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28/02/2020

Meu Deus do Céu, a filosofia é grega sim!


A filósofa brasileira Marilena Chauí está correta ao dizer que a filosofia é grega (veja aqui). O professor de filosofia da UFRRJ, Renato Nogueira (entrevista no Globo) está errado ao dizer que a palavra “filosofia” não importa, que o que importa é a atividade e, sendo assim, é possível encontrar filosofia no Egito e, é claro, na África, antes do que fizeram os gregos.

Esse tipo de erro de Nogueira é preciso ser corrigido antes que se propague e confunda estudantes. Logo estará causando erros em provas do Enem e, mais tarde, fazendo mais vítimas por aí entre jovens, dado que o ensino brasileiro está fraco e absorve tudo.

Temos de ficar atentos às teses de Wittgenstein, em especial, aqui, à ideia de que “meu mundo é dado pelos limites da minha linguagem”. Sem linguagem não pensamos e não fazemos nosso mundo. Por isso, dizer que a palavra “filosofia” não importa, mas sim a atividade, é não compreender que a palavra “filosofia” definiu a atividade e só por causa disso podemos, então, olhar para as laterais gregas geográfica e historicamente, e procurar atividades semelhantes para chama-las de “filosofia”. Ou seja, caso Renato Nogueira quisesse falar algo correto ele teria de dizer: “Na África, mutatis mutandis, havia filosofia antes do que faziam os gregos etc.”. Mas sem o alerta latino por meio da expressão “mutatis mutandis”, não dá. Criar pensamentos sobre a origem do mundo e atividades outras, ou pensamentos sobre como conduzir a vida, como fizeram outros povos, não é filosofia. E isso por dado simples e objetivo: logos, ratio – e isso que há na filosofia. Os gregos “inventaram” o logos, definiram o que o pensamento latino, depois, chamou de razão. Eles fizeram a primeira batalha entre o mito e a razão (conhecimento por causas e razões), e isso é a novidade que todos os historiadores, mesmo os não eurocêntricos, acusaram como algo que pareceu a alguns “o milagre grego”. A história ministrada no ensino médio ainda é válida. Ela diz isso. Que os jovens fiquem atentos.

A capoeira é uma prática que dizem ser de origem “afro”. Veio da África. A filosofia não veio e não nasceu lá. Quando queremos homenagear algo que achamos que tem a ver conosco, como indivíduos, devemos antes de tudo saber o que pegarmos como nossas raízes. Inventar raízes não ajuda, ao contrário, só nos prejudica.

O pensamento da Índia ou o pensamento chinês e de outros lugares, que não vieram da tradição grega, são ensinados nas universidades do Oriente como pensamentos que se distinguem da filosofia. Nesses lugares, o termo “filosofia” não é idolatrado a ponto de se ter de dizer que eles, os nativos não ocidentais, foram o dono da coisa. Agora, no Ocidente é que é cometido o erro de Renato Nogueira. E isso porque há um complexo de inferioridade que faz com que os que querem viver no “mundo alternativo” peguem para eles o que há de brilhante no Ocidente, dizendo que isso é criação dos que estão à margem da sociedade oficial. Não! O mundo não ocidental, “alternativo”, que vive no Ocidente não deve fazer isso. Isso é um erro estratégico que leva a erros teóricos graves.

Paulo Ghiraldelli 57, filósofo. Diretor do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA) e autor entre outros de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

Veja o programa Hora da Coruja sobre o assunto: a filosofia é grega

Escrito do professor Andrei Venturini:

A perspectiva do pesquisador Renato Nogueira não me parece uma opinião suficientemente justificada. Há inúmeros fatores que colaboram para sustentarmos a filiação grega da Filosofia e seu desdobramento a partir do mito Grego. A obra “Teogonia” de Hesíodo, que trata das origens dos deuses e do mundo, já contém uma noção tipicamente filosófica: a noção de arcké. É claro que no contexto mitológico este termo tem uma característica cronológica, diferente da noção filosófica de arché. Entretanto, para Tales de Mileto, por exemplo, a arché é um princípio cosmológico, ou seja, um termo que exprime o fundamento do ser, dito de outro modo, é aquilo que estrutura e define dada realidade. A arché filosófica é concebida como eterna e subsistente: sempre existiu e sempre existirá, não tem começo nem fim. Essa concepção cosmológica da realidade, típica da Filosofia Grega, não consta na cultura africana, nem egípicia, nem chinesa. É Grega! Não se pode falar de origem da Filosofia sem pensar o problema que os primeiros filósofos tentavam solucionar a partir do mito: qual é o princípio subsistente que explica, justifica e determina a realidade? Pensar a filosofia de um autor é entender o seu pensamento como tentativa de responder à questão fundamental que move seu pensamento. Ora, como entender a Filosofia sem fazer referência ao mito e as limitações que o mesmo apresentava entre os século VIII ao VI? Como negar a importância do surgimento da escrita, da moeda, da lei e da polis para pensar a passagem do mito ao logos filosófico? Heidegger na obra “O que é isto – A Filosofia?” ressalta que não podemos responder a questão que dá título à sua obra sem recorrer à língua grega. Ora, se houver um texto que mostra um liame entre outras culturas e os conceitos de arché, physis, cosmologia, logos, etc., então poderemos refletir a possibilidade da Filosofia não ser Grega. Até então, não conhecemos um texto desta monta, assim como não conhecemos nenhum documento que nos faça tender para a negação da Filosofia como uma atividade do logos Grego. Neste sentido, aproximo o meu argumento dos professores Paulo Ghiraldelli e Marilena Chauí. Penso que falta recurso documental para sustentar a afirmação do professor Renato Nogueira.

caboclo

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20 Responses “Meu Deus do Céu, a filosofia é grega sim!”

  1. 02/11/2019 at 13:34

    Boa tarde, Renato, sou antropólogo, 20 anos estudando intensivamente o batuque, religião afro-brasileira do RGS, além de cultura popular negra ou não. Cerca de 50 anos de trabalho. O batuque conserva com admirável fidelidade a sua herança africana, sendo os cânticos unicamente em jêje-nagô. Penso ter captado a visão de mundo – e portanto filosofia – de seus integrantes, o que transcrevo em um livro e textos meus sobre o assunto. Quando ainda era professor da UFMA, brigava com os professores de Filosofia, alguns extremamente arrogantes e todos encastelados num palácio de cristal. A ideia deles que Filosofia é coisa unicamente grega e de academia, com o que não concordo. Se filosofia vem de algo como amigos do pensamento, todos nós somos filósofos, porque o pensamento se projeta, por exemplo, na escolha e argumentos que temos para usar ou não certo tipo de roupas. Quando contestamos o que dizem, as bases do palácio tremem e seus moradores ficam escandalizados. e preocupados. Não é à toa que a Dona Chauí, moradora no triplex superior do palácio, apela para deus e previne sobre o perigo de que a ideia possa se espalhar e o palácio tenha de ser colocado à venda, por desvalorização. E que seus moradores percam a aura e o autoatribuído monopólio do campo filosófico. Estou bem consciente que, como tu, possivelmente serei condenado à fogueira filosófica por blasfêmia kkkkk

    • 13/11/2019 at 22:32

      Norton você não entendeu nada do que escrevi, e acho que por deficiência sua. Pois meu texto está claro, você não quis prestar atenççao

  2. Augusto Rodrigues de Sousa
    21/06/2019 at 18:18

    Acompanho o trabalho do Noguera (sem i) e ele não afirma que a filosofia nasceu ou veio da África, mas que a Filosofia é uma atividade eminentemente humana, próprio do homo sapiens, e que as expressões filosóficas mais antigas estariam contidas em textos egípcios, assim como que os filósofos gregos tiveram contato com esses povos e isso influenciou a sua produção filosófica.

    A acusação de que o Renato Noguera é mais militante que filósofo é semelhante à acusação que foi feita a Cheik Anta Diop, que provou que os egípcios eram negros, inclusive com exames de melanina das múmias.

    Afirmar que os gregos romperam completamente com os mitos também é falso, já que os mitos continuaram presentes na vida concreta desses povos (os vasos e artefatos ornamentados provam isso) e mesmo nos textos filosóficos existe expressões mitológicas, como o galo dedicado a esculápio de Sócrates ou a transmigração das almas de Platão.

    A ideia então não é que os gregos roubaram a filosofia (essa tese está presente no Stolen Legacy, mas não nos textos do Renato Noguera), mas que eles produziram o seu tipo específico de pensamento filosófico.

    • 24/06/2019 at 00:11

      Meu caro, ele falou o que falou na época, e está errado. Fizemos até hora da Coruja sobre isso, usando textualmente a fala dele.

  3. Matheus
    06/06/2018 at 15:40

    https://super.abril.com.br/especiais/uma-breve-historia-da-filosofia/

    Mais uns pra se corrigir

    Breve resumo da filosofia isso não se faz

  4. Valter
    17/12/2015 at 08:16

    Nossa, quanto argumento de autoridade!

    • 17/12/2015 at 11:25

      Valter toda vez que não estudamos e ouvido coisa nova, como é seu caso, achamos que há argumento de autoridade. Mas se você estudar, entender o conceito, irá ver que falou bobagem.

    • Clovis Pacheco F.
      10/01/2016 at 21:17

      Muityo boa resposta, professor Ghiraldelli!

  5. Bony
    08/03/2015 at 07:36

    Wagner, não há os “Orientais”. Sem saber nem grego, nem chinês, nem latim, nem pali, nem sânscrito, nego pega um texto filosófico em grego, depois pega uma lajota escrita em chinês arcaico há mais de 2000 anos – tudo traduzido – depois chama tudo de “filosofia”. “Filosofia” é, sim, coisa de grego, e não adianta vir chorar dizendo que não é. Mas enquanto pesquisador do daoísmo (religião chinesa), me incomoda mais ainda quando nego vem dizer que daoísmo é filosofia. Na academia chinesa contemporânea há basicamente duas correntes: (1) chamar tudo que os chineses escreveram no passado de filosofia (zhexue), (2) ver tudo o que os chineses escreveram no passado como história intelectual (sixiang shi), e não como filosofia. A primeira corrente é meio conto pra boi dormir. Geralmente são professores chineses com formação em filosofia ocidental mas sem capacidade para filosofar e que começam a viajar na maionese aplicando o jargão da filosofia (e, o que é pior, em chinês!) para tentar fazer com que os textos chineses sejam filosoficamente aceitáveis. A segunda vertente é mais pé no chão e explica o pensamento chinês em termos sociológicos e históricos, explicando o background que sustenta os textos, isto é, historiadores do pensamento chinês tendem a ver nos textos uma janela para a sociedade da época, não necessariamente uma ferramenta para agendas pessoais e contemporâneas. Agora, o pensamento chinês é só pra quem lê em chinês. Tem coisas mirabolantes e fantásticas, como zhuangzi, mas é preciso fazer um PhD em sinologia ou disciplinas relativas pra se aventurar a ler qualquer coisa em chinês antigo, clássico, medieval ou mesmo moderno. Mas pode ser compensante, principalmente por existir uma certa continuidade entre o modo de vida descrito nos textos e certas comunidades, especialmente as religiosas, como é o caso do daoísmo, cujos textos se tornam mais interpretáveis se a pessoa tiver convivido com uma comunidade religiosa onde os textos fazem sentido como modo de vida e uma coisa que se experimenta, não apenas como “textos”. Na verdade, muita coisa do que nos chegou do pensamento chinês são muito mais objetos talismânicos, receitas práticas de bom viver, dizeres oraculares do que textos propriamente ditos. Agora, no que diz respeito à “Índia”, há filósofos ocidentais que reconhecem a existência de filosofia lá, como o Arthur Danto faz no transfiguração do lugar-comum. Eu fiquei até impressionado quando li na abertura de um dos capítulos o Danto falar categoricamente que só dois lugares do planeta conheceram a filosofia, sendo tais lugares a Grécia e a Índia. As razões que ele dá pra isso estão ligadas com a definição dele de arte, que ele pensa a partir da Brillo Box, que o faz pensar na questão fundamental do livro: pq as caixas do Warhol são arte e as caixas de Brillo no supermercado não são? Danto vê como característca do discurso filosófico uma preocupação com a distinção entre o real e o aparente que, segundo ele, só se vê na Índia e na Grécia. Acho que o Danto talvez tivesse um bom argumento para explicar o pensamento da Índia antiga como sendo filosofia, e de um modo bem diferente do argumento do Professor Venturini. Mas certamente Danto não estava nem aí (nem precisaria estar) para o pensamento da Índia. Mas talvez a postura do Danto seja uma sugestão de que há algo no pensamento filosófico que não é propriamente grego, que mesmo tendo encontrado na Grécia as suas condições ideais de desenvolvimento, também pode ser encontrado em discursos desenvolvidos por outras civilizações,´como é o caso da preocupação do aparente versus o real à qual o Danto se refere.

    • 08/03/2015 at 09:26

      Pronto, o Bony encerrou a conversa. Uma aula boa.

    • ilson
      22/02/2017 at 23:38

      Muito bom!

  6. Wagner
    25/02/2015 at 20:41

    Os gregos foram os primeiros a propor a filosofia como método de investigação para alcançar o objeto de estudo. Eles moldaram um sistema de pensamento e o nomearam, o descreveram.
    Os Orientais apresentavam os fenômenos com metáforas, ying yang por exemplo, mas não apresentavam o método de investigação, não o descreviam e não propunham um modelo para se chegar a tal.
    A filosofia é grega, pois é grega a descrição, é grega a metodologia e o sistema de pensamento e investigação.
    Pode ser visto desta forma?

  7. 25/02/2015 at 15:08

    É que a casa dele é a do saber, seja lá qual for.

  8. Cesar Marques - RJ
    25/02/2015 at 14:43

    Concordo totalmente com a oposição que o senhor fez ao professor Nogueira. Acho que ele está fazendo tal especulação, porque diferentemente do que ocorre na História, na Filosofia se é possível fazer análises trans-históricas, como por exemplo, se algum filósofo quiser escrever um ensaio, apontando que já existia um proto-Iluminismo na Filosofia da Grécia antiga. E isso é algo que é inconcebível em trabalhos acadêmicos de História.

    P.S.: Para o seu desgosto, o professor Renato Nogueira é Mestre em Filosofia pela sua querida UFSCar.

    • 25/02/2015 at 18:05

      Cesar Marques nem fodendo isso é pegar um conceito e usar como “transhistórico”. Meu Deus. Não mesmo. Putz. Você NÃO entendeu a razão pela qual a filosofia é grega! O meu texto ainda tem link para o da Marilena, que é mais didático ainda!

    • Cesar Marques - RJ
      25/02/2015 at 18:57

      Professor, que a Filosofia é grega, eu já sabia. Eu só disse que TALVEZ, o tal Renato Nogueira tenha feito tal afirmação (sobre a Filosofia não ser grega, pois ela já supostamente existir na África, etc.), pelo motivo que elenquei na minha postagem anterior.

      Achei que ele tivesse dito isso, pela plasticidade que a Filosofia permite em suas análises, que não necessariamente se confirmam historicamente, só isso.

      Agora vou ler o texto da Marilena.

    • 25/02/2015 at 19:39

      Cesar nesse caso que você citou, NÃO HÁ PLASTICIDADE, por isso, acho que você NÃO entendeu a noção de “transhistórico”. E foi justamente isso que escrevi, não sobre grego ou não grego. Meu Deus! Como as pessoas tem dificuldade de admitir que erraram e que não sabem algo!

    • 10/01/2016 at 21:22

      No caso do professor Nogueira, talvez o que mais ocorra é militância do que reflexão filosófica em torno da própria filosofia…

    • 11/01/2016 at 00:06

      Sim Clovis, aliás, acho que filosofia mesmo nunca foi o caso dele.

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