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24/03/2019

A escola salvadora da pátria


Nos anos oitenta o professor Dermeval Saviani recuperou uma crítica ao liberalismo educacional. Ele lembrou o quanto os liberais acreditavam na educação como solução universal para todos os problemas sociais.

De fato, a doutrina liberal tinha lá a sua verdade, mas o que Saviani criticava, corretamente, era o resultado de tal doutrina no seu comportamento de ideologia, ou seja, a tese de que se houvesse um problema na sociedade, bastava então criar uma disciplina a mais na escola para que tal problema pudesse ser resolvido.

A crítica de Saviani passou. Mas ela ainda é válida. Ainda vivemos isso. Tudo que não gostamos que ocorra e não sabemos resolver, achamos que a escola, com uma disciplina a mais, resolve. O ministro da Educação, Janine Ribeiro, quer que se ensine ética nas escolas. Estranhamente não se lembra que já há a disciplina filosofia, com poucas horas de aula. A filósofa americana Judith Buttler vem a o Brasil e diz que é necessário uma disciplina que ensine “questões de gênero” na escola. Todo dia nosso parlamento revela um deputado que inventa mais uma “matéria” escolar. Briga de galo, batida de trânsito, briga de futebol, incapacidade de reação à política econômica de arrocho salarial, falta de capacidade de empreendimentos etc. Tudo isso é problema e ao mesmo tempo é “boa ideia” como disciplina escolar. Um currículo que pegasse a madrugada além do dia todo não daria conta de tanta vontade de consertar o mundo. Ou então, o mesmo tempo de horas-aula, mas com matérias pulverizadas na grade curricular.

Ao mesmo tempo, o próprio poder de estado caminha no sentido oposto. Paga cada vez menos os professores, descuida da formação destes e ainda por cima tenta enxugar o currículo escolar para, estranhamente, torná-lo “atrativo”. Só mesmo na mentalidade dos dirigentes brasileiros a escola que ensina menos é chamada de atrativa! Nossos dirigentes se perderam no emaranhando de um liberalismo que deixou de ser doutrina para ser mera ideologia, e desta acabou se tornando em pastiche. Adam Smith torceria no nariz para o tipo de “esperança liberal” que alimenta nossos dirigentes quando estes se envolvem com educação.

Mas alguém lembra de Saviani? Que nada, os programas de Pós-graduação em educação ou pegam seus textos datados e reproduzem sem avaliação crítica ou, pior ainda, pegam Chalita e até Çami Tiba como bibliografia. A área de Educação virou um lixo. A falta de dinheiro no bolso do professor arrastou a área toda para o fundo do poço. Já estamos vendo professores de filosofia, que lidam especificamente com pedagogia, não saber das críticas da esquerda a Paulo Freire, e tentar desqualificá-lo com bandeiras da extrema direita, vindas da boca de uns sabe-nada que se apoderaram da mídia atual como se fossem gente culta. É a decadência.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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6 Responses “A escola salvadora da pátria”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    17/09/2015 at 12:56

    PAULO
    Os governantes atuais criaram a infeliz logomarca Brasil, Pátria Educadora e nesses 13 anos de poder não moveram uma palha para a Educação, embora tenham aumentado, significativamente o orçamento dessa Pasta cujos recursos destinam-se em 85% para o ensino superior. Confirma-se, mais uma vez, que não basta apenas o dinheiro, antes a GESTÃO. Enquanto isso, na recente greve da UFRJ, os educadorxs (assim se autodenominam para abarcar todas as opções sexuais), da creche mantida por essa universidade, pasme, puserem crianças de 2 anos em passeatas contra as medidas do ajuste do governo, portando bandeiras vermelhas dos partidos radicais de esquerda em espetáculo circense inacreditável.:

  2. José Silva
    16/09/2015 at 11:56

    Quando você citou esses dois showmans, Içami Tiba e Chalita como bibliografia de pós-graduação em Educação dei uma risada. Depois me dei conta de que isso é pura verdade e, dói um negócio desses. Há vários exemplos de professoras de mais idade do primário, chamadas jocosamente de “tias véias”, que tem orgasmos múltiplos ao falar do Chalita e junto com ele empurram o Pe. Fábio de Melo pra Educação fazendo dessa área o samba do crioulo doido. Pra não ser injustos com as queridas “tias véias”, há muitas meninas que se formam em pedagogia e confundem Paulo Freire com Paulo Coelho, chamando o primeiro de “o bruxo da Globo” e isso não é piada.
    Como os alunos costumam dizer “Tá tenso”.

    • 16/09/2015 at 12:38

      José! Vá puxando pela memória, não se esqueça que o governo do estado de S. Paulo compra a Veja e a distribui nas escolas.

  3. joão paulo
    16/09/2015 at 11:05

    Olá professor. Eu sei que isso não tem a ver com o texto mas queria te informar. Teve um otário que fez um texto sobre um post seu sobre a campanha contra o estupro:

    http://lounge.obviousmag.org/ponto_cego/2014/03/-comecei-a-ler-esperando.html

    • 16/09/2015 at 12:38

      João Paulo, de Pondés, Reinaldos e otários o mundo tá cheio. A diferença entre eles é o dinheiro.

  4. Terezinha Pires Campos Mazzo
    15/09/2015 at 22:01

    Melhor não comentar o óbvio!

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