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21/11/2017

A democracia dos inteligentes e a dos energúmenos


A democracia ateniense não votava em pessoas. As pessoas ocupavam cargos por sorteio. O voto era para teses. Estas eram defendidas na Ágora pelos chamados “cidadãos livres”. Assuntos mais técnicos ganhavam opiniões técnicas consideráveis. Como a guerra era uma constante, a técnica de defesa e ataque, feita por generais, era mais bem defendida pela oratória dos generais, desde que fossem generais com boa oratória. 

Nessa sociedade Sócrates buscou sempre distinguir tipos de conhecimento, exatamente para que os assuntos técnicos não fossem discutidos com maior peso sobre quem não sabia deles, não havia se tornado experts neles.

Uma boa democracia é aquela que consegue levar adiante sua conversação de modo que as decisões tornem as hierarquias uma forma de harmonização social. Vota-se para escolher um presidente e este pode escolher um ministro da educação, mas a partir daí, é bom que existam cargos técnicos, de gente que precisa fazer com que a educação do dia-a-dia ocorra, e que saiba informar seus chefes de que certas medidas funcionam e outras não. Há uma hierarquia de mando, mas há uma hierarquia de saber. O ministro manda e os funcionários não podem simplesmente obedecer, eles são técnicos e devem dizer ao ministro: o senhor é um amante da educação, nós somos técnicos em educação. Em outras palavras: o senhor é um bom amante, mas um amante é um amador, nós, diferentemente, somos profissionais.
Assim vale para tudo.

Algumas sociedades são extremamente ousadas nessa busca de hierarquias harmonizadoras. Os Estados Unidos é a democracia mais ousada do planeta. Decide-se muita coisa na base do voto, da escolha individual livre, e os aspectos técnicos às vezes são testados antes na prática que por chancelas universitárias ou corporativas. A ideia de Bacon de que o saber é poder, na sociedade americana vinga de maneira diferente da nossa. Lá nos Estados Unidos vota-se para xerife, delegado, juiz etc. Em alguns estados o diploma de Direito é necessário, em outros não, e há os sistemas mistos. No Brasil, um delegado é uma função pública, para a qual só concorre quem tem o diploma de Direito. Temos uma hierarquia de saber e poder que segue a carreira burocrática, enquanto que os Estados Unidos montam uma carreira em que a “prova pública” é já a prática (o Tiro de Guerra americano nunca é no Quartel, mas na Guerra; os jovens servem o Exército e voltam mortos para casa!).

Qual a melhor forma de hierarquia na democracia?

Não há razão de discutir se o Brasil está correto ou se é os Estados Unidos o correto. Cada um construiu sua peculiaridade de uso do know how segundo especificidades históricas e geográficas, antropológicas e filosóficas. O que vale entender é que a hierarquia deve produzir harmonia, não disfunção. Como entender isso? Ora, sabendo o que é saber alguma coisa.

Muitos brasileiros sabem as coisas, mas não sabem o que é saber. Querem votar em tudo e

Sir Francis Bacon Waiting an Audience of Buckingham

Sir Francis Bacon Waiting an Audience of Buckingham

qualquer coisa como se pudéssemos entrar num avião e iniciarmos uma votação para decidir quem irá ser o piloto naquele voo. Nem mesmo em uma sociedade onde todos tivessem brevês nós faríamos isso. O fenômeno da Internet mostra nossa democracia feita por gente meio que marinheiro de primeira viagem. Um indivíduo entra na net e se depara com um doutor em fisiologia ou em filosofia, e acha que por conta da Internet ser horizontal a hierarquia entre ele e o doutor deve se quebrada, e a quebra logo de cara, dando lições ao doutor. Recebe uma patada do doutor ou, então, o desprezo. Ou recebe simplesmente o silêncio antecipado: a maioria dos doutores universitários com alguma fama se recusa em conversar na net exatamente para não ser agredido. Com isso, o país perde muito. Canso de convidar autores como eu a vir para net. Em filosofia, não consigo sucesso.

Não vamos a lugar algum se cada mãe e cada pai não disserem para seus rebentos: não discuta antes de aprender, e depois que vier a achar que sabe, escute os mais escolarizados e seja educado com eles. Os jovens que aprendem essa lição dos pais vencem na vida. Os outros não. Não mesmo – garanto! É fundamental em uma democracia como a nossa ter uma juventude que saiba respeitar hierarquias. Pois uma democracia sem hierarquias não é uma democracia, é um demototalitarismo. Jovens de direita e esquerda em geral não sabem respeitar os mais velhos e mais sábios porque almejam viver no demototalitarismo, não na democracia. O que não sabem é que no demototalitarismo não serão amigos do governo totalitário. Só alguns serão. A maioria será provavelmente decapitada bem antes do esperado. Não por ousadia, mas por incompetência. Não escutaram pai e mãe que lhes dizia: respeitem os doutores, os escolarizados, aprenda com eles. Serão incompetentes em qualquer regime, na democracia fracassarão, no demototalitarismo morrerão.

Minha geração aprendeu isso. Bem, nós tivemos a sorte de ter pais e mães, de saber quem eram eles. Chegamos até a conviver com avós. Aprendemos a aprender com os mais velhos. Os brasileiros de hoje tem menos oportunidades que nós, quanto a esse quesito, mas tem mais chance de informação, deveriam atinar para isso e não continuarem a dar de bobos como estão fazendo.

© 2014 Paulo Ghiraldelli , filósofo

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13 Responses “A democracia dos inteligentes e a dos energúmenos”

  1. 16/08/2016 at 19:20

    Professor, o anti-intelectualismo é a ante-sala do “fascismo” e demais bichos cabeludos que de quando em quando assolam a política.

  2. Gustavo
    13/03/2014 at 12:33

    Pois é caro Paulo, um dos meus aforismos sobre os tempos atuais é: “a internet não apenas derrubou as fronteiras, mas acabou também com as trincheiras”. Pois os jovens acham que mundo globalizado não significa ter o direito de conhecer pessoas e culturas diferentes sem sair de casa, de assistir vídeos e compartilhar todo tipo de conhecimento, não, para muitos significa quebrar todas as hierarquias. Na internet somos todos iguais, em tudo e em todos os assuntos. Não importa se alguém queira dar pitaco num fórum de neurocirurgia ou física nuclear, vivemos num mundo de sabichões com dedos rápidos no teclado. O exemplo que você deu de Sócrates foi excelente! Sempre costumo brincar dizendo que se alguém encostasse uma arma na minha cabeça e exigisse que eu desse uma definição sucinta do platonismo, eu diria que se trata de saber quem possui os conhecimentos (e quais seriam eles) necessários para governar. Quer saber o que é coragem? Fale com um general. Quer saber o que é a justiça? Fale com um magistrado. Mas e no caso da política? Enfim, parece que se tudo pode ser encontrado no google, então por que raios alguém que quisesse conhecer o que quer que seja precisaria perguntar para um experto do ofício.
    E como reverter isso?
    Como mostrar a necessidade da relação aprendiz-mestre?
    Como convencer que a convivência, a observação, as lições e os debates, o trabalho duro, levam ao aprendizado, e não o pretenso auto-didatismo?

    Inté.

    • 13/03/2014 at 15:17

      Gustavo, democracia vem acompanhada de educação, fora isso, vira democratismo, populismo, julgamento de rua e coisas assim.

  3. Alberto
    08/03/2014 at 09:00

    Paulo, às vezes tenho a pretensão em acreditar que o que tu escreves é o que penso, porém não escrevo. Continuo levando ao pé da letra o que está escrito acima na vida pessoal, tento fazer isso com meus alunos e com os meus filhos o buraco é um pouco mais embaixo: ou fazem isso ou se afastam de mim e proponho que se afastem de todos.

    • 08/03/2014 at 12:05

      Alberto, há um grupo grande já de gente que pensa próximo, e pensa independente, o que é fundamental.

  4. Mario Luis
    08/03/2014 at 01:15

    Tive, na minha época de faculdade de Filosofia, um grande mestre cuja leitura da liberdade em Spinosa favoreceu o acesso a três formas de conhecimento humano, as quais, em breve síntese, dizem respeito à prisão em que se encontra o Homem, na medida que estabelece a consciência como papel fundamental na reação das afecções, julgando ser o mundo apenas a ação e reação das forças que se interagem. São incapazes de ultrapassar os limites do constrangimento que os incitam a reagir. A segunda forma de conhecimento, consegue estabelecer relações causais, de proporcionalidade e observação das relações de corpos, dos encontros dos corpos, e a partir da razão estabelecem modos científicos de aferição do mundo e das coisas. Há um terceiro modo, ele dizia, o qual consistia no novo. O que é o novo, a capacidade de criar o novo? Romper com os paradigmas, ultrapassá-los, estabelecer uma relação própria de liberdade.
    Façamos uma análise e vejamos onde nos agrilhoam os pensamentos.

    • 08/03/2014 at 02:32

      Mário, mas precisamos, nesse caso específico, de algo novo?

  5. LENI SENA
    07/03/2014 at 22:04

    Sei bem qual é nível do nosso atual ensino básico. Lamento muito imaginando o que eu seria quando de uma escola boa, o quão bom seria conviver com sábios, aprender e crescer junto a eles. Se para mim já é difícil, imagine para o professor que teve acesso a um nível bom ensino!..

    • 07/03/2014 at 22:07

      Leni, é uma guerra. A maior parte dos filósofo diz que sou louco, que nunca deveria enfrentar cara a cara a barbárie da Internet, as olavetes da vida etc. Mas ocorre é que o mundo vai ser o mundo virtual. A TV estará integrada à internet. O Hora da Coruja é o futuro.

    • LENI SENA
      08/03/2014 at 21:08

      Louco nada!…Sabes muito bem o que faz e não é um bando de olavetes que o deterão. É como bem falas, em qualquer regime em que eles estiverem, sucumbirão.

  6. Valdério
    07/03/2014 at 17:24

    Paulo,

    Acho que alguns leitores revoltados em sua página não estariam preparados sequer para tentar aprender contigo sobre os tema que você escreve, por falta de discernimento sobre assuntos mais básicos. É natural discordar, salutar até, desde que você saiba do que está falando. O radicalismo ignorante dos pretensos inquisidores sexuais que bradaram no seus últimos textos aparece em debates que tenho com alguns colegas conservadores sobre políticas públicas sociais, ou de outros conhecidos comunistas, que culpam os Estados Unidos pela miséria de países que sequer possuem transação comercial internacional com a referida nação. Nestas horas, convidamos as pessoas a fazerem contas matemáticas simples, questionamos o aspecto mais básico da crítica que defendem e eles já te chamam de comunista, capitalista, vendido e um monte de outros termos, cujo significado, eles desconhecem. Não falta apenas uma escola pública de segundo grau decente pra essa gente. Falta também uma escola básica decente. Porque um bom professor de segundo grau que vá ensinar, por exemplo, História e Geografia, terá dificuldade de ensinar para alunos que acham que o planeta tem 5.000 anos, ou que não sabem localizar países no mapa-mundi. Um professor de Filosofia que tente explicar que o conceito de receber livre-arbítrio de Deus veio de Santo Agostinho vai encontrar resistência de alunos que não concordam porque são evangélicos e não querem chamar ninguém de “santo”. Provavelmente vão acusar o professor de não respeitar sua religião e “impor o catolicismo”, mesmo que o professor não tenha religião alguma e, óbvio, não está evangelizando ninguém e sim tratando de Filosofia.
    Eles já descendem de pessoas que tiveram escola pública muito ruim, dos anos 70 e 80, sei porque estive lá. E o pior, são completamente cegos da própria ignorância. Sentem-se iluminados por serem diferentes da maioria, mas nunca refletiram que, racistas e criminosos também são minoria. Ser minoria ou maioria, em si, não torna ninguém especial. Você sabe disso, eu sei disso, você tem muitos eleitores que sabem disso, mas esse grupo desinformado e meio lento, diria que fiquei de blá, blá blá só porque não entendeu.
    Agora, só uma provocaçãozinha despretenciosa. Você não acha que essa turma tinha que ser um pouco mais (Humilde)na hora de tecer um comentário? kkkkkk
    Abraço

    • 07/03/2014 at 19:55

      Valdério, minha tese sobre essa gente é a seguinte: estamos vivendo uma crescente democratização da informação e uma melhoria econômica com concomitante piora da formação e da educaçao escolar. O resultado é termos esse anti-intelectualismo. Hoje mesmo um professor argentino, o Palumbo, postou no meu facebook sobre o anti-intelectualismo argentino. Mesma coisa. E olha que eles lá ainda são mais leitores que nós e tem uma escola básica não destruída.

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