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22/10/2017

A Bíblia e o desafio para a aptidão filosófica


Deus disse ao homem, no Jardim do Éden, que ele poderia comer de todas as árvores dali, mas que não podia comer da “árvore do conhecimento do bem e do mal”, “porque no dia em que dela comer, com certeza você morrerá”.

É claro que ao decretar uma tal sentença, Deus mostra ter criado o homem em situação de liberdade, mas não em situação de sabedoria, e sim ou de ingenuidade ou de “Além do Homem” nietzschiano. Um homem que não sabe o que é o bem e o mal é um ingênuo, talvez um tolo. Um homem que não sabe o que é o bem e o mal, que não faz avaliações com conhecimento, talvez não seja um tolo, e sim o Übermensch de Nietzsche. Sendo assim, como foi criado, o homem dificilmente é alguém que podemos saber quem é. Não temos ideia do que seria alguém capaz de saber, em um nível humano e não animal, ou seja, saber coisas e não saber o bem e o mal.

Mas podemos imaginar alguém assim? Tudo que me vem à cabeça é o Pitoko como Adão. Mantemos um Pitoko em uma redoma de vidro. Ele não pode saber o que é o mal e, então, ele realmente não sabe o que é o bem. Ele vive no bem. Ele faz o bem. Mas ele não sabe nada disso. Ele se aproxima de saber, mas não sabe. Ele sente temeridade, no máximo, não sente o mal. Não o conhece. Não arrisco nada sobre o Übermensch. Melhor fica com o Pitoko. Adão era um Pitoko falante.

Mas o Eden tinha outros bichos falantes. A serpente era um bicho falante e com um saber um pouco maior que o de Adão. Ela tinha alguma noção do conhecimento do bem e do mal. Sabia que a árvore, para quem a comesse, dava o “discernimento do bem e do mal”. E isso, segundo ela, era a própria condição de Deus. Ela mesma disse isso para Eva.

Adão era ingênuo como o Pitoko, enquanto que, ao menos segundo informação da Serpente, Deus era conhecedor do bem e do mal. Por sua vez, ela própria, Serpente, não sabemos se sabia o que era o bem e o mal, pois pode ter dito o que disse apenas como repetição do que escutou de Deus e, então, presumiu que ter esse discernimento seria alguma coisa que fazia Deus ser Deus. Presumia também que Deus não queria nenhum outro Deus. E nisso a Serpente estava realmente certa. O Deus dos judeus, sabemos bem, lutou muito para ser tornar um Deus único. Aliás, deu a Moisés os Mandamentos, e exigiu que o povo escolhido o amasse como seu único Deus. Ficou conhecido, aliás, como o Deus ciumento.

Todavia, nessa história toda, há uma situação complicada, que é a pena que Deus oferece a Adão caso ele coma da árvore proibida. É a própria questão da proibição. Quando proíbo Pitoko de algo que pode lhe prejudicar, a última coisa que lhe digo é “você morrerá”. Isso não faz nenhum sentido para ele. E se faz, não é nenhum mal, pois antes de tudo ele ainda não sabe distinguir o bem do mal e, portanto, não tem razão nenhuma para temer a desobediência. Deve obedecer unicamente como quem obedece por obedecer, sem questionamento. Pitoko faz isso? Faz! Mas, de vez em quando, ele descumpre a regra e olha para mim com vergonha, mas ainda assim, sem discernimento do bem e do mal, mas apenas tendo um certo saber do tipo: “ele vai ralhar comigo e, ao final, vai me abraçar”. E é isso que ocorre. Isso não faz do Pitoko um cão sem vergonha. Ele continha tentando me obedecer, e rompe com tal regra de vez em quando.

Não posso castigá-lo com a morte ou com o trabalho, como Deus fez ao homem. Eu não seria digno de mim mesmo, e nisso, como pai do Pitoko, acredito-me melhor que Deus como criador do homem. Mas sou melhor? Calma! Sou pai, não criador. Eis aí o detalhe: há algo na criação de Deus que fez do homem, ao menos antes da Queda, naquele que era capaz de saber coisas em um grau elevado, a ponto de conversar com Deus e, no entanto, não saber sobre o bem e o mal. Por mais que nos esforcemos, não conseguimos vislumbrar do que se trata ser como Adão. E isso porque somos herdeiros dele, ou seja, somos seres maculados pelo conhecimento do bem e do mal. Mas não somos deuses. A serpente realmente enganou Eva.

Na mitologia judaico-cristã, como está em nossa Bíblia, há essa terrível incógnita da condição de Adão: ele é tudo que somos menos numa coisa, ele não distingue o bem e o mal, portanto, não comeu do fruto da árvore do conhecimento por maldade, mas por desobediência. E ele não sabia que desobediência era algo mal. Adão foi punido por desobediência, sem que esta palavra estivesse ligada ao mal. É possível isso? É possível Adão não saber o que é o mal e, então, não fazê-lo. Em outras palavras: temos a condição de vir a entender a noção de desobediência sem que uma tal noção implique sabermos algo sobre o mal e o bem?

Caso tenhamos essa condição, então de fato fomos criados livres. Caso contrário, nunca fomos livres. Tínhamos de obedecer por obedecer, sem saber nada sobre mal e bem, pois não havíamos ainda comido da árvore do conhecimento do bem e o do mal. A reflexão do Gênesis nos coloca, portanto, em uma situação enigma filosófico fundamental. Aliás, um enigma também semântico, epistemológico e psicológico: temos a noção forte de desobediência sem que possamos liga-la a algo mal? A noção de desobediência garante o seu entendimento e, portanto, a não quebra da obediência, mesmo que não tenhamos noção dela como algo mal?

Essa é uma das questões mais duras do Gênesis. Uma questão filosófica desafiante. A Bíblia continua sendo um dos livros de filosofia dos mais geniais. Não é para qualquer um. Por isso mesmo, durante anos, a Bíblia não era para ser leitura de qualquer um, só de iniciados. Ela continha e contém coisas que não são para os incultos e não inteligentes.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

PS: Esse texto problematiza algo dado como certo no início do ensaio de Rüdge Safranski sobre O mal.

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14 Responses “A Bíblia e o desafio para a aptidão filosófica”

  1. Thiago Carvalho
    14/07/2016 at 14:35

    Oh! profundo.

  2. Acrizio
    07/12/2015 at 17:56

    Talvez co conhecimento do bem e do mal seja algo referente à amplitude do conhecimento; ou seja, o homem passaria a conhecer mais coisas que eram más. Adão tinha certa noção (ainda que limitada) sobre o que era o mal (mesmo talvez não sabendo sua profundidade). Ele sabia que a desobediência traria não somente uma consequência engativa (mesmo ele não tendo noção plena de que era a morte), mas também seria algo feito contra Deus. Se tudo o que Deus criou era bom, por ser correspondente à sua vontade, logo, fazer algo que não correspondia à vontade divina seria o contrário, seria como conhecemos de maneira mais abrangente, algo mal.

  3. 07/12/2015 at 15:27

    Professor, conhece as obras de CS Lewis? Em todas as obras ele fala sobre as questões morais, mas especificamente na obra “O problema do Sofrimento”, ele faz uma reflexão espetacular sobre o surgimento da moral e o Gênesis, tem um viés de reflexão diferente do foco em que o senhor abordou, mas com certeza complementa. Se for do interesse do senhor o livro se encontra em pdf:
    https://sumateologica.files.wordpress.com/2009/07/c-s-lewis-o-problema-do-sofrimento.pdf

    • 08/12/2015 at 10:50

      Sim Tourinho, conheço e gosto muito. Ele tem um livro clássico sobre o amor que usei. Obrigado.

  4. Mateus dos Santos
    09/11/2015 at 14:16

    O mal é causado pela maneira como exercemos o nosso livre-arbítrio!

  5. Mateus dos Santos
    07/11/2015 at 22:24

    O mal seria algo que causaria a morte? ou a morte não se configura como algo mal?, logo a desobediência poderia levar esse indivíduo a morte e por isso entende-se como algo ruim, ou o mal seria um caminho que leva a morte? Bom, eu não sei, mas gostei muito do texto.

  6. Carlos Bengio Neto
    03/11/2015 at 22:22

    Genesis 2

    “17- mas da árvore da ciência do bem e do mal, dela não comerás; porque, no dia em que dela comeres, certamente morrerás.”

    Genesis 3

    “3 mas, do fruto da árvore que está no meio do jardim, disse Deus Não comereis dele, nem nele tocareis, para que não morrais.”

    No capitulo 2 observamos a primeira interdição ou Lei ” não comerás” seguido da sentença correspondente; A morte. Agora no Capitulo três, note que Eva repete a interdição e acrescenta uma espécie de “lei” (com “l” minusculo) “nem nele tocareis”.. Curioso é que não há proibição de se tocar o fruto, Eva parece que criar uma regra a mais, talvez a primeira produção psíquica dela. Por quê?

    • 03/11/2015 at 23:28

      Carlos, quando as coisas vão para esse plano de detalhes, eu não tenho como opinar. Não sou estudioso do texto bíblico. Meu texto é filosófico, não hermenêutico no sentido dos estudos históricos. Servi-me daquilo que é o mais disponível, para colocar uma dúvida no texto do Safranski.

    • 04/11/2015 at 19:21

      permita-me o pitaco, professor, visto que eu estudei algo sobre este texto sagrado.
      vamos pular toda a parte que este é apenas um de muitos textos sagrados, uma obra humana [portanto falível], cujo compendio demandou diversas interpolações, fraudes, péssimas traduções, autenticidade/originalidade questionáveis, etc.
      vamos ao texto em si, alegadamente de autoria de Moisés, parte do Antigo Testamento, sendo a Torah seu original. quando a suposta liberdade de Adão encontra a proibição de não comer da árvore do conhecimento, tem-se então que Adão não era inteiramente livre. outro ponto interessante é que então Deus é contra que o homem adquira o conhecimento. uma passagem igualmente curiosa é quando Deus, apesar de ser onisciente e onipresente, não viu a presença da serpente, não viu a tentação, não impediu a consumação do fruto e não consegui achar seu casal primordial após os fatos. se isto é suficientemente perturbador, interessante é ressaltar que, apesar de terem comido do “fruto proibido”, Adão e Eva não morreram, como a serpente havia dito, ao contrário do que Deus afirmou. então podemos afirmar que a serpente foi mais sincera do que Deus, ou que este mito esconde um mistério cuja compreensão está acessível apenas a poucos iluminados.

    • 04/11/2015 at 20:09

      Roberto não acho que esse tipo de análise vale. Não se deve pegar “contradições” em poemas. Se Deus não viu a serpente ou não é coisa que se observe.

    • 07/12/2015 at 15:15

      Vc é a prova viva de que o professor Ghiraldelli está certo, o estudo teológico da bíblia não é para não iniciados e claramente vc não é um. Procure se informar mais sobre o mito do Gênesis com biblicistas, não em sites de ceticismo.net. Abraços!

  7. Maximiliano Paim
    03/11/2015 at 21:24

    A desobediência está ligada a possibilidade de punição, que é um mal a ser sofrido, mas me parece que não fica mesmo claro se a desobediência é um mal em si. Me ocorreu isso refletindo agora.

    • 03/11/2015 at 23:30

      O Safranski diz que é preciso saber o que é mal para reconhecer o mal, e então ele não reconheceria a minha dúvida, pois ele já toma a desobediência com um mal.

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