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27/05/2017

Paixões políticas, pensamentos encalacrados


PSloterdijkFolha de São Paulo nos trouxe essa semana dois artigos curiosos, por meio de seus colunistas filósofos, Luiz Felipe Pondé e Wladimir Safatle.  Chamo esses textos de curiosos porque eles me provocaram, ainda que, tomados como são, eles foram feitos para que não pensássemos. Explico.

Em “Moral da história“, Pondé fez uma denúncia correta a respeito das dificuldades do pequeno empresário no Brasil. Abrir uma pequena empresa entre nós é praticamente abrir aquilo que sabemos que vai fechar mais cedo do que imaginamos. As dificuldades que, há anos, os partidos prometem eliminar continuam vigentes. Pequeno empresário é, no Brasil, um candidato forte a se tornar um grande fracassado.

O Brasil não é um bom lugar para o slogan “pequenas empresas grandes negócios”, mas  para um slogan do tipo “pequenas empresas, pequenas falências”. Aliás, não é só a pequena empresa que sofre aqui entre nós. Temos de reconhecer que não somos um país que incentiva a cultura da iniciativa individual ou empresarial. Já tive empresa e sei bem do que estou falando.

Também sei que Pondé leu autores que puseram Rousseau na berlinda. Eu mesmo, aqui nesse espaço, já expus o modo como o filósofo alemão Peter Sloterdijk ensina ou, melhor, re-ensina a ler Rousseau. Nessa forma, pode-se pensar o filósofo genebrino como tendo gerado uma herança maldita, a de ter criminalizado os proprietários por conta daquela famosa passagem de sua filosofia política, a do homem natural que demarca as terras e diz “isso é meu”. Isso teria levado a filosofia política, ao menos aquela ligada ao fio Rousseau-Marx-Lênin, a ver o proprietário e, então, empresário, sempre como alguém que pode ser legitimamente roubado, uma vez que nasceu como empresário de um roubo original. Afinal, se a propriedade é um roubo, oriundo de um roubo original, inicial, então “ladrão que rouba ladrão tem mil anos de perdão”!

Ele, Pondé, condena um juiz que, por sua vez, condenou as empresárias a pagar “direitos trabalhistas” a um empregado mandado embora por justa causa, por ter roubado as proprietárias. Sua denúncia está certa, mas sua conclusão, ou seja, o que ele chama de “moral da história”, exagera. Pois seu objetivo não é de fato condenar o juiz pelo tropeço, mas dizer que foi a figura do estado que prejudicou o empresário. Ora, ainda que a conclusão de Pondé esteja certa, usar a palavra “estado” aí, substituindo a palavra “juiz”, é um serviço que ele presta não à história que conta, mas à ideologia política que defende.

O modo como Pondé escreve, quando fala do setor social que sua doutrina política defende, às vezes (insisto nos às vezes) soa mais choroso que o necessário. Quem não sabe de quem ele está falando, pode até imaginar que seu lamento não diz respeito a pessoas com dinheiro para abrir uma empresa, mas pessoas que possuem dinheiro apenas para meio cachorro quente na Vinte e Cinco de Março (e sem direito de ver o Félix). Em outras palavras, ele abraça a sua ideologia política de um modo mais apaixonado que o necessário, e isso não ajuda – nem ao leitor nem a ele próprio. Soa por demais militante!

Mas, do outro lado do rio ideológico, as coisas se complicam bem mais.

Safatle escolhe como tema a pesquisa da Folha, publicada domingo, que, entre outras coisas, diz que a população nossa é simpática ao braço do estado um pouco avantajado quanto à economia, mas é “de direita” quanto a costumes. Safatle comemora, uma vez que isso garante que a esquerda que está no poder continue no poder. Reclama (aliás, injustamente) que essa esquerda não tem voz na “esfera pública”. Mas, a parte mais criticável do seu texto é o seu final. Eu cito:

  • Na verdade, o povo brasileiro sabe muito bem a importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos, assim como é cônscio da importância do fortalecimento da capacidade de intervenção do Estado e da defesa do bem comum. Só quem não sabe disso são nossos analistas econômicos, com suas consultorias milionárias pagas pelo sistema financeiro. (Folha de S. Paulo)

Há nesse trecho tudo o que não gosto em um artigo ou ensaio.

Primeiro, o autor dizendo “o povo”. Segundo, o autor dizendo que ele sabe o que esse “o povo” sabe. Terceiro, ele dizendo que o tal “povo” é aquele que “sabe bem”. Quarto, ele afirmando algo que é uma obrigação na esquerda, uma obrigação odiosa: dizer verdades que encerram o debate. E ele fala mesmo, repito: “o povo” (…) sabe “da importância da solidariedade social construída por meio da fiscalidade e da tributação dos mais ricos”, assim “o povo” também “é cônscio da importância da intervenção do Estado e da defesa do bem comum”.

Só essas frases já são o suficiente para eu dizer para um jovem leitor: mesmo que você tenha essa convicção ideológica de Safatle, nunca escreva isso que ele escreveu. Não porque é brega, como gosta de dizer Pondé até com certa razão, mas porque é uma maneira de escrever que não provoca a inteligência do leitor, não dá alternativas para pensar, é uma maneira de escrever que fecha a questão com um final taxativo e, pior, falso.

Por que falso? Ora, não vou me prender aqui ao som patético de “o povo” ou “povo sabe bem”. Denunciar este tipo de expressão é comum hoje em dia, ainda que a esquerda não mude e continue repetindo o erro. Todos nós já cansamos de ouvir intelectual de esquerda dizendo o que o tal povo pensa e o que quer almoçar e jantar. Não, não quero ficar nisso! Quero por em questão aqui o caso da “solidariedade”. Ou seja, o texto termina fincando pé em algo mais ou menos como “solidariedade é isso” e pronto. Não é! Ou ao menos: não é só isso. Há mais formas de pensar a energia em favor da solidariedade, e a própria solidariedade, dentro de uma análise psicopolítica da história.

Podemos encontrar solidariedade nessa forma exposta por Safatle – claro! Ou seja, posso admitir que existe aquele brasileiro que é solidário ao outro brasileiro pagando seus impostos. Nem preciso aí querer que tal solidariedade seja subjetiva, isto é, que o brasileiro pague seus impostos pensando no outro. Não, entendo perfeitamente que o imposto pago pode significar a produção de uma solidariedade objetiva, à medida que a finalidade da arrecadação é a devolução do dinheiro para o cidadão na forma de serviços públicos, coletivos e sociais de boa qualidade. Todavia, isso não pode ser a única maneira de qualificar o que é a solidariedade na vida social moderna.

É por isso que, em outros artigos, aqui mesmo nesse espaço (1), fiz questão de lançar mão de uma proposta de cunho diferente das da social-democracia (sem que com isso eu tenha de ser inimigo da social democracia, tá?). E fiz questão, também, de trazer à baila algo diferente da oposição de Nozick aos liberais de tipo Rawls ou social democratas. Foi por isso que coloquei na mesa a ideia de Peter Sloterdijk. Como expliquei nos artigos anteriores, Sloterdijk não vê nenhuma solidariedade produzida por algo chamado “imposto”, mas, mais apropriadamente, por algo chamado “donativo voluntário”. Ele denominou isso, como expliquei, de um melhor equilíbrio entre energias timóticas e energias eróticas. Ora, faz sentido o que Sloterdijk diz?

Podemos discordar de Sloterdijk quanto à praticidade de sua proposta, uma vez que estamos todos, inclusive os liberais (mesmo os conservadores), acostumadíssimos a pagar impostos e ver o estado fazer tudo, e isso tanto no Brasil quanto na Alemanha. Todavia, não podemos discordar de Sloterdijk se imaginamos o que ele fala quanto à mudança da fonte energética, do campo erótico para o campo timótico, de modo a fazer com que possamos gerar um grupo grande, talvez uma boa classe média com dinheiro, que quer ter o orgulho de ser a guardiã da nação (no sentido do soldado de Calilópolis, que põe sua ira timótica em favor da cidade) por meio de generosa contribuição voluntária ao invés do imposto.

Mas, no caso da proposta de Sloterdijk, seria errado falarmos que ele está em um campo teórico rarefeito e, então, no âmbito de uma utopia sem qualquer âncora. Conhecemos a face comunitarista americana, que sempre esteve presente nos Estados Unidos de modo a se contrapor harmoniosamente à face liberal do mesmo país. Não entender que os Estados Unidos também vive de doações na construção de suas mais belas instituições seria tolice. Fazer como Zizek, que diz que os ricos só fazem doações após ganharem dinheiro por meio de explorações de todo tipo seria desviar o assunto e, de certo modo, não reconhecer o centro da proposta de Sloterdijk, que não necessariamente se restringe aos grandes capitalistas, e menos ainda quer abolir do dia para a noite os impostos.

O que digo é que, quando se trata de produzir solidariedade em uma sociedade, o pior que temos a fazer é dizer que ela só pode vir materializada na forma de impostos pagos ao estado. Dizer isso não é só proteger um dogma da esquerda. Dizer isso é proteger o cérebro, de modo que ele não possa ser atingido por pensamentos que possam implicar em criatividade, independentemente de esquerda ou direita. E é nesse sentido que o texto de Safatle não ajuda muito.

É difícil fazer a esquerda e a direita usar do pensamento enquanto pensamento. Gente comprometida politicamente possui muitas verdades. Ninguém pensa certo tendo muitas mentiras, mas não se chega sequer a ter pensamento quando se tem muitas verdades. Prefiro achar que em matéria de filosofia política deveríamos ser mais pragmáticos, mais experimentalistas, mais generosos quanto ao que podemos criar de diferente.

© 2013 Paulo Ghiraldelli, filósofo, http://ghiraldelli.pro.br

(1) Artigos anteriores:

A inveja chega aos pensadores europeus

As utopias de Nozick e Sloterdijk

Sobre esse assunto foi feito um Hora da Coruja, da Flix TV. VEJA AQUI:

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo