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28/04/2017

A filosofia conservadora comete um erro teórico


Rousseau advogou a retirada do indivíduo da sociedade, num individualismo extremo. Buscou encontrar o homem sem máscara social alguma. Esse homem seria próximo de sua ficção teórica do “bom selvagem” ou de um Emílio-que-tivesse-dado-certo. Ele próprio experimentou essa busca da existência que deveria preceder o pensamento, e entendeu que a encontrou em um momento que não esperava, no lago Biel, no célebre momento do devaneio na canoa, no “não penso, logo sou”. Assim descreveu no Os devaneios do caminhante solitário.

Muitos interpretam esse escapismo como um tropeço que fez Rousseau querer encontrar uma forma de sociedade de homens sem máscaras e, portanto, iguais na origem, e então tão puros que iriam sempre não só saber o que é o bem comum, mas nunca deixariam de advogá-lo. Assim, seria fácil ter uma nação capaz de se guiar pela “vontade geral”. A vontade geral não é, em seus escritos, nem a vontade de todos e nem a média das vontades, como nas democracias liberais representativas, mas a vontade em favor do bem comum. Todos, muito conscientes e informados, se assim votassem, não titubeariam em votar no bem comum – assim pensava. Essa saída, muitos dizem, foi um tropeço, pois a vontade geral não tardaria em ser a vontade em favor de um bem comum que talvez não pudesse ser avaliado como bem comum, a não ser por uma semi-liberdade, no fundo, uma coação doutrinária.

Se é assim, então Rousseau estaria na base de movimentos populares que desejaram o bem comum e, por uma longa cadeia de mediações, ele seria o responsável não só pelo Terror de Robespierre, mas pelas opressões geradas por Lênin, Stálin, Mao e, de certo modo, por ressentimento que alimentaram os feitos hitlerianos de encarnação em si do bem comum. Com longas mediações e com tudo muito bem explicado, Peter Sloterdijk e Rüdiger Safranski são, entre outros, filósofos que assim leem a história rousseauista. Ou uma parte dela. Mas aí, todo cuidado é pouco.

Sloterdijk e Safranski não cometem o erro dos que ligam Rousseau aos movimentos democráticos em geral, ou ao marxismo, e, portanto, não terminam por falar que a própria URSS era uma responsabilidade direta do filósofo de quase dois séculos antes. Filosofia não é história, e nela as pontes relacionais são outras. Aliás, para falar a verdade, em certo sentido não podemos colocar nas costas nem de Marx o monstrengo do capitalismo de estado completamente burocratizado chamado União Soviética.  Mas, enfim, para gente que já culpou até Platão pela URSS, mais tolice não falta. A direita copia a esquerda quando ambas estão a Olimpíada dos Mais Energúmenos, uma competição que parece não ter fim. E ao ler filosofia com a ótica de gostos políticos atuais, a direita (como a esquerda fazia até pouco tempo entre nós, e de certo modo ainda faz) afasta estudantes da leitura dos clássicos e do gosto pela filosofia em geral. Estudante cabeça dura adora ler o que fortalece o que ele já acredita, mas no fim, esse tipo de estudante não lê nada. Pois quem lê sempre a mesma coisa se convence logo que em a Verdade!

Já vi alguns intelectuais brasileiros conservadores cometerem erros broncos, principalmente na leitura de Rousseau. E pior ainda, eles envolvem mais gente nessa sua conversa cheia de problemas. Não raro sobra para autores trágicos. Cioran aparece nisso. Dado que o filósofo romeno condenou os líderes que querem “o bem”, porque via neles fanáticos, então o pessoal conservador diz que querer o bem é “brega”, é “arrogante” etc.. Quem os leva em banho-maria, dando algum crédito, até pensa que eles estão aí combatendo o fanatismo denunciado por Cioran, mas não, eles estão pegando armas para juntar forças na leitura torta que fazem de Rousseau e, então, virem dizer que toda conquista democrática é arrogante, que tudo que é “do povo” quer é só implantar a “ditadura popular da vontade geral”, e que o desejo do bem comum definido pela “massa”, ou seja, por grupos de partidos manipuladores, é somente a perda da liberdade individual etc. No final, Rousseau acaba como culpado por todo o mal que é o de não adotar a regra do “ensinar a pescar sem dar o peixe” – uma tecla liberal que de doutrina virou ideologia barata nada liberal, cuja função atual é só a de manter os pobres ainda mais pobres.

Cioran condenou o fanatismo. Viu em São Paulo um fanático. Mas não viu em Sócrates um inimigo. Nem em Diógenes. Deixou claro que Sócrates, ao ser o defensor da razão e ao mesmo tempo o crédulo em seu daimon, colocou-se ele próprio como um problema, um mistério, portanto uma forma de não-dogmatismo e de vacina anti-fanatismo. Diógenes então, pelo comportamento contra a naturalização da convenção, fez algo semelhante, na conta de Cioran.

Essa forma de fazer filosofia, de criar problemas consigo mesmo, de se por como um problema, que é a de Cioran mesmo e que é a forma como Cioran viu Sócrates fazendo, também pode ser usada para ler Rousseau. Dá para ver que ele colabora, também, com a filosofia que nada tem a ver só com a busca de um pretenso bem comum avalizado por alguma perigosa vontade geral. Ele não é só isso. Rousseau é aquele que foge da prostituta sem bico do seio porque não suporta o defeito do individual, ele quer o universal, ele busca o lugar onde não há defeito. E descobrir-se assim, envolvido nesses dramas, é uma forma, antes do devaneio onde não há defeito porque nem pesamento há, de se colocar como um problema, perceber-se um tipo da “tarântula moral”, como o próprio Nietzsche o avaliou. No quarto da prostituta, como ele conta nas Confissões, ao reparar insistentemente no defeito do seio, ele se portou como tarântula moral, magoou a moça, e soube saber disso. Fala isso e afirma que ali está o Rousseau que se tem de conhecer. Então, se lemos Rousseau assim, ele é, também, o homem-problema, é um homem que se levado a sério em sua filosofia, não precisa ser tomado como o propositor militante dos ditos do Contrato Social nos termos da necessária vontade geral.

Os conservadores se apropriam de Cioran e de Rousseau, para não dizer de outros, com o mesmo impeto militante que outrara diziam que eram os de esquerda que faziam. E pecam. O pior, pecam o pecado dos outros, o pecado velho. São hoje gente que tem uma pequena parcela da juventude os seguindo. Mas é uma juventude mais velha de mentalidade que a juventude que se diz “juventude comunista”, se é que há ainda gente assim, desse último tipo.

Buscar um mundo melhor é buscar um mundo melhor. Não há tanto jogo de palavras nisso não. Quem ousa dizer que isso não é bom, pode estar matreiraamente dizendo para se ficar quieto e não buscar um mundo melhor, mas conservar o mundo no que ele tem de pior. Ou propor utopias de um passado pior que o passado recente. Já repararam que os conservadores às vezes se negam até mesmo em conservar ganhos sociais que já haviam se transformados em direitos contra a crueldade? Temo que os conservadores de hoje não sejam liberais, como se autoproclamam, e ao dizerem que não querem um mundo melhor, também não queiram a liberdade de modo algum.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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10 Responses “A filosofia conservadora comete um erro teórico”

  1. Rafa
    14/02/2016 at 00:28

    Paulo, é possível afirmar que a vontade geral é a cultura, no sentido da weltanschauung ou das “épocas” descrita por Vico?

    Abraços

    • 14/02/2016 at 00:34

      Rafa:Você vota em algo que proporciona o bem comum e eu também e outros também, pois somos informados e sabemos priorizar o bem comum – pronto, eis vontade geral.

  2. Ricardo Mantovani
    09/02/2016 at 13:23

    Muito bom, Paulo! Sempre pensei isso a respeito do Rousseau – a respeito de como ele é mal lido pela direita e pela esquerda. Nunca tinha visto ninguém por as coisas do modo como você colocou. Inspirador!

    • 09/02/2016 at 13:44

      Essa distinção, Ricardo, me parece fundamental hoje.

  3. Carlos blanka
    09/02/2016 at 12:46

    Se o olavo de carvalho tivesse o poder nas mãos, voltaríamos para o seculo treze.

    • 09/02/2016 at 12:47

      O olavo, Carlos, não conseguiu terminar o ensino fundamental, foi reprovado no terceiro ano primário, e seus leitores seguem o exemplo. Esse povo existe para a gente rir deles.

  4. Felipe Franco
    09/02/2016 at 03:28

    Um brilhante texto! Sr. Professor.

    • 09/02/2016 at 04:18

      Felipe, acho que com esse ponho um fim na conversa dos confusionistas, não?

    • Felipe Franco
      25/02/2016 at 12:42

      Sr. Paulo, agradeço-lhe os textos que escreve, me ajudam demasiadamente em todos os aspectos! Difere-se dos que divulgam falácias que não só atrapalhando o ensino da Filosofia como empobrecem o diálogo, caducam sentenças ridículas em todas as falas. Gabam-se por nunca terem lido Rousseau — que como Marx tem sido refém de sofismas conservadores, hábito cada vez mais comum dos limítrofes. Agradeço-o por um artigo que me incentivou a ler ‘As Confissões’ do Rousseau.

    • 25/02/2016 at 13:21

      Franco é isso que espero do estudante inteligente, do estudante não ideológico.

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Filósofo