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15/12/2017

A arte de perder amigos


Conheço pouca gente que se dedica à arte de perder amizades. Uma dessas pessoas eu até conheço de um modo particular, sou eu mesmo. Todavia, tenho que ser sincero comigo mesmo. Apesar de me dedicar a uma tal arte, consegui pouco dela. Perdi muitos “achegados”, mas amigos mesmo, eu creio que pouquíssimos. Eram parecidos com amigos, mas, tão logo chacoalhei meu corpo após o banho, no estilo do Pitoko, as últimas pulgas, já meio mortas, foram lançadas longe. Eram os tais amigos que souberam dar valor zero à minha amizade.

Há uma confusão tremenda entre amizade moderna e antiga. A moderna depende de encontros entre indivíduos, é contratual, segue o modelo do jusnaturalismo, a antiga é apenas o que Aristóteles disse: “o amigo é um outro eu”. Ou seja, no registro antigo não há compartilhamento de ideias, há com-sentir de tudo (Agamben). Sendo um outro eu, sente o mesmo do amigo. Possui a mesma sensibilidade. Por isso, não dá ordens, não critica, não interfere. Pois a todo o momento, está em tamanha sintonia com o amigo, que se lhe passa pela cabeça divergir, não lhe cabe no coração tal divergência.

Os modernos possuem uma enorme dificuldade de entender a amizade nesse sentido antigo, que envolve a sensibilidade mútua vivida e não compactuada. Aliás, se enroscam no casamento exatamente por causa disso: esperam um amigo no sentido antigo, mas fazem tudo do pacto ensinado pelos modernos. Explico.

Quando um homem livre grego encontrava um outro homem livre grego feito escravo, fora da Grécia, logo o comprava para libertá-lo em seguida. Essa era a base da amizade grega, da philia. Disse a base, não tudo. Mas a base era quase tudo. Não havia pacto, contrato ou convenção. Havia um ethos comum. Esse ethos dizia a cada um: tu és grego e assim é livre. É o que esperamos no casamento. Queremos que o cônjuge sempre esteja reconhecendo nossos dramas e, no aperto, antes nos liberte e nos acolha por conta da sensibilidade comum. Mas os modernos tratam tudo com o modelo do “contrato social”, onde indivíduos sem sensibilidade comum e sem ressonância de coração formam um pacto. Não dá certo. Kant fez do casamento um contrato. E foi nessa parte que seu sistema mais apresentou problemas que, enfim, poderiam ser vistos, como de fato foram – Hegel à frente –, como fatais em outros pontos do seu sistema.

Em outras palavras: não existe professor de amizade embora exista amizade aprendida, e a filosofia é dessa segunda via. Ela é philo + sofia, ou seja, amizade ao saber que envolve filiação ao saber à medida que há filiação aos sábios. Forma-se aí uma confraria. Pensamentos os mais diversos se põem sob uma sensibilidade completamente comum. Os modernos precisam de sensibilidades que se atracam para garantir que estão vivendo a lei da liberdade de expressão, a de lei de respeito às divergências de ideias. Os modernos falam de democracia liberal – que pressupõe o individualismo completo, não a simbiose de sentimentos –, enquanto os antigos falavam somente de democracia, uma forma de expressar divergências a partir do com-sentimento sem qualquer contrato.

Quando Platão foi preso e vendido como escravo, e segundo o epicurista Diógenes Laércio, foi um homem de Cirene (um cirenaico?) que o comprou para libertá-lo e reconduzi-lo à Atenas. Um ethos comum resolveu tudo. Uma base para a sensibilidade comum que poderia dar na amizade comum. Isso salvou Platão. Nós modernos não pensamos o outro como um eu, diferentemente, pensamos no outro como um outro que, se for leal, não é amigo, é cúmplice, parceiro, subalterno e coisas assim. Ora, mas é dos amigos antigos serem leais. E nós modernos cobramos do cônjuge essa lealdade da amizade antiga, a da sensibilidade comum. É assim que queremos ter amigos – ao menos alguns de nós. É assim que crivamos amizades e casamentos. É um critério inadequado, pois fora de época, mas é sempre assim que boa parte de nós faz. Como faço isso de modo assíduo, cultivo a arte de perder amigos que, enfim, por tais critérios, não eram amigos.

A confraria está no horizonte do retrovisor da amizade. Queremos dirigir sem olhar nele, e isso é coisa de mal motorista.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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3 Responses “A arte de perder amigos”

  1. Ismael
    19/02/2016 at 03:33

    Essa Amizade consensual, perdoe-me, lembra a amizade da infância e da adolescência que na minha memória, e no sentir, era assim.

    • 19/02/2016 at 07:52

      Ismael, ão é consensual e de com-sentimento. É diferente. A primeira implica na subjetividade moderna de tipo liberal.

  2. G. De Jesus
    18/02/2016 at 11:03

    Excelente, eu tenho este comichão também, quase que involuntariamente, é coisa de filósofo por natureza (mesmo que seja a natureza de botequim, como no meu caso). No fim sobram aqueles livres de convicções.
    Lembro de ver o Mário Sérgio Cortella comentar que todas as vezes que encontra velhos conhecidos eles dizem: ‘nossa como você mudou’?! E isso soa como como um tremendo elogio…

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