Go to ...

on YouTubeRSS Feed

18/07/2018

A guerra semântica de 2016 está em curso


[Artigo indicado para o público em geral]

Um professor americano que se diz “amigo de todo mundo no Brasil, menos de Jair Bolsonaro”, James Green, iniciou uma coleta de assinaturas para um manifesto contra algumas falas do ministro da Educação no Brasil, Mendonça Filho (Folha, 12/02/2018). Quais falas? Aqueles infelizes dizeres informando que iria investigar professores e departamentos das universidades que estivessem ministrando as agora já famosas disciplinas sobre “o golpe de 2016”.

Investigação em disciplinas acadêmicas são ameaça à democracia. Todo mundo sabe disso. Mendonça Filho também. A essa altura do campeonato, já deve ter se arrependido de ter falado o que falou. Caso não tenha se arrependido, então o problema é dele, pois se desgastou e, enfim, não está com a bola toda não. Digo que o problema é dele, pois, afinal, o Brasil está funcionando e suas instituições vão bem, estão cumprindo seu papel. Não há ataque à democracia no Brasil, como diz James Green. O único ataque que existiu, real, foi a lei de repressão ao terrorismo criada pelo governo Dilma, a mulher que, dizem as más línguas, foi namorada do professor americano – algo que depois o casal disse que era boataria. Alguns jornalistas, inclusive, disseram que realmente era boato, pois ele, Green, é gay (da minha parte nem sabia que gay não podia namorar mulher!).

A maioria dos professores americanos, mesmo os que têm conhecimento do Brasil, acham que o nosso país não é nada além de uma republiqueta latino-americana sujeita a golpes. Eles acham que Trump e Bush não foram golpes. O modelo de democracia americana é tão contínuo e sólido para os costume americano, que mesmo quando erra, se se segura de fato contra os erros, mas passa a ideia, para o americano, que se segura muito mais do que ocorre de verdade. Aqui não. A impressão aqui é diferente. E a impressão que passamos também é diferente. E essa impressão de que todo dia podemos ter um golpe, que é a história da Bolívia e não a nossa, vira na cabeça deles, americanos, também um história possível de ser contada. Sorte nossa, talvez, pois isso fez com que houvesse alguma preocupação com a fala de Mendonça Filho.

Pessoas ideologizadas demais sempre caem no ridículo. Green nos parece ridículo, daqui de nossa ótica brasileira, pelo exagero. Mas mais ridículo ainda nos parece Mendonça Filho, por conta de ter deixado transparecer sua faceta de feitor, não de ministro. Gente preocupada em reprimir situações por conta de anzóis semânticos escorregam e caem de bunda no palco. Tanto faz se a pessoa é de esquerda ou direita. A ideologia é uma casca de banana.

O que é um anzol semântico? Green anuncia um: ele pergunta se ao dar um curso sobre 1964 no Brasil teria de denominar o curso de “Golpe de 64” ou de “Revolução de 64”. O certo seria nem uma coisa nem outra, mas não em busca de neutralidade e, sim, em busca de uma faceta de uma melhor sociologia e política na universidade. Essas áreas carecem de estudos sobre “guerras semânticas” (Rorty). Nesses estudos deveriam estar os anzóis semânticos – palavras que querem agarrar militantes, e, às vezes, desconcertar posturas. Um bom curso sobre 1964 começaria pelas semânticas em jogo pós 31 de Março, quando os agentes em questão começaram a disputa terminológica. O novo governo falando de “revolução”, os derrotados falando em “golpe”. Um bom curso sobre 2016 poderia seguir o estudo dos anzóis terminológicos, e teria de incluir o manifesto de Green e a fala de Mendonça não como elementos que estão no terreno da hegemonia de nomes. Um bom curso de guerras de terminologia são sempre mais inteligentes que curso de militância política. Se a esquerda perdeu na política, o refúgio dela na universidade é normal – é uma regra isso. A direita não tem essa saída, quando ela perde, dado que tem poucos intelectuais, ela faz menos barulho. Mas o barulho é sempre antes de tudo algo da “guerra semântica”, aquilo que não é estudado.

Cursos de militância política atraem estudantes e professores militantes. Devem existir na universidade livre em uma democracia. Mas também deve existir gente como eu que pode dizer que esses cursos, já na sua maneira de se exporem, são lugares que anunciam a pouco inteligência. Só mesmo um Mendonça Filho poderia conseguir dar legitimidade acadêmica a tais cursos. E ele, com a fala desastrada, assim conseguiu. Diante do que ele falou, qualquer professor do mundo todo, com consciência de professor, assinaria o manifesto de Green.

A virada linguística já está fazendo água na filosofia e, no entanto, ainda não chegou nas ciências sociais. A mentalidade dos cientistas sociais no sentido de reificarem tudo, vem de um desvio do positivismo, de tratar os fatos como coisas – ordem metodológica de Durkheim, não cumprida ao pé da letra por ele mesmo, claro! O desprezo que as ciências sociais têm pela linguagem tomada criticamente, revelam um apreço exagerado dela pela via da militância, mas de modo acrítico. Os militantes vão querer que os livros de história grafem “Golpe de 2016”, mais por mágoa e derrota que por consciência crítica de que estão numa “guerra semântica”, e que o papel da universidade inteligente melhor seria perceber isso analiticamente, e não pregar isso de modo a imitar gritinhos de molecada de diretório estudantil.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 12/03/2018

Foto: Dilma e Green.

Tags: , , , , ,

8 Responses “A guerra semântica de 2016 está em curso”

  1. Bardo Toad All
    13/03/2018 at 08:03

    “o Brasil está funcionando e suas instituições vão bem, estão cumprindo seu papel. Não há ataque a democracia no Brasil”.
    Registre-se que o dito filósofo confirma sua incrível e inacreditável alienação.

    • 13/03/2018 at 09:16

      Bardo, estamos todos esperando a luz a partir de seus livros e de sua fantástica produção nos tirar da “alienação”. Mas veja, quando você ficar adulto, então verá que uma coisa pode funcionar mesmo que não funcione como está nos manuais. Vou lhe contar um segredo: o funcionamento da democracia, nos manuais, é o funcionamento conceitual. Na prática diária de um país, o funcionamento é por graus. O Brasil tem uma democracia funcionando. A Inglaterra tem uma democracia funcionando. A Rússia também. O Paraguay também. Que coisa não? Consegue entender isso, mesmo ainda não sendo adulto?

  2. Bardo Toad All
    13/03/2018 at 07:29

    Um bicho tem cara de pato, anda como pato e grasna como pato, é um pato. Exceto para o dito filósofo. O pato não é pato, é um “anzol semântico”. Aham, senta lá, Cláudia.
    Adendo: eu sou formado em comunicação social, portanto eu sei mais e melhor do que o dito filósofo sobre semântica.

    • 13/03/2018 at 09:17

      Bardo sua formação em comunicação mostra que você precisa voltar ao ensino básico. Já no colégio, algumas aulas de filosofia e sociologia, podem lhe dar o conceito de ideologia. Mas veja, antes, tem de passar por aulas de alfabetização.

    • 13/03/2018 at 09:47

      Essa sua frase mostra que você realmente sabe muito sobre patos, seus semelhante, mas nada sobre semântica. Já vi uma pessoa andar como burro, zurrar como burro, ter orelha e cara de burro e … não ser tão burro quanto parece, ser Bardo. Um jumento, não burro.

  3. Estevão Damacena
    12/03/2018 at 17:30

    Mestre Ghiraldelli.
    Saudações.

    Esses “anzois semânticos” atraem muitos jovens que brincam de militantes para cursos dados em universidades. Eles acham que vão “acumular” conhecimento e assim melhor desempenharem sua luta ideológica(luta é claro contra a direita, mas eles mesmo não sabem quem são)
    Eu conheço o professor Greene. Leio muitos textos dele na área de História. Foi novo para mim esse possivel caso que teve com Dilma.
    Otima reflexão sobre essa luta semantica que se vê nos discursos. De fato, querer cravar na histoorgrafia que o que se viu em 2016 foi um golpe é uma atitude que nao condiz com o nosso papel de historiador. Sou um pouco mais ortodoxo. Acho que para Historiador se pronunciar sobre algo deve deixar passar anos, senão décadas. Só assim poderá reunir os documentos em um ambiente cuja temperatura seja propiciia para tal. Essa pressa de cravar os conceitos nos fatos históricos é consequencia de lutas ideologicas e não de trabalho historiográficos sérios.

    • 12/03/2018 at 20:37

      Estevão! Para o filósofo nunca há o que “cravar”. A uma contínua investigação, atemporal, sobre a “guerra semântica’.

  4. josé fernando
    12/03/2018 at 09:22

    Sim, a virada linguística há muito tempo “faz água na filosofia”, provavelmente (você é muito mais competente para ajuizar sobre isso que eu) começou a fazê-lo com a maiêutica socrática, e, de fato, há um ranço positivista (comteano?) nas ciências sociais. Ah, de fato curso de militância política são legítimos e, dada a limitação constitutiva de seu escopo, de pouca inteligência.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *