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17/08/2017

A adolescência interminável


Todos nós sabemos que a adolescência masculina só termina, quando ocorre, após os cinquenta anos. Isso não depende, como os comunistas diziam contra “psicanalistas burgueses”, de se estar ou não no mundo do trabalho.

As mulheres amadurecem mais cedo, mas se os homens vão mais tarde, então ou os casamentos ocorrem com um gap de idade maior ou então as coisas não podem andar bem mesmo. E não andam, pois ainda há pressão natural de convívio social entre as mesmas gerações. Ninguém deve namorar criança, nenhum velho tem direito ao amor. Os que quebram essas diretrizes são felizes, os que não, tem de padecer diante das agruras de aventuras desventurosas.

No mundo da adolescência as meninas espertas fazem os meninos mais ou menos da mesma idade gato e sapato. Às vezes mais sapato! Elas criam nos meninos, muitas vezes, a revolta juvenil e até certa misoginia. Antes a “turma” que a namorada, “aquela vagabunda”, diz o mais educadinho dos garotos quando toma um pé bunda. No passado, então, ele tentava se vingar deixando que as amigas da garota ficassem sabendo que ele “já estava com outra”. E então tudo ia por água abaixo na liliputiana hobesiana guerrinha de todos contra todos, no triângulo ou quadrado amoroso.

Tudo isso faz parte da adolescência, mas se esta termina tarde, então isso se torna parte também da vida do mundo adulto. A novela Em família tem um pouco disso: casos de amor encrencados em situações mal resolvidas que duram uma vida toda! Ciúmes de mãe com filha, mais comum do que imaginamos. Mas Em família não diz nada do mundo moderno em que as coisas ocorrem como ocorrem, e como vemos atualmente.

Hoje em dia o jogo de ciúmes, sedução e imbecilidade, formado pelas fofocas adrede preparadas, não necessita das amigas fofoqueiras, embora não as dispense. A adolescência se tornou mais ridícula, não por aparecer tardiamente, mas por efetivamente contar com a Internet, com a velocidade e com falta de intermediários. O próprio garoto adulto, com o pé na bunda, procura provocar ciúmes colocando nas redes sociais sua foto com “nova gata”. A garotona “balzaca” tonta faz coisa igual e por aí vai. A vida é dos “nets”!

Até o mais relutante às redes sociais, uma vez na reinvestida amorosa, uma vez de volta ao mercado sexual, se rende à Internet. E todo o ciclos de quando se tinha quartoze aninhos é retomado. Uma graça! Uma grande tonteira.

Isso faz de nós mais bobos do que já somos e já éramos. Coloca-nos todos como meninos. Faz-nos reféns de Cupido de um modo quase inescapável. Digo “quase”, porque sei que Berlusconi foi um homem que escapou disso tudo!

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014).

 

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5 Responses “A adolescência interminável”

  1. Roberto William
    11/05/2014 at 21:44

    O que ocorre aos cinquenta anos de idade para se configurar o término da adolescência?

    • 11/05/2014 at 22:52

      Vai ver que é a perda hormonal iniciada nos quarenta!

    • Roberto William
      12/05/2014 at 18:48

      Senti um tom de sarcasmo. De qualquer forma, ótimo artigo, gostaria que escrevesse mais sobre esse ministro italiano e sobre “adolescência masculina”!

    • 12/05/2014 at 18:51

      Talvez ironia, mas não sarcasmo, Roberto. Não sei como se faz sarcasmo.

  2. Guilherme Gouvêa
    10/05/2014 at 11:46

    Já dizia o Adoniran: “Não seja bobo, não se escracha / Mulher, patrão e cachaça / Em qualquer canto se acha”…

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