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18/11/2018

A civilização criada pelas mulheres mais velhas


[Artigo para o público em geral]

Uma pequena reportagem da Folha de S. Paulo notou que as novelas da Globo estão apresentando, já há algum tempo, casais formados por mulheres mais velhas com homens mais novos, não necessariamente como personagens, ou seja, como tipos esporádicos. Essa revolução está ocorrendo no mundo todo, ela não é brasileira – podem reparar! Talvez ela seja o maior ganho do mundo feminino deste século que começa.

Não estou falando da glamourização tipológica. Não estou aqui lembrando da normalista que encantava a garotada. Não estou notando os inúmeros sites de sexo e pornografia sobre “cougars”, “moms” e até “vovós safadas”. Nem estou recortando Fátima Bernardes, Hugh Jackman, Madonna e uma centenas de outras celebridades. Volto a dizer, a questão ultrapassou a tipologia e o mundo mais afeito ao que chamávamos de idiossincrasia de artistas. De fato, na vida cotidiana comum de pessoas comuns, a possibilidade da mulher fazer o que o homem já fazia há milênios, de trocar de parceiras procurando pessoas mais jovens, é algo que se concretiza a passos largos.

Possibilidade de trocas de dentes, cremes de todo tipo, cirurgias plásticas, cortes de sobrancelhas da moda, cuidados com a vida hormonal e uma série de apetrechos tecnológicos colocam a mulher no “mercado amoroso e sexual” para uma segunda etapa, em uma busca mais livre, mais ampla. Mas, também nisso, há tipologia. E não quero pegar o particular e tipológico. O culto da juventude não caiu, aumentou. Mas há uma série de mulheres que não buscam ser modelos eternas, nem atrizes ou coquetes, e estão podendo, com o rosto nu e ao “natural”, procurar homens mais jovens. Isso faz parte da revolução do individualismo, que venho há alguns anos mostrando aqui e em livros, expondo suas diversas facetas (considerando Sloterdijk, Byung Chul Han e Lipovetsky entre outros). A sociedade do consumo mostra isso. O consumo classista tem cedido espaço para o consumo individual e o culto de si, do corpo, da vida single. Esse movimento avassalador, que não se deve somente ao modo como o novo mercado de trabalho se organiza, incorporando a mulher, põe todos diante de um destino que chega cedo para cada um no mundo de hoje: a opção de viver sozinho e ter parcerias escolhidas, não mais impostas.

A mulher se libertou da família dos pais, mas caiu sob o poder do marido. Depois, se libertou do marido, mas caiu sob o poder do culto da juventude. A cada libertação, outra prisão. Agora, as amarras finais apareceram cortadas. São as amarras das rugas. As mulheres estão podendo exibir marcas corporais. Cabelo branco e rugas deixaram de ser defeitos e agora, invertendo tudo, surgem como virtudes. A estética se altera junto com a ética. E isso faz com que a mulher trabalhadora pobre, que não se parece com a Patrícia Pillar, possa sentar num bar e paquerar, e visar homens jovens, e isso sem medo. Não é uma regra ainda, mas é uma constante. A vida single trouxe para o homem a solidão, para a mulher, as chances da liberdade. Se é para todos nós vivermos sozinhos em apartamentos minúsculos, então, ao menos para a mulher, esse desdobrar do liberalismo, que dá o culto ao individualismo máximo, tem sido parte de uma mudança total a respeito do amor feminino. Uma mudança para a melhor. Optar por filhos tardios é uma boa, ou optar por não ter filhos, melhor ainda. Ou começar nova vida após os filhos já estarem crescidos – também isso se põe como grande possibilidade.

Uma tal alteração de vida vai trazer uma maior estabilidade em um mundo de maior atribulação. As mulheres continuam amadurecendo mais cedo, em todos os sentidos. E se elas puderem escolher homens mais jovens, bem mais imaturos dos que já imaturos mais velhos que vinham sendo escolhidos, a realidade familiar do mundo ocidental vai se alterar e isso refletirá profundamente na vida de toda a nossa civilização. As decisões intempestivas serão menores, a prática do planejamento se adiantará para o campo microcósmico e, enfim, os horizontes de conquistas perderão para as linhas domésticas de visada. O mundo se tornará, em certo sentido, mais conservador, mais individualizado e menos abrupto. As mulheres exercerão as funções maternas, com mais poder, e isso sobre seus maridos ou parceiros. Isso já vem ocorrendo faz tempo, mas pode passar a ser uma regra universal até para o sexo, até para o encontro casual, e pode se infiltrar no mundo do trabalho e da política gerando nações inteiras de homens-filhos.

Há quem diga que isso só ampliará a geração de homens babacas – que já vemos por aí. Mas esses babacas são criados por mães que realmente são mães. A mulher que passa a escolher o homem pode ser uma espécie de mãe dele, mas como será também parceira sexual, exercerá um outro tipo de cobrança do parceiro. Exigirá dele que amadureça. A “mãe” que faz sexo com o “filho” não lhe é condescendente, pois ela quer o homem no menino, não o contrário.

Essa revolução será tão rápida que nós vamos vê-la acontecer em suas características principais, ainda que só ao final do século ela poderá realmente ter mudado o humor do mundo a ponto de gerar uma outra cultura – irreconhecível para nós.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 12/07/2018

Gravura:  Emmanuel Macron, e sua esposa Brigitte Trogneux,  20 anos mais velha que o marido.

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10 Responses “A civilização criada pelas mulheres mais velhas”

  1. LMC
    13/07/2018 at 12:51

    Pior é o homem que esmurra no
    peito dizendo ser macho,mas ele
    discute,grita e até se mata pelo
    futebol,onde só tem homens em
    campo.Ele é gay e não sabe-tipo
    eleitor do Boçalnaro.

    • 13/07/2018 at 13:35

      Realmente é difícil entender os seus comentários, sempre ligados à política partidária. É como se você não pudesse em momento algum sentir o perfume de um flor.

  2. Nina
    13/07/2018 at 01:06

    o que quis dizer na frase- mulher trabalhadeira ,q não se parece com a Patrícia Pillar?

    • 13/07/2018 at 09:30

      Mulher trabalhadora pobre, cujo trabalho marcou o corpo de um modo que, aos quarenta anos, não é a mesma que a Patrícia. Também essas mulheres começam a ter mais chance no mercado sexual.

  3. Guilherme Hajduk
    12/07/2018 at 19:52

    Eu li e realmente NÃO entendi, até hoje, o que quer dizer “Vais ter com as mulheres? Não esqueças o chicote!”. O filho-da-mãe do Nietzsche é muito dúbio e tem horas que não entendo 100% do que ele quis dizer — talvez ele até queira ser dúbio mesmo ou sei lá –, o que mais eu posso fazer? Justamente estou perguntando a opinião de quem eu confio e que estudou filosofia na escola, fez doutorado e tudo…

    • 12/07/2018 at 21:01

      Hajduk se fosse possível ensinar filosofia assim, com respostas curtas num blog, não haveria escola. Filosofia é algo da universidade. O papel da mulher na tipologia de Nietzsche está associada a ideia de “revolução dos escravos na moral”, um conceito utilizado para destronar a metafísica. Não se está falando da mulher empírica, tratada pela sociologia.

  4. Matheus
    12/07/2018 at 18:03

    Cuidado Paulo, ou a Fran te troca por um novinho… Hahaha

    • 12/07/2018 at 18:36

      Matheus você acabou confessando um desejo seu em relação a mim. E o pior, que o meu relacionamento, no fundo, sempre o incomodou. As palavras traem.

  5. Guilherme Hajduk
    12/07/2018 at 17:34

    Mas o homem não devia, segundo Nietzsche (Zaratustra), ser educado para a guerra e a mulher, para o descanso do guerreiro? Parece que tudo está se invertendo loucamente, não? E o que ele queria dizer, agora pela voz de uma velhinha: “Vais ter com as mulheres? Não esqueças o chicote!”?

    • 12/07/2018 at 18:37

      Hajduk que tal ler filosofia numa escola, numa faculdade, para não achar que frases de filósofos podem ser usadas ao léu?

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