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09/12/2019

A alma de Zé Dirceu, a mente de Lula e o espírito do PT


Zé Dirceu está preso. Lula quer “reflexão profunda” no partido. Enquanto que artistas (alguns, e não tantos quanto se dá a entender nas manchetes da imprensa) falam coisas amenas sobre o Zé, a cúpula do partido, desta vez, está silenciosa. O motivo apontado pela Folha, e do qual tenho apenas uma segunda fonte (minha própria, e bem do interior do PT) para dizer que procede, é que o partido resolveu não se manifestar desta vez porque Zé teve “benefício próprio” no esquema da Lava Jato.

Até aqui, jornalismo. Daqui para baixo, filosofia.

Sendo verdadeira a afirmação de que o silêncio do PT se deve, agora, ao fato de Zé ter pegado dinheiro para ele mesmo e não para o partido no esquema denunciado pela Lava Jato, enquanto que no “Mensalão” o dinheiro não o beneficiou diretamente, então minha tese de artigos anteriores recentes e de outros do passado tem um ponto a favor. Talvez até se confirme. Minha tese tem um lado que envolve questões jurídicas e outro que envolve interpretação do marxismo que, enfim, de um modo geral e diluído, é a dita base de formação do PT.

A questão jurídica é a seguinte: se o PT apoiar qualquer beneficiado da Lava Jato, agora realmente as coisas se complicam legalmente não só para o partido, mas para o governo Dilma. Uma palavrinha em falso e realmente a ideia do Impeachment pode se transformar em pesadelo real e não apenas histeria de uma direita que, enfim, ladra mas não morde. Aliás, nem pode ser chamada de golpista, pois não tem força para dar golpe algum e muito menos acerto com militares etc. Não estamos em 1964, não há Castelo Branco e muito menos Carlos Lacerda – há imitações baratas somente.

A questão mais propriamente filosófica, e isso é que me interessa (embora o leitor viciado em política de jornal nunca entenda, pois o jornal emburrece), é o modo que vinga a pior leitura do marxismo. Diga-se de passagem: uma leitura que tem muito pouco a ver com Marx, e sim com disposições da tradição da filosofia política “realista”, instituída por partes da obra de Maquiavel e de Hobbes, e por uma filosofia da história antes de Comte que de Hegel ou Marx. Aliás, é sempre bom lembrar: a formação de militantes de esquerda (e talvez em geral) nunca se dá pelo que eles leem de um autor clássico, mas em geral pelo que desconhecem e não leem, e que permanece “no ar”, por hegemonia da doutrina vigente ou da concepção de mundo dominante, da qual querem se desvencilhar. No caso do “mensalão” e da “Lava Jato” a militância do PT trabalha da seguinte maneira, no plano teórico: a política burguesa ou a política democrática é mais que ideológica, ela é corrupta por natureza; e entrar nela é entrar na lama e tratar como produtos da lama os que estão nela enraízados; de modo que tal tratamento sirva para derrotar os partidos burgueses competidores e a própria instituição dessa política, saltando para fora dela e instituindo então os rumos do futuro preparados pela história, a vida social guiada por uma nova política. No caso de Lênin, uma política sem política, meramente administrativa, deveria ser o futuro. Ele dizia: o congresso na nova política deve funcionar com a presteza dos Correios.

Desse modo, qualquer corrupção, uma vez levada adiante pelo elemento do partido, e com benefícios para o partido, não só é perdoada, mas em princípio sacrossanta. O que é, então, o benefício “pessoal” condenável? Ah, sim, se o dinheiro acaba servindo a alguém no partido sem que seu destino venha a ser revertido para a campanha do próprio agente corruptor ou corrupto e seus companheiros, então é benefício condenável. Por exemplo: na Lava Jato, é claro, Zé Dirceu teria começado a tirar “a sua própria parte” da renda vinda da corrupção. Claro! Por que não faria isso, já que não era mais deputado ou ministro? Não teria ele que ter dinheiro para se proteger e tentar, então, voltar a fazer política, talvez como deputado? Os mais próximos de Zé Dirceu podem até confessar que ele está certo, que fariam o mesmo. Que pegariam dinheiro para o revés da vida, pois alguém de esquerda, uma vez em desgraça, teria de ter como fugir ou se proteger. Mas o partido, nessa hora, não pode e jamais deve agir assim. A ética do PT é indissolúvel, e se resume nisso: o roubo em benefício de se manter no poder é não só legítimo, mas é o que “o povo” deseja que o PT faça, para que possa então beneficiar esse mesmo “povo” e “realizar a história em seu destino”, e esse destino é o “o povo no poder”, ou seja, o PT no poder para sempre.

Os problemas em filosofia política que surgem dessa visão são inúmeros. Há o de legitimidade e há o de construção histórica. Primeiro: posso inventar uma legitimidade inexistente para dizer que o roubo é o que “o povo” quer que o partido faça. E é claro que isso é o que ocorre em muitos discursos do PT e em pensamentos de velhos bolcheviques do partido. Segundo: posso cair na ideia barata e pouco inteligente de achar que uma sociedade futura nasce ética mesmo que seu caminho tenha sido a falta total de princípios básicos de honestidade.

Há mais coisa a se dizer, claro. Mas não cabe aqui. O que cabe, para finalizar, é lembrar que Lula não tem nada a ver com “leituras”, que tudo que falei vale para a cúpula do PT, os bolcheviques que ficaram, e que são mais ou menos todos da mesma escola, hoje em dia. Lula aprendeu política no sindicalismo e, depois, viu que uma tal política só o havia ensinado a fazer greve e dizer “não”, e que isso não bastava, que era necessário olhar os líderes do país. Ele re-escolheu então os piores exemplos, os de seus inimigos: a Ditadura Militar, Brizola e coisas do tipo. Tornou-se um populista de esquerda bonachão, com seus Gregórios por aí fazendo sempre o que ele até poderia dizer para fazer, mas que não diz, não precisa dizer. E assim, Lula conta com aquele dinheiro que nunca se sabe de onde vem, aquilo tudo que aparecerá como não estando em seu nome, quando ele for enterrado não em São Borja, mas em São Bernardo. A direita o teme por causa disso, ou seja, talvez ele morra sem que se possa enterrá-lo, e fique como uma eterna figura “de esquerda”, amedrontando as crianças que hoje nascem nos Jardins, o bairro rico da cidade de São Paulo. Essas criancinhas aprenderão a antes bater panela que a ler corretamente! Lula como ícone de política de esquerda que deu certo poderá ser o símbolo que fique, e não o Lula do PT. Isso incomoda mais que “Lula em 2018”. Isso realmente desperta ódio.

As esquerdas precisam reaprender que para beneficiar os mais pobres talvez seja interessante ir sempre pelo caminho que respeite algumas coisas que ganharam o consenso para além da tal “luta de classes”. Por exemplo, algo como os Dez Mandamentos que todos nós desobedecemos, mas que não podem ser jogados fora uma vez que ninguém mais trouxe de Deus, da montanha da árvore ardente, porra nenhuma.

Paulo Ghiraldelli, filósofo, 57, autor entre outros de Sócrates: pensador e educador – a filosofia do conhece-te a ti mesmo (Cortez, 2015).

Zé Dirceu, Suplicy e Lula

Zé Dirceu, Suplicy e Lula

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4 Responses “A alma de Zé Dirceu, a mente de Lula e o espírito do PT”

  1. Guilherme Gouvêa Picolo
    06/08/2015 at 02:24

    Cheguei a participar dos atos no Vale do Anhangabaú organizados pela CUT e PT, em meados da década de 90, contra o Collor. Na época, tinha 10 anos e fui conduzido à manifestação por meu pai, um professor de História que assistiu à fundação e à decadência do PT, e que por bastante tempo foi fiel ao partido… Eu lembro bem que, naquele tempo, o PT vicejava como uma espécie de refresco e esperança, simbolizando, acima do ideal de justiça social, o compromisso com a verdade e com a honestidade, uma antítese de tudo o que o país já havia produzido em política, na época resumida por coronéis provincianos e personalidades pitorescas, no estilo de Jânio Quadros, ACM, Maluf e viúvas da ditadura…
    *
    Hoje, meu pai arrepende-se de ter acreditado no projeto do PT. Sente-se um tolo, acha que foi usado por décadas, assim como muitos de seus colegas. E nós que crescemos vendo naquele partido uma luz-guia para um futuro promissor, testemunhamos a repetição da metáfora de George Orwell na sua “Revolução dos Bichos”…. O PT recorrendo ao expediente daqueles que criticava, forjando alianças escrotas sem qualquer afinidade de interesses apenas para manter o poder pelo poder remete aos porcos que, expulsando os homens do comando da fazenda, passam a usufruir dos privilégios daqueles em detrimento dos outros animais.

  2. Fernando Martini
    05/08/2015 at 18:23

    Acho que existe um malabarismo moral, que faz contorcionismos de ingenuidade, onde os petistas de fé e que acreditam que são do bem (seja lá o diabo o que isso signifique) tentam criar justificativas para relativizar os atos de corrupção que foram realizados no governo do Lula, não conseguem ver no mensalão o que seria muito racional de se enxergar em uma visão sem histeria e paixão pelo réu. É um ufanismo muito doido achar que o povo quer o PT para sempre… Mas, que tem gente que acredita nisso, tem! Querer criar uma divisão entre o desviou pelo partido e desviou para si é um argumento bem ingênuo.
    Fico com a opinião de que o PT não está fazendo nenhuma defesa dos “petroleiros” porque saiu muito desgastado do mensalão (apesar de eleger a Dilma, a presidente está numa situação complicada e a Câmara não tem ajudado em nada) e que o momento econômico do país está difícil, dificultando a tolerância da “galerê” e deixando a palha seca para qualquer incendiário. Houvesse grana para protelar os problemas como aconteceu ano passado, estaria sendo gasta.

  3. José Antonio de Sousa NetoJosé
    05/08/2015 at 11:23

    Graças ao bom Deus: Não sou “curintiano” e nem assisto novela desde os tempos de Saramandaia e o Bem Amado, nas verdadeiras versões, e não nas falsas !

    • ghiraldelli
      05/08/2015 at 12:30

      A gente não quer ver novela, mas acaba fazendo o pior, participando dela. Novela é bom, às vezes até evita que participemos de algumas. Folhetim.

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