que um evento A cause um evento B tem a ver com relações materiais, físicas. Que um evento A seja a razão de um evento B, tem a ver com relações linguísticas.

Tiro a terra do sopé de uma montanha, e então ela cai sobre uma vila em uma cidade, matando todos. O que causou a morte foi a montanha cair, e que fez a montanha cair, foi a terra retirada. Eu tirei a terra. Eu vou ser responsabilizado, mesmo não sendo engenheiro, pois presume-se que eu não esteja desprovido da faculdade de julgar e que, então, sei que o que fiz poderia causar o que causou. Uma ação física minha desencadeou outras ações físicas.

Passo diante de uma moça e a chamo de “tesuda”, ela me vira uma bolsada na cabeça, forte, e eu vou sangrando embora. O que causou meu ferimento foi um evento físico, mas o que fez a bolsa vir para a minha cabeça foi a mão da moça, no entanto bem motivada pelo meu atrevimento linguístico. Nesse caso, estamos avaliando uma cadeia inicialmente de motivos, razões. Chamamos isso de causação também, na linguagem comum, mas o correto é chamar de relação de razão. Também nesse caso, sou o responsável pela reação da moça, ainda que, no confronto com a lei, caso eu tenha saído muito machucado, possa invocar a questão de que a reação dela ao meu delito inicial (linguístico) foi exagerada, que ela então também cometeu um delito também, ou seja, reagiu com violência física à minha ousadia linguística ou violência linguística etc.

O que faz uma pessoa achar que tais relações, causais ou por razões, se estabeleça quando não são usuais? O que faz uma pessoa achar que por uma fala de alguém, esporádica e não sistemática, posta “em tese” ou então como mero chiste, possa ser o motor da ação de outro alguém, em geral vem de uma escolarização ruim. Causalidades várias e relações por razão, também várias, são noções adquiridas na escola, e depois estabelecidas em estudo pela física e psicologia.  Um aluno do ensino médio tem as noções e o estudo sobre elas. Os que fogem da escola e que são meio perturbados, não conseguem aprender isso. Este últimos são os que saem pela Internet criminalizando todo mundo, levantando causas e razões que não são causas e razões a respeito do que apontou.

Surgem então os mais tolos ainda, que ficam usando rótulos que nem sabem do que se trata, para associarem a essa bobagem toda: “fascista”, “comunista” etc.  Não raro, para estes, um meteoro caído na Sibéria ou a fala do William Bonner denunciando o que todo mundo já denunciou é o que provoca o Impeachment da Dilma, e não o governo desgraçado dela, que deixa todo mundo com a casa desarrumada e as esperanças no chão.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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8 Responses “A “incitação à violência” como farsa dos estúpidos”

  1. LILIANE
    22/08/2016 at 15:00

    Boa tarde, Paulo
    Gostaria de saber sua opinião, sobre a incitação à violência.
    Quem são os verdadeiros “amoladores de faca” no Brasil?

    • 22/08/2016 at 17:44

      Liliane todos nós somos. QUEM de nós que é um pacifista 100% nas suas manifestações? Até Jesus andou chicoteando gente no templo, não?

  2. luis
    09/04/2016 at 21:51

    Paulo!

    A filosofia tem dono? Qualquer pessoa pode se valer da reflexão filosófica para pensar sua existência e seus problemas?

    Ou somente os doutos podem fazer filosofia?

    • 09/04/2016 at 22:57

      A filosofia é tarefa de filósofos. É filósofo quem participa da tradição narrativa da filosofia. No caso do mundo atual, ela se faz em boa medida por meio da aquisição de formação universitária específica. A filosofia é prática de confraria, sempre foi, e nos tempos atuais o que pode quase cumprir a tarefa da confraria é a universidade. Em apoio a ela sempre pode haver outras instituições, como centros de pequisa etc. Mas, na verdade, mesmo antes da Academia de Platão, a filosofia nunca foi feita senão em confraria e por meio de especializações de alguns homens, dedicados a problemas e objetos circunscritos que, apesar da diversidade, mantiveram uma certa tradição em torno de técnicas, abordagens dos problemas e certas semelhanças quanto aos objetos. Uma pessoa fora da confraria pode acreditar que está fazendo filosofia, mas como não ganhou formação, não sabe que não sabe. É o caso da besta autodidata.

    • luis
      09/04/2016 at 23:26

      Eu estava vendo um vídeo do Walter Kohan, ele é professor aqui no Rio, no qual ele trabalha a filosofia com crianças.

      Neste caso as crianças também não estão fazendo filosofia? Eu achei muito interessante!

    • 10/04/2016 at 00:47

      Luis, não, as crianças não estão fazendo filosofia, e menos ainda o Kohan sabe o que é fazer filosofia.

    • luis
      10/04/2016 at 00:51

      Valeu Paulo!

      A internet é uma ferramenta valiosa. Agradeço pelo site que é o único no Brasil e pelo feedback!

    • 10/04/2016 at 00:52

      Para mais, venha para o CEFA Luis: cefa.pro.br

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo