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16/12/2017

A filosofia ofende


Um ensino em que os participantes do processo pedagógico envolvido não podem colocar em pauta uma frase ofensiva não é propriamente ensino, aliás, não é nada. É ridículo pensar na existência de uma relação pedagógica pautada pela polidez. O ensino autêntico não se faz segundo uma relação em que o aluno e o professor são reduzidos às dondocas socialites em um almoço beneficente. “Está linda querida”. “Ah, você está maravilhosa”. Rotary é Rotary, aula é aula.

Pior ainda é acreditar que exista uma relação filosófica que possa se sustentar sem a parresia, ou seja, sem a franqueza pedida por Sócrates ao interlocutor e exigida por ele dele mesmo. O falar franco, bem notou Foucault, é uma característica das filosofias que reivindicaram alguma ligação com Sócrates – o estoicismo, o epicurismo, o ceticismo antigo etc. O falar franco é um falar de máxima sinceridade. Sem isso não há como iniciar a filosofia. Não há com ocorrer o elenkhós, que é o procedimento investigativo de Sócrates, sem o falar franco.

A elenkhós é um procedimento em que um interlocutor diz que acredita em p e q, e então o filósofo pergunta se ele também acredita em w. Ele diz que sim. Então o filósofo pede que ele diga se acredita mesmo, se é sincero em afirmar w. Ele diz de sua sinceridade em tudo, e que efetivamente acredita em w. O filósofo tenta mostrar que para acreditar em w ele precisa descartar ou p ou q. O interlocutor não consegue descartar p sem descartar q ou vice-versa, e se vê em confusão. O filósofo então intervém para avaliar o que foi refutado. Toda essa situação, que na base se assemelha ao procedimento de “falsificabilidade” exigida por Popper para o “método científico”, exige o falar franco, a sinceridade. Ora, sabemos o quanto a sinceridade ofende. A filosofia para ser filosofia não tem como não ofender.

Quando vemos uma relação pedagógica amena, doce, sem que exista conflito e, então, sem frases que podem magoar, não raro estamos diante de uma falsa relação pedagógica. O mesmo ocorre com a filosofia. Há vários filósofos que não ofendem ninguém. Mas são apenas recitadores de textos filosóficos. Não há como colocar como regra na conversação filosófica a obrigação de não proferir o que magoa e o que ofende.

Quando uma sociedade ou uma época não compreendem a parresia, tudo que se chama ali de filosofia é engodo, brincadeira, fake de filosofia. O mesmo se dá com o ensino. Uma instituição educacional em que o estudante tem a força de proibir o recebimento de determinada frases porque elas o magoam, pode ser tudo, menos uma instituição educacional.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo

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3 Responses “A filosofia ofende”

  1. Crodi
    27/04/2015 at 17:15

    Obrigado por mais essa!

  2. Lupicinio Batista
    22/04/2015 at 09:39

    Sartre era um tampinha, zarolho e tímido; ela sabia que só comeria a Simone se impressionasse como intelectual. Tendo logrado êxito no seu intento, passou a ser referência entre muitos que queriam usar a filosofia para fins sexuais, até mesmo para o Foucault, que pegava altos bofes com a história de “vigiar e punir”. Só não funcionou com o Ponde, que até hoje não pega ninguem!

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