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20/09/2019

A cultura escolar – o que ensinar, como ensinar e o que requisitar


O que deve ser ensinado no âmbito imediatamente pré-universitário? O que é que deve constar nos exames gerais do ensino médio? Questões como essas estão novamente na ordem do dia.

O ensino médio nunca é totalmente técnico-profissional, especialmente para as classes médias, mesmo quando algum país faz uma opção forte por essa linha educativa. Sua vocação propedêutica à universidade é dada pelo seu próprio nome: “médio”. Ele intermedeia duas situações, a que designa o que se deve saber como “fundamental” e o que se deve saber “no âmbito superior” para que uma boa integração do jovem – inclusive com função crítica mudancista – em uma dada sociedade. O Ocidente em geral assim entende uma boa parte do que é a cultura escolar.

A cultura escolar é composta de duas partes. Uma diz respeito à subjetividade estudantil, outra compreende o patrimônio cultural da humanidade. A escola média é a proporcionadora desse encontro entre bípedes-sem-penas jovens e assunto escolar. Todavia, isso diz respeito a campos diferentes dentro da filosofia da educação, da pedagogia em geral e, enfim, da política educacional.

A subjetividade estudantil é o que está nas mãos dos teóricos educacionais quando estes estão disponibilizando práticas apropriadas a divisão etária, controles disciplinares e condutas desejadas. Nesse sentido, o Ocidente se acomodou, a partir da modernidade, com uma dupla categorização, como se põe pelo olhar de Richard Rorty: as crianças devem antes de tudo ser socializadas, enquanto que os jovens devem antes de tudo serem individualizados.[1] A socialização implica em trazer a criança para o interior do ethos de seu povo, nação etc. Ela adquire uma ética: ganha uma automaticidade quanto às regras de comportamento e de deveres sociais. Por mais rebelde que aceitemos que seja uma criança ela deve aprender a respeitar filas, ser sociável com os colegas e ter respeito pelo professor e, portanto, com os mais velhos, não apelar para comportamentos cruéis com animais, saber proteger menores, ouvir com atenção e sabedoria coisas como “em mulher não se bate nem com uma flor” etc. Já a individualização diz respeito a um ensino que pode se dar ao direito de questionar toda essa ética já absorvida, até por uma razão simples, ela já foi absorvida.

Funciona aqui a relação que Norbert Elias estabeleceu entre a sociedade que não pode ainda relaxar e aquela que já pode, dentro de restrições temporais e geográficas, se dar ao luxo de viver relaxadamente.[2] A primeira ainda não passou pelas introjeções necessárias à modernidade, enquanto que a segunda já ultrapassou até momentos de crise e, então, aproveita sua prerrogativa de ter “feriados éticos”, digamos assim. Por exemplo: nossa cultura de praia, com todo mundo quase nu, é possível de conviver com nossos desejos sexuais, que já foram educados para se manifestarem em lugares outros. Assim é o ensino médio em relação ao ensino fundamental: ele é uma sociedade que pode se dar ao luxo de, na maioria das aulas, estar em férias éticas, ainda que, criticamente, sabe que isso está longe de significar certas transgressões do que já virou lei. As “férias” aqui mencionadas dizem respeito à capacidade de criticar e de mudar, com maior ou menor velocidade.

A subjetividade estudantil também é ordenada e reordenada pelo que é a segunda parte da cultura escolar, ou seja, o patrimônio cultural da humanidade. Desse modo, no ensino com as crianças, tendemos a ser mais dogmáticos. Por exemplo, podemos dizer para as crianças, dogmaticamente, que a Princesa Isabel libertou os escravos. Podemos dizer também, mais recentemente a partir de nossas alterações quanto aos afro-brasileiros, que os escravos fundaram os “quilombos”, que fugiram e se rebelaram, e, então, nesse ínterim falamos de Zumbi dos Palmares como herói libertador etc. Todavia, diante dos jovens, no ensino médio, o dogmatismo vai cedendo para uma situação mais sutil, complexa, que necessariamente só se compreende por meio de uma conversação livre, informada e culta. Só então entramos nas condições sócio-econômicas do Brasil durante a escravidão, falamos em interesses de grupos, em conflitos religiosos, adentramos para a vida pessoal na Corte e a relação da Princesa com os negros, atentamos para a questão dos “moços pardos” e, também, de como era vida no Quilombo, da situação de Zumbi como um rei com escravos. Diante desse conteúdo, tudo tem que ser menos dogmático, mas culto e informado, para que o estudante não venha, por exemplo, a ficar na infância e dizer coisas como “se Zumbi tinha escravos então está justificada a escravidão que portugueses e brasileiros impuseram aos negros” etc. A criticidade é sinônimo de capacidade de distanciamento, ida e volta nos assuntos e, fundamentalmente, de saber ponderar argumentos. Trata-se de adquirir maturidade.

O jovem que toma essa atitude de justificar a escravidão porque o que busca a liberdade, Zumbi, também tinha escravos, não adquiriu capacidade de entendimento das relativizações antropológicas. Foi exposto ao ensino médio, mas com o cérebro ainda no ensino fundamental, ou então, com uma característica pequena de dialetização, de compreensão da sofisticação humana no confronto entre nossa psicologia e nossa vida histórica e geográfica.

O bom sistema escolar faz uma transição entre a fase de socialização da criança e a fase de individualização do jovem de uma maneira suave e inteligente, sabendo ponderar o grau de dogmatismo que é vigente na primeira fase e o grau de crítica e liberdade na segunda fase. Os confrontos e problemas escolares em geral são atinentes sempre a essas formas de transição e, não raro, dizem respeito ao peso do dogmatismo e do individualismo crítico que são postas não só em cada fase pertinente, mas na invasão de fases. Por exemplo: o quanto de socialização ainda é necessário no ensino médio e o quanto de individualismo pode ser introduzido no ensino fundamental. Mas, nesse caso, vale a experiência e a boa formação do professor e do diretor escolar, principalmente. Aliás, não se faz escolas sem eles, muito menos se faz escola se eles não são bons profissionais, bons intelectuais, e se ganham pouco.

Assim, a subjetividade estudantil não se realiza de modo isolado do patrimônio cultural da humanidade, o que em geral, em didática, chamamos de “conteúdos do ensino”. A subjetividade estudantil é rio de águas éticas do começo ao fim, mas nenhuma ética se realiza sem uma parte intelectual, estritamente cognitiva. A cultura escolar, em uma acepção mais antropológica, diz respeito à subjetividade estudantil, mas, em uma acepção mais atinente ao valor intelectual da palavra “cultura”, ela efetivamente se realiza à medida que os chamados “conteúdos do ensino” são uns e não outros. Cabe aqui, então, a conversação sobre o que ensinar e o que é que deve constar de exames – provas, vestibulares integrados, provas do tipo do Enem e do PISA etc.

Nesse caso, há se de compreender o que o Ocidente tem definido como cultura para, então, atinar as razões da cultura escolar optar por algumas coisas e não outras, na hora de escolher elementos do patrimônio cultural da humanidade.

Podemos dizer que há quatro tipos de cultura: a cultura erudita, a cultura acadêmica, a cultura popular e a de massas. [3]  É nesse contexto que colhemos o que ensinamos e o que acreditamos que devem constar nos exames. Todavia, qual o critério de escolha. Na cultura erudita podemos ter um Machado de Assis, na cultura acadêmica podemos ter algum bom livro de filosofia ou de análise de Machado de Assis, na cultura popular podemos ver os artefatos dos negros no Rio de Janeiro no tempo de Machado de Assis, e na cultura de massas podemos simplesmente ver com a forma da manifestação negra gerou o samba em situações mais complexas e a cultura funk em geral, inclusive nas suas manifestações mais simplórias, onde a cultura de massas se torna realmente “de massas”, sendo o suprassumo das mídias regras pelo dinheiro e mau gosto. Tudo isso é matéria de ensino, mas o eixo foi Machado de Assis, no campo da disciplina “Português”, integrando então História e Geografia (do Rio), Sociologia (dos negros no Brasil) e Filosofia (na análise da TV etc.). Por que o eixo foi Machado?[4] Porque o critério de escolha é o que é clássico.

O que é um clássico? Uma obra literária, artística, científica ou filosófica que, sendo profundamente um produto de um tempo e de um lugar bem determinados, acabam misteriosamente ganhando universalidade, sendo apreciadas pelas camadas cultas do mundo todo, entendida e utilizada para além de fronteiras e tempos. O melhor exemplo, em termos mais amplos, é a Bíblia, ao menos no Ocidente, mas como este livro acaba ficando no ensino religioso de casa ou da paroquia, para a cultura escolar propriamente dita podemos citar a Ilíada e Odisséia, de Homero, ou então a República de Platão. Este último diz respeito à pergunta “o que é justiça” e, nesse ínterim, esboça o retrato da cidade justa. Esse escrito é profundamente grego e antigo, mas cria a metafísica ocidental e realiza indicadores utilizáveis para um japonês do século XXI e para um árabe do século XII a respeito de pedagogia, arte, epistemologia, direito, antropologia, história etc.

Assim, os conteúdos entram no contexto do ensino médio se são clássicos, ou se são elementos que se originam a partir da luz dos clássicos. Um exame do ENEM, por exemplo, não pode não ter uma questão a respeito de uma obra de Machado de Assis, e de preferência seria interessante que fosse uma questão dissertativa. Mas também pode contemplar uma questão sobre o Rio de Janeiro no tempo de Machado: qual a música negra ali vigente, e como que o samba abriu espaço para o funk e até mesmo como o Samba virou “samba para inglês ver”.

Com isso, saímos do critério jornalístico de escolha (tão corretamente odiado por Alfredo Bosi, aliás) de que toda notícia tem que ter dois lados. Ora, assunto de escola não é jornal, não é notícia. E um clássico não tem dois lados. Sua condição de clássico aponta para uma versão predominante (por razões várias) ao lado de inúmeras versões que competem entre si e se complementam. Um clássico sempre produz mais uma leitura pela mesma pessoa ou mesmo grupo social, gerando divergências interpretativas infinitas. Por isso é um clássico. Sai do particular para o universal e, glosado com cada experiência particular, problematiza o leitor.

Essas diretrizes são o suficiente para termos uma boa escola e bons exames. Elas são viáveis em qualquer país de cultura ocidental liberal democrática. Mas elas não se fazem sozinhas, por meio de máquinas, muitos menos por terminais eletrônicos de consulta cultural. Elas dependem de um humano chamado professor, e este, aliás, se seguir a regra brasileira do “trabalhar por amor”, não vai realizar absolutamente nada. O amor serve para a cama, na escola, ele ajuda só um pouco.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. Autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (São Paulo: Cortez, 2015).

[1] Esse princípio da socialização e do individualismo como divisor de águas entre o ensino de crianças e de jovens é de Durkheim. Mas a maneira como eu o tomo aqui, há uma integração entre ambos, e até uma interpenetração, e isso então está mais para Dewey e, especificamente, para Rorty. Ver: Rorty, R. Socialização e individualização. In: Ghiraldelli, P. O que você precisa saber em filosofia da educação. Rio de Janeiro: DPA: 2001.

[2] Elias, N. O processo civilizador. São Paulo: Jorge Zahar Editor, 1990, vols. 1 e 2.

[3] A formulação que uso é a do célebre texto de Alfredo Bosi: Cultura brasileira e culturas brasileiras. Bosi, Alfredo. Dialética da colonização. São Paulo: Companhia das Letras, 1992. pp. 308-345. Esse texto foi produzido nos anos oitenta, e apareceu em outras publicações do autor e dele mesmo com outros (Durmeval Trigueiro Mendes, Saviani etc.)

[4] De modo algum estou falando aqui das modinhas de interdisciplinaridade ou transdisciplinaridades. Estou apenas usando de bom senso para dizer que nossas disciplinas escolares estão interrelacionadas, e se não estiverem, que os exames façam sua parte, então, criando situações temáticas. Não raro isso assim já aparece nos bons exames.

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4 Responses “A cultura escolar – o que ensinar, como ensinar e o que requisitar”

  1. José Silva
    02/11/2015 at 13:16

    Ótimo texto.

    Paulo, você chegou a ver um tal de movimento “Escola sem partido”? Vale a pena dar uma olhada
    A burrice humana não tem limites.

    • 03/11/2015 at 08:23

      José Silva felizmente essa coisa é inconstitucional.

  2. Luh
    01/11/2015 at 11:22

    Belo texto!
    Bem apontado, no final do texto, esse discurso de professor herói não vai salvar a educação brasileira.

  3. Matheus Kortz
    31/10/2015 at 20:22

    De longe um dos melhores artigos do blog, e quem nao entender precisa refazer éo o ensino fundamental,.porque nao aprendeu a ler.

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