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30/05/2017

A festa da rola no Malafaia


A prerrogativa de xingamento sempre foi dos conservadores. Os liberais e a esquerda nunca puderam usar de “palavras de baixo calão”, ao menos não de público. Essa regra não foi posta por ninguém em especial, muito menos pelos conservadores. Foi valendo paulatinamente por causa de certa índole dos próprios liberais e pela esquerda. Afinal, tal parcela de intelectuais sempre esteve ligada à cátedra, às boas maneiras de Humanismo universitário. Nesse campo sempre esteve presente a ideia de que antes vale o argumento racional que o apelo emocional. É uma ideia relativamente correta, mas, não raro torna-se uma camisa de força. Mas, é certo isso?

A noção de que os intelectuais devem abandonar a alma para ficar com o espírito tem origem lá em Platão, no interior da Academia. Foi ele quem ensinou que deveríamos fazer filosofia como o aprender a morrer. Isso chegou a tal ponto que mesmo diante de Hitler existiram pacifistas ou gente que tentou argumentar, dentro e fora da Alemanha, contra uma doutrina que tinha por essência a guerra, a agressão, o genocídio. A violência física e, mais ainda o revide verbal, não podiam vir da boca de quem, ao contrário da direita extremada, prometia promover uma melhoria moral para todos.

Aliás, isso chegou até o paradoxal esquema desenvolvido nos primeiros anos do bolchevismo. Lênin e Trotsky tinham o dom para o assassinato tanto quanto Stalin, mas sempre foram aceitos pelos professores do mundo todo por conta da grosseria de Stalin. Foucault estava correto quando mostrou que a “missão civilizadora do capital” (Marx) tinha de ser vista como uma disciplinarização em favor da suavização das relações, das penas, ainda que os processos de violência e crueldade não tivessem diminuído. A regra de agressão do mundo liberal, ao contrário da regra do fascismo, é a não grosseria, a sutileza, talvez a ironia, e se for para matar, que seja pela forma que a mulher mata, antes pelo veneno que pelo show de Tarantino.

No frigir dos ovos, o que temos hoje se mantém dentro do quadro geral da necessidade do “bom mocismo” para os liberais e para esquerda. Mas, de vez em quando, há intelectuais que resolvem quebrar isso, para mostrar que sabem jogar o jogo de espada dos histéricos. Foi o que vez, de modo bem pensado, Boechat contra Malafaia. De que valeria um argumento racional e “suave” contra um homem que é dono até de Deus, de Jesus, que diz que negro não pode casar com branco, que homossexual tem de desaparecer e que sobe em qualquer palanque onde a cruz cobre o tridente? Nada. O jornalista Boechat reagiu legítima e inteligentemente contra o reacionário Malafaia. Deu-lhe o “chega para lá necessário”. E usou um adjetivo fantástico: um pássaro. Uma ave. Um pinto é uma ave, uma rola é uma ave.

Sei que Boechat está certo e sei que ele fez isso de modo correto. Também eu, de vez em quando, mostro para alguns reacionários fascistas que não vou levar a afronta deles para casa. Mostro que não vou ficar intimidado por ser eu um professor e ter o que perder, e eles não. Na reação nossa, eles tremem, balbuciam, fogem nessa hora. São tomados de tamanho horror que logo querem se fazer de vítima. Mas a opinião pública, com o passar do tempo, percebe que o “chega para lá” funcionou. Por várias vezes tive de reagir sozinho, com resposta dura, a certas agressões veladas e abertas que não iriam parar caso não reagisse no mesmo nível do agressor. Há momentos que nós, os que são ingênuos e realmente querem o “mundo melhor”, não têm como não dizer aos facínoras que eles são facínoras.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador (Cortez, 2015).

APÊNDICE:

Takizawa Rola, atriz pornô russo-japonesa “comprada” por 7 anos por um empresário chinês.  Também é ela na foto acima. Essa Rola, garanto, Malafaia não gosta.

Takizawa Rola, atriz pornô russo-japonesa “comprada” por 7 anos por um empresário chinês. Também é ela na foto acima. Essa Rola, garanto, Malafaia não gosta.

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16 Responses “A festa da rola no Malafaia”

  1. roberto quintas
    30/06/2015 at 15:09

    Boechat não é exatamente de esquerda. Mas a pegação entre ele e Malafaia é um endosso do preconceito homofobico. Esquerdista não profere palavras de baixo calão? F*- se quem dissse isso.

  2. prius
    22/06/2015 at 08:55

    Como observador estrangeiro residente no Brasil há 2 anos, surpreende a existência de tanta “religião” e tanto pregador dizendo atrocidades!!! Muitos deles nunca teriam chegado a tanto, na europa, atenta, perspicaz e esclarecida! Bastava analisar o enriquecimento ilícito dos pastores para serem imputáveis criminalmente e serem ostracizados depois de cumprirem pena efetiva de prisão e terem pago indemnizações devidas.
    Chego á conclusão que o problema do Brasil passa pela questão de falta de educação e formação à grande maioria da população e, a ausência de sentido e espírito crítico fazem os crentes caírem na conversa fácil desses charlatães xico-espertos, encenando que são pessoas de bem, teatralizando para o povo cair, dando dízimos, contribuições, pagamentos, ajudas, etc etc etc…
    Então a questão do dízimo, na sua fundamentação teórica é o máximo, na relação e comprometimento pessoal de cada um com Deus…nem Lutero havia construído uma teia destas!

    Por último, surpreende-me a falta de informação no Brasil de notícias internacionais e também admira como a religião, num Estado de Direito democrático e laico, influencia e interfere tanto com o viver da população!

  3. Augusto P. Bandeira
    21/06/2015 at 17:48

    Professor Ghiraldelli, acho pertinente perguntar algo sobre o seguinte trecho:

    “De que valeria um argumento racional e “suave” contra um homem que […] diz que negro não pode casar com branco […]”

    No contexto da discussão Boechat x Malafaia, fica implícito que o homem referido no excerto é o pastor Malafaia. Ao fazer uma pesquisa na rede não achei qualquer relato de agressão racial cometida por ele ou comentários dessa natureza de sua autoria.

    Houve, sim, certa vez em que o também pastor Marco Feliciano afirmou ser verdadeira uma vertente teológica que dizia respeito à descendência amaldiçoada de Cam, um dos filhos de Noé; cujo resultado seria o conjunto dos povos africanos nativos desde o início dos tempos.

    http://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2011/03/31/deputado-federal-diz-no-twitter-que-africanos-descendem-de-ancestral-amaldicoado.htm

    Ainda assim, nada quanto aos casamentos ditos “interraciais”.

    Para que não se faça qualquer confusão: neste pedaço se fala a respeito do “homem” como um tipo (homem-pregador-neopentecostal) ou especificamente ao indivíduo Silas Malafaia?

    O que o pastor Malafaia diz causa polêmica por si só, não é necessário adicionar temas polêmicos sobre os quais ele nada disse. Aliás, por estes dias ele se pronunciou sobre um documento que circulou na Universidade Federal de Santa Maria (UFSM – RS) pedindo que fossem listadas as pessoas que viriam de Israel, alertando para que, no estado do Rio Grande do Sul não se inicie uma perseguição antissemita.

    Assistam a partir de 12:10

    https://www.youtube.com/watch?v=AntFUU2i7HQ

    O documento e o que motivou sua redação: http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2015/06/oficio-da-ufsm-motiva-queixas-de-preconceito-contra-israelenses-4775343.html

    • Augusto P. Bandeira
      21/06/2015 at 18:13

      Respondendo sua pergunta, tenho 23 anos.

      Só quero saber se, no trecho do seu texto que reproduzi acima, o “homem” é o “tipo Malafaia” (pregador-neopentecostal) ou é o Malafaia mesmo.

      Porque se for o indivíduo Malafaia, o trecho faz parecer que Silas Malafaia já fez insinuações sobre casamentos “interraciais” – o que procurei e não encontrei.

      Por motivos de racismo, não encontrei nada assinado (ele poderia ter apagado, óbvio – alíás, foi o que o Feliciano fez com a postagem a que aludi), mas alguém poderia tê-lo denunciado às autoridades e a denúncia rapidamente se tornaria pública. O que me leva a pensar: se não houve denúncia, não houve crime.

      Entendi seu texto: primeiro Boechat disse algo bem genérico, Malafaia tomou para si, espondeu no twitter e Boechat replicou no rádio.

      Meu ponto é: Malafaia fala muita coisa sim, mas, sobre casamentos de negros com brancos especificamente ele não falou.

      Só isso. Então é o tipo Malafaia ou é o indivíduo Malafaia. Se for o tipo, o trecho do texto procede, se for o indivíduo, aí não.

      Obrigado pela reposta.
      No mais, bom texto.

    • Augusto P. Bandeira
      21/06/2015 at 18:34

      Disso eu não sabia.
      Obrigado.

      Como disse antes, procurei e não achei.
      Nada. Nem mesmo denúncia.

    • Augusto P. Bandeira
      21/06/2015 at 18:57

      Achei e bate com o que o senhor disse: texto retirado do livro “O Perfil do Homem de Deus” do Edir Macedo, republicado em uma página que não existe mais, a “Arca Universal”. Todavia, fizeram um backup com o layout original do portal.

      O texto, na íntegra:

      http://web.archive.org/web/20120902195226/http://www.arcauniversal.com/comportamento/reflexao/noticias/homem-de-deus-quanto-a-idade-e-a-raca——–13420.html

      Não encontrei antes porque estava procurando por algo ligado ao Malafaia, mas não duvido que ele possa ter dado apoio ao que foi escrito.

      Obrigado mais uma vez, prof. Ghiraldelli.

    • ghiraldelli
      22/06/2015 at 05:58

      Augusto, Malafaia só na fez mais porque quer Edir se ferrando. Mas ele faz a mesma pregação, contanto que isso lhe dê mídia.

  4. Luana
    21/06/2015 at 15:11

    Muito bom e essa resposta do Boechat foi ótima!!!!

  5. Pascoal da Conceição
    21/06/2015 at 11:52

    assino embaixo, a fala do boechat é poesia e pólvora!

  6. Edson Silva
    21/06/2015 at 10:55

    Parabéns pelo texto Paulo Chiraldelli o mesmo traz um reflexão sabia da vida, como lidar com as pessoas que as vezes não “sabem receber uma ROLA como resposta”.
    A maneira como escreve de modo sútil, levando o leitor a pensar é degustar um pouco da sua filosofia.

  7. matheuslaville
    21/06/2015 at 00:27

    É tem uma hora que uma boa “rola” faz uma ação excelente e ainda energética que milhões de apalavras educadas. Falar isso desprende a arma de quem é contra a nós, pois pega na surpresa, por exemplo, do que você disse que sendo um professor não espera muita coisa de você e acha que pode intimidar, porém, pelo que eu aprendi com você, e também com um professor de filosofia do ensino médio falar uma “rola” da vida, pode ensinar muito bem que um ano de aula. E isso desarma qualquer conceito que os aproveitadores tem para usar contra as pessoas de bem, então uma “rola” energética como vermos que alguém não aprendeu nada como o “Malávaia”, que acha que é dono de Deus e de Jesus e da moral, é excelente e bastante própria para lembrar que ele não é isso tudo não, e para ele se mancar, agora espero que ele aprende ou se não aprender vai faltar rola para ele hein! kkkkkkkkk.

    Ps. Tomei um susto com o seu jeito no grupo, porém, comecei a entende como são os filósofos e também quando vi “Filósofos essenciais” e entendi mais o seu jeito principalmente sobre mulheres. Bastante legal!

    • ghiraldelli
      21/06/2015 at 10:53

      Acho que você tomou susto comigo porque é jovem. Os jovens atuais cresceram protegidos demais.

  8. roberto
    20/06/2015 at 21:37

    “e se for para matar, que seja pela forma que a mulher mata, antes pelo veneno que pelo show de Tarantino.” Bom, com certeza você não está se referindo à mulher Beatrix Kiddo (do filme Kill Bill). heheheh

    • Thiago Carlos
      21/06/2015 at 02:21

      Beatrix pode ser uma mulher, mas ela mata como um homem

    • Luis Cláudio Aguiar
      22/06/2015 at 07:49

      Isso mesmo, Thiago. Não podemos confundir sexo (homem/mulher) com gênero (masculino/feminino), vez que essa última forma de se classificar se refere antes a conjuntos de práticas: lugares de subjetivação, modos de o indivíduo se tornar sujeito (de discurso).

    • ghiraldelli
      22/06/2015 at 10:46

      Luis isso que você falou NÃO se aplica à minha narrativa. Cuidado. Cada narrativa é contextual nela mesma, possui uma harmonia interna. Ali no texto É MULHER SIM que cabe falar.

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Filósofo