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22/01/2019

A arte de pegar e usar mulheres


Manoel Lucas Marthos descobriu o meu segredo. Claro, segredo de Polichinelo, mas segredo. Qual? Trabalho antes com a figura da mulher que com a do homem: figuras de mulheres seminuas associadas a frases, expressões sobre mulheres e de mulheres, mulheres filósofas e mulheres comuns, putas e escritoras, mulheres que não existem e mulheres que finjo que existem e mulheres que fingem na minha frente que não existem. Enfermeiras, bruxas, fadas, professoras, raposas e até moças católicas e as evangélicas nada moças. Por quê?

Marthos diz que é porque a mulher é sempre mais policiada e se insere na ordem do dever. Não no dever que é colocado por ela mesma, mas posto por ela e por todo mundo. É o símbolo máximo do obedecer. As mulheres obedecem até quando se rebelam. Afinal, não é o feminismo uma expressão disso? Eu trabalharia com o que obedece exatamente para que todos os obedientes consigam alguma desobediência em favor da autonomia inteligente.

É isso? Sim! Marthos descobriu que minhas mensagens vão sob o invólucro do feminino porque com isso aprofundo, quase que de modo concretista, os aforismos e textos que buscam desbanalizar o banal. O que ele não viu ou não lembrou é que há outro filósofo na história que fez algo parecido. Meu mestre Sócrates.

Sócrates emergiu como filósofo em uma sociedade tão masculina que até mesmo o amor erótico, que em outras sociedades não exclui as mulheres, se fez como algo exclusivo de uma relação entre homens ou, então, de homens com mulheres portadoras de virtudes masculinas. No entanto, Sócrates jamais falou ser aprendiz direto senão de mulheres.

Comparou um de seus procedimentos ao que sua mãe fazia: ela paria crianças, ele paria ideias – a maiêutica. Disse ter aprendido a dialética, ou seja, o procedimento que identificamos como o elenkhós (o método da refutação), com Aspásia, a filósofa estrangeira e esposa do governante Péricles. Ao falar de como se tornou um mestre da “erotika”, que é arte de conversar, namorar, dialogar e seduzir e amar, ele indicou a “sábia da Mantineia”, Diotima. Mesmo Xantipa não ficou sem função. Sem ela, ou melhor, sem seu gênio terrível dentro de casa, como disse Nietzsche, Sócrates teria saído pouco com os amigos e a filosofia teria perdido muito ou tudo nas reflexões que nutriram Platão.

Uma das explicações que tenho para esse comportamento de Sócrates, de nunca ter citado nenhum homem como o seu instrutor e, portanto, nunca ter sido educado para a filosofia pelos métodos costumeiros, tem a ver com o que foi o seu desejo, ou o de Platão, de mostrar que a filosofia não dependia de nada antes dele. A filosofia começava ali, com ele, por isso não podia ser feita de outra maneira senão com o que era o inusitado: a mulher.

Sócrates fez da mulher, ou seja, do inusitado, do alheio ao costumeiro e banal, o ponto de início da filosofia própria. De modo meio que instintivo eu vi que pegar a mulher seria o melhor que eu tinha a fazer se quisesse não tornar banal a arte de desbanalizar o banal, o meu modo de filosofar. Assim tem sido, e pelos últimos acontecimentos, tenho visto que estou no caminho certo. Há teses que não se mostrariam de modo algum se não fosse eu ter escolhido a mulher para banco de prova. Não é verdade?

© 2014 Paulo Ghiraldelli

Quadro: Sokrates besucht Aspasia – Nicolas André Monsiau (1754 – 1837)

 

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9 Responses “A arte de pegar e usar mulheres”

  1. Manoel lucas marthos
    20/01/2014 at 10:30

    Tem um outro texto meu, que fiz logo em seguida ao segredo de polichinelo…Chama-se Eu-corpo, bússolas e o distribuidor de cantis.E esse cantil é uma referência a Sócrates. Um cantil, subdividido, com água e vinho..Quanto ao distribuidor de cantis, é uma referencia a vc Ghiraldelli.
    Aqui vai a parte final do texto…
    (…)Ele aparece com cantis e começa a distribuí-los. Ele próprio tem seu próprio cantil. Esse cantil é muito interessante. Ele possui uma divisão interna, dois compartimentos. Um compartimento para água e outro para vinho. Quando você precisa estar lúcido e ligado no mundo você bebe a água, quando você precisa se desligar desse mundo sensível, dos sentidos, você bebe o vinho, embriaga-se e cria. Embriagado, dá até para ver as sombras que Pondé insiste em não ver. Esse movimento de percepção e criação entra num jogo diferente. De repente o Eu-corpo volta a pulsar livremente, em vez de uma bússola mestre, você volta a olhar para as estrelas, para a lua e para seu vizinho ou vizinha com tesão, um tesão especial, em vez de usar um carro 1.0, você começa a andar com suas próprias pernas, até pede carona quando necessário. Ganhando assim autonomia e independência.
    O Eu-corpo agora com cantil, água e vinho! Sócrates iria adorar. Platão… Ficaria indeciso. Nossa! Platão indeciso? Nietzsche daria tesudas gargalhadas. Kant diria ‘eu ajudei’, mas sabe meio enciumado. Sartre sem ciúmes diria, sempre há mais de uma escolha, olhando pra Simone B. Hegel diria! Putz! Eureka! Será que ainda dá tempo de mudar de ideia? O Marx com cara de quem comeu, mastigou devagar para sentir bem o gosto, mas insistindo em dizer que não gostou, não fala nada. Rorty no céu, satisfeito em ter passado pela Terra abençoa o distribuidor de cantis. Maquiavel diria que tem dedo dele afinal queria a unificação dos principados naquilo que chamamos de Itália, ainda que demorasse mais uns quatrocentos anos. É lá que tem os tais chocolates de mesmo sobrenome do cara distribuidor de cantis. O cara das regras do método diria: Opa! To na parada! Vou dançar Funk carioca. Sade diria: finalmente estou realizado! Parece que todos esses caras concordam com esse distribuidor de cantis.(…)

    • 20/01/2014 at 11:34

      Manoel, eu havia lido este. Talvez eu seja um distribuidor de cantis. Mas eu deveria abrir mais um compartimento, com Grappa. Obrigado Manoel, gostaria de ter mais leitores e amigos como você. Mas tendo você, já me dou por agraciado.

  2. Ricardo
    12/01/2014 at 17:45

    Qual sua opinião sobre a postagem que fizeram através da sua conta no facebook que uma mulher devia ser estuprada e depois abraçar um tamanduá?

    • 12/01/2014 at 19:10

      Como disse, Ricardo, o Ibama no momento não está dando autorização para que os tamanduás saiam por aí atuando por conta própria. Caso você precise do tamanduá, terá de esperar.

  3. Rick
    09/01/2014 at 15:38

    Pérola da Rachel Sheherazade tentando argumentar contra quem defende cota pra mulher no legislativo 1h17min:
    “mas mulher nunca foi minoria, sempre foi maioria” kkk

    http://www.youtube.com/watch?v=O9FaiL0xS8g

    • Joan
      11/01/2014 at 09:51

      E é pérola por que motivo? Nós somos maioria mesmo no Brasil e até entre eleitores. Não precisamos de cota nenhuma, somos capazes de conseguir o que quisermos. Se uma mulher não se interessa em conseguir nada melhor, não fez por merecer.
      Deviam lutar pela igualdade salarial, pois está é a verdadeira injustiça contra a mulher no Brasil. Estudamos mais e ganhamos menos, exercendo a mesma função.

    • 11/01/2014 at 12:58

      Mulheres são minoria sociológica. As pessoas desescolarizadas não entendem isso. Mas é fácil entender. Minoria é sempre um conceito sociológico é com este conceito que o IBGE trabalha, o conceito numérico, estatístico, não caracteriza “minoria” e “maioria”. O conceito sociológico envolve dominância, costumes, hegemonia de práticas morais etc. Entendeu agora?

  4. Helô
    09/01/2014 at 11:16

    Sem nós, vocês homens já teriam se matado. Não é sem motivos que a sabedoria era representada por uma deusa. Somos uma fonte inesgotável de boas inspirações. ; )

    • 09/01/2014 at 20:01

      Helô, não é esse o caso de Sócrates ou o meu. Sócrates pegou pelo inusitado, eu peguei pelo quanto de inusitado se pode falar de mulheres e com mulheres. Mas, nos dois casos, não há o que se vangloriar, entende?

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