Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

29/05/2017

A arquitetura do corpo utópico


Encontro-me por inteiro, no mais que posso, onde não estou. Lá onde não estou, posso ver-me. Foucault nota bem isso em seu texto “O corpo utópico”.

A utopia é o lugar que não se realiza em lugar algum. Mas ainda assim, é um lugar. O corpo utópico de Foucault tem, entre várias acepções, esta: lá está o corpo que não é apenas pedaço. Finalmente posso vê-lo senão totalmente, ao menos como alguma coisa completa, como corpo. Lá no fundo do espelho, que certamente um não-local, mas um lugar virtual, é justamente onde não estou, mas onde finalmente eu me vejo. Miro aquela utopia.

Sou um eu, portanto, como utopia. Ao menos quando quero falar no eu como unidade, tenho de considerar a figura no espelho. Aquilo que não tem nenhuma vida, só movimento, é a utopia. O corpo utópico; só me vejo se apelo para essa utopia. Preciso do que não é eu para servir de manequim que lá, no espelho, sou aquele eu que me é dado. Sem a figura que habita a utopia, o virtual, não tenho qualquer ideia de mim enquanto eu e meu corpo, o seja, eu. A utopia corporal, o corpo utópico, é o que me cede não o que sou, mas o como apareço e, enfim, meu corpo. Se em vários momentos do dia sou comportamental e, portanto, sou o que meu corpo mostra e faz em seu meio, então a imagem minha diz muito. Em vários momentos é só ela que é um eu. E nisso, o corpo utópico, no espelho, tem lá sua verdade.

Na análise da habitação que nos acolhe no nosso trajeto de individualização, que é o trajeto moderno, Sloterdijk aborda o apartamento. Em especial, fala do apartamento dos solteiros – alguma coisa que aumentou muito após os Sixties. No volume III de sua esferologia, ele nota o quanto o espelho se tornou presente nos apartamentos como que cumprindo a função da companhia que falta, corrigindo seu habitante constantemente. Permanecemos “em sociedade” em nosso apartamento, na recomposição corporal que o espelho nos ordena.

Se pensarmos o que ensina Foucault com o que ensina Sloterdijk, temos então o fenômeno da utopia do corpo, a utopia do individualismo, trazida como uma espécie de Big Brother (não o programa, claro). O espelho põe nossa utopia corretora em nosso pequeno e autônomo habitat. Em todos os instantes que estou em meu diminuto habitat reparo-me e acerto-me consultando minha utopia. O corpo utópico se muda para meu habitat e, estando eu sozinho, permito-me a ajustes contínuos e constantes a todo momento. Ao contrário do que se pode imaginar em um primeiro momento, então, o apartamento solitário não me põe vagando nu, mas me coloca em roupas ou então vestido de meu próprio corpo, que é modelado, moldado, refeito nas recomposições que as paredes do habitat, todas espelhadas, ordenam. As pessoas consideradas mais desleixadas vivem assim tanto quanto as mais vaidosas. Isso é tão verdade que, saindo dos apartamentos e entrando em shoppings, todos se olham na busca de espelhos, que são infindáveis, mas mesmo assim todos vão ao banheiro para novamente se olharem em uma situação que lembre a situação caseira. Pode-se falar aí em egocentrismo, vaidade, narcisismo moderno. Tudo isso é secundário. Caso não tivéssemos a esfera no qual o corpo utópico imperasse, todas esses adjetivos não significariam nada. Pouco ou nada saberíamos deles. E, de fato, eles são só sintomas, só palavras.

Há uma celebração do corpo utópico na modernidade. Digamos assim, um resultado a mais do que a modernidade, com o liberalismo e, portanto, com a cunhagem máxima da formulação da vida individual, preconizou. Considerando isso, podemos colocar mais hipóteses de trabalho na conversa sobre o fim da nudez na revista Playboy ou nos calendários da Pirelli, que é o que tem sido anunciado.

Em um texto anterior, falei de um resto de preservação da possibilidade de busca metafísica, o que implicaria na volta da não nudez completa. Aqui, preconizo as possibilidades concretas, quase que no âmbito da filosofia social, da sociologia, que da filosofia metafísica na sua história. Ou seja, falo aqui de como que estamos bem preparados, em comportamento, para aceitarmos o corpo vestido como atrativo também de buscas íntimas. Fotos de mulheres não mais despidas, mas em um ritmo de recomposição, de possibilidades com roupas e acessórios, com ornamentos caseiros, mostram um universo que, hoje, é o universo de nossa intimidade. Nossos apartamentos são assim: lugares de encontros com o corpo utópico em aparente solidão, em aparente privacidade ou o que é a privacidade atual, tudo isso mostrado a nós mesmos, como habitantes modernos, continuamente por drones com câmeras – os espelhos – que estão em todos os lugares. Mas que são nossos lugares íntimos de antemão, os apartamentos.

Quando os parques americanos instauraram as “casas de espelho”, era menos a deformação e mais o jogo de espelhos que atrai as pessoas, que desejavam pegar-se por todos os ângulos que interessavam. Ali morava o projeto arquitetônico liberal moderno que iria se instaurar logo depois como projeto de moradia. Não nos damos conta, mas nos ajeitamos corporalmente a toda hora, em nosso habitat, e transferimos esse comportamento para outros lugares, diante do oferecimento de nós mesmos onde não estamos, nos espelhos da vida. Mas, no apartamento single, isso é uma prática, um exercitar, um exercício e um tipo existência em que a geografia ganha respingos de história. O corpo se mostra numa geografia virtual e nela é apresentado sob a história, sob as marcas do tempo. Recomposição contínua de postura, traços, olhares, “cara e bocas”, roupas, viradas, gestos. Tudo é dado pelo corpo utópico a cada pequeno recinto do apartamento single. Já não sabemos mais se podemos ser um eu sem esse corpo utópico. Aliás, no apartamento single, temos até a impressão de não nos vermos onde não estamos, mas, devido à proximidade, achar mesmo que estamos no espelho, lá no seu interior e que o corpo utópico já fez tudo que queria, já unificou figura e realidade. É como se o corpo utópico e o eu se fundissem.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

Na figura: Theo Van Rysselberghe “Mulher no espelho”

1907-rysselberghe-woman-at-a-mirror

Tags: , , , , , , , , , , , , ,

8 Responses “A arquitetura do corpo utópico”

  1. Matheus
    04/11/2015 at 17:04

    Paulo, depois de me deparar com o seu texto sobre uma interpretação Sloterdijkiana (eita palavrão rsrs) do conto da Brance a de neve, mais especialmente da madrasta voltei aqui pra te por uma questão que acho no mínimo pertinente, esse espelho que nós olhamos, mas que por sua vez, agora nos olha, não poderia ser reificante/reificador?

  2. 23/10/2015 at 21:56

    professor, aqui caberia o termo “máquinas desejantes” [Guattari/Deleuse]?

  3. Fabiano Nach
    20/10/2015 at 15:15

    Bom texto.
    Que tal escrever um texto sobre a afirmação do corpo em detrimento da transcendência sob a luz do hedonismo?

    • 20/10/2015 at 15:55

      Já fiz dezenas de artigos e dois livros sobre o corpo. Dá uma olhada Fabiano.

  4. Magaiver Buzato
    19/10/2015 at 18:27

    Ótimo texto Prof.
    Estou ancioso para o próximo Hora da Coruja!

  5. 19/10/2015 at 18:06

    Muito bom também!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo