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18/08/2019

A calcinha que protege a xoxota está chegando e causando!


ar-wear-anti-rape-underwearInventaram a calcinha antiestupro. Feita de tecido resistente, ela está para entrar no mercado americano. Talvez já exista no Brasil quem pretenda colocá-la no pé da árvore de Natal ainda este ano.

Talvez a calcinha antiestupro evite mesmo alguma moça de ser estuprada. Talvez em lugares de guerra e barbárie generalizada exista uma população ainda com dinheiro para compra-la! Todavia, a reação ao produto não deveria ser da forma plebiscitária. À medida que, sem qualquer reação reflexiva, fala-se “sim” ou “não” a cada novo produto no mercado, principalmente quando se trata desse tipo de coisa, mostramos que nossa evolução tanto intelectual quanto moral está comprometida.

A “mulher protegida sexualmente” no lugar da “mulher livre de violência” é que, filosófica e socialmente, traz um problema. Esse problema é simples de ser mapeado: pênis e vagina não são responsáveis por crimes. Que mentalidade esquisita é essa que agora vai tratar de crime como se fosse algo da ordem de partes do corpo?

O bípede-sem-penas possui mãos que acariciam, mas que podem estrangular. Mas nenhuma mão sozinha estrangula uma pessoa. O bípede-sem-penas possui boca que beija, mas que pode morder. Nunca vi uma boca solitária sair mordendo. O pênis é acusado de ereção voluntária e “vida própria”, e então nós modernos podemos fingir que não é um fetiche doido acusá-lo de crime?

A calcinha antiestupro tem na base de sua concepção um fetiche: os órgãos sexuais estão vivos por si mesmos. Além do fetiche, também sustenta essa criação a seguinte regra moral: um estupro não é uma violência contra a mulher, mas uma luta entre o pênis e a vagina e esta é derrotada. Nessa derrota, o estupro é uma desonra para nós homens se for com as nossas filhas, esposas, irmãs e mães. É isso e nada mais.

Violência contra a mulher se transforma em pugilismo entre partes pudendas e perda ou vitória de apostadores que, enfim, mantém a liga de lutas funcionando.

No século XXI recolocaremos o cinto de castidade na mulher. Que ela tome tapas, que receba cusparadas no rosto e, na pior das hipóteses um soco forte ou uma espetada ou tiro fatal – tudo isso é terrível e, no entanto, o que importa mesmo é que ninguém ejacule dentro da sua xoxota se ela for da nossa família.  Até arrisco acrescentar aqui uma frase a mais: se é da nossa família, a ejaculação e a violência são de nosso direito. Escrevo isso porque não posso deixar de lembrar que morrem 15 mulheres por dia no Brasil, vítimas de violência não raro doméstica.

Não estamos mais funcionando de modo inteligente quando pensamos segundo a regra de que, no limite, cede ao pensamento mágico. Talvez o excesso de filmes pornôs só com o close do ato sexual tenha sido tudo que os produtores dessa calcinha tenham visto até hoje. Então, eles cresceram imaginando que os órgãos sexuais são atualmente muito mais autônomos que aqueles de Adão e Eva no Paraíso, logo após o pecado original. Mas não são. O grau de autonomia continua o mesmo.

Órgãos sexuais, como quaisquer outros órgãos dos bípedes-sem-penas, continuam atuando não somente em conjunto com o corpo todo, mas somente a partir de uma unidade que não é corpo, mas é social e psicológica: o indivíduo. Cada um de nós continua sendo, do ponto de vista de nossas leis, “sujeito de direito”, portanto, indivíduo a quem se pode imputar responsabilidade pelos seus atos. Somos nós, enquanto indivíduos, que temos de nos entender como pessoas incapazes de cometer um mal contra uma mulher, e agirmos assim.

A feminista imbecil se une ao fascista-mirim quando falam em cortar pênis de estuprador, e ambos se unem aos que vierem a se encantar com a tal calcinha antiestupro. Nenhuma pessoa inteligente vai por essa via. Não podemos perder o foco sobre a violência, sobre sua gravidade enquanto fenômeno social que não é atenuado ou reduzido por medidas mágicas.

Nós temos melhorado quanto à inibição da violência, mas a duras penas, não com mágica.

Há filósofos que acreditam que não tivemos nunca nenhum progresso moral. Mas esses filósofos fugiram da aula de história. Talvez tenham fugido inclusive do curso de filosofia, se é que lá estiveram. A filosofia pode desconfiar da índole dos bípedes-sem-penas sempre, mas não pode dar uma de tola e não compreender que recentemente inventamos o capitalismo, o mercado, e que este suavizou todas as relações entre nós. Quando reclamamos da barbárie diária, o fazemos não mais comparando com situações pré-capitalistas, mas sempre com situação já nossas. Caso olhássemos de modo histórico veríamos que demos um salto moral enorme quando paramos de nos atacar em função de não macular relações de mercado, tornadas como vigentes e como o que é sagrado em nossa sociedade.

Ora, se demos um passo desses, grandioso, talvez possamos dar outros. Talvez possamos dar mais um salto social no sentido de fazer a velha ideia do autocontrole, embutida no “conhece-te a ti mesmo” délfico-socrático, ganhar novo vigor. Melhoramos pela vigência do capitalismo. Mas é tolice achar que o capitalismo, no grau de civilidade que ele nos forçou chegar, é o determinante do último grau de melhoramento moral que podemos alcançar. Podemos melhorar ainda muito dentro dele. Isso porque o mercado, igual a toda e qualquer divindade, pode nos pedir mais sacrifícios de autocontrole. Nem toda forma de autocontrole implica em desvios de energia insuportáveis. Nem nós falamos em sacrifício com horror. Além disso, podemos melhorar também, ainda mais, diante de formas de vida social novas, que sejam até mais interessantes que o próprio capitalismo.

Não há razão para acreditarmos que somos inteligentes na busca de uma sociedade sem violência só até o ponto de criarmos o cinto de castidade, que já foi criado nos tempos anteriores ao capitalismo.

Tenho certeza que podemos fazer mais que isso. Mas, para tal, temos de ser menos fetichistas.

***

Curso de filosofia contemporânea na Casa do Saber! Serão quatro quintas feiras sempre às 20 horas. Início dia 28 de novembro.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Publicou recentemente A nova filosofia da educação (Editora Manole, 2013) junto com Susana de Castro.

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One Response “A calcinha que protege a xoxota está chegando e causando!”

  1. Marcos
    11/11/2013 at 01:23

    O ladrão chupa-peito do ceará está pouco ligando para esta invenção.

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