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20/11/2017

A vitimização atual e o fim da hermenêutica tradicional


Este texto é indicado preferencialmente para o público acadêmico

O psicanalista Francisco Daudt, meu amigo, escreveu na Folha (08/11/2017) sobre o “coitadismo”. O início do texto já diz tudo: “Parece haver uma epidemia mundial de suscetibilidades exacerbadas. Ou, em linguagem simples, o pessoal anda catando pelo em ovo para se mostrar ofendido.” Já escrevi sobre este assunto aqui, por diversas vezes, abordando vários aspectos. Já mostrei que não se trata de uma disputa entre esquerda e direita, e que esta última posa de vítima tanto ou mais que a primeira. Também já falei das alterações de sensibilidade durante os tempos. Volto ao assunto, evocando esta última abordagem, mas comentando algo da “compreensibilidade”.

Temos de saber por qual razão estamos todos envolvidos nessa onda não de vitimização, mas mais propriamente de perda de antigos parâmetros a respeito do que é ou não ofensivo, e de como estamos mudando nossa sensibilidade. Estamos mais suscetíveis por moda, frescura disseminada ou é algo que mais sério?

Sempre fizemos isso, a tal mudança de sensibilidade. Mudanças de linguagem denotam isso (e provocam isso). Morte de palavras são sintomas. Não mudanças de linguagem, mas alteração semântica de inúmeros termos também se dispõe a nos dar pistas. Mas, quando olhamos tudo isso historicamente, o que nos salta aos olhos é a questão da rapidez temporal. As alterações linguísticas eram lentas. Agora, são velozes para além do que a própria TV já tinha feito tudo mais veloz; e se há um responsável mais direto nisso tudo é sim a Internet. Ficamos sabendo que pessoas que jamais imaginamos sofrerem por serem chamadas de “X”, se ofendiam, só não reclamavam. Tomamos as dores dessas pessoas, botamos a boca no mundo, ou seja, no Facebook e coisas desse tipo. Fazemos blogs! E eis que logo estamos também pensando se não é o caso de vermos o que nos ofendia, e sobre o qual nos calávamos. Ao fim e ao cabo, começamos também, por conta de volume de informações, criando formas de ofensa para serem colocadas no novo rol do que deve ou não deve ofender. Isso não é fruto do politicamente correto, este é que é subproduto desse movimento. Em suma, estamos forçando o Direito a ficar maluco, e estamos gerando um conjunto de advogados ávidos para saberem que mais adquiriu direitos nisso tudo, de modo a poderem ganhar dinheiro rápido.

Ver uma palavra se tornar ofensiva era algo lento, às vezes não assistida por uma ou até três gerações ou mais gerações. Agora, é questão de poucos dias, às vezes horas! Exemplo? Sim! A “burguesia” era um termo estritamente geográfico: pessoas que viviam nos burgos. Durante as “revoluções burguesas” (veja o termo) a “burguesia” passou a ser nome para classe social, e acabou inclusive ajudando a gerar a noção moderna de grupos no campo da teoria sociológica. Depois, no século XIX, principalmente a partir dos escritos de Marx e afins, a “burguesia” virou termo técnico da filosofia social e termo moral no campo político. Quando começou o século XX, o “burguês” era apresentado com o desenho do “porco capitalista”. Ninguém viu, em sua própria vida, essa alteração. Diferente de nós, que vimos os Trapalhões, por exemplo, terem todo o seu vocabulário se tornar incompatível com a sensibilidade liberal atual, da qual a Globo é porta voz e, diga-se de passagem, porta voz com legitimidade. Um dos modos de ver tais alterações se realizarem em pouco tempo é notar a história dos comerciais de TV (veja meu artigo, aqui: O indivíduo e a sociedade de consumo: características contemporâneas). Em pouco tempo alteramos nossa maneira de falar de bebida, cigarro, infância, mulher, relações sexuais, homossexualidade, diferenças étnicas, conduta feminina e masculina, fé religiosa, corpo humano, alimentação etc. E olha que o etc., nesse caso, é inumerável. Um jovem de trinta anos, hoje, já tem um vocabulário moral incapaz de se corresponder com um jovem de dezessete anos, ainda que eles se metam a fazer juntos algo que eu jamais faria, junto ou separado, que é jogar vídeo game. E isso não pelo jogo, mas pelo vocabulário.

O problema todo está na questão do timing. Vivemos no mundo dos vocabulários em que o aparato expressivo semântico zumbi está em correlação, no mesmo tempo e lugar, com o aparato expressivo semântico que se acredita não zumbi e eterno. Eterno até o dia seguinte. “‘Crioulo”, “negro” e “preto”: o que cada um de nós sente ao ouvir esses termos, sem falarmos de contexto? Ninguém mais sabe! Chegamos a ter de perguntar para quem supomos ser um travesti, com ela quer ser chamada. Aliás, como colocar o pronome? Inclusive, para nós escolarizados, temos até de lembrar colegas que “negro” não é somente cor da pele, e que uma pessoa, ela mesma, é que se declara negra, pois se trata de se identificar com a “cultura negra” no sentido de pertencimento. Ou seja, temos de ensinar gente como Demétrio Magnoli que as cotas étnicas não instituem nenhum tribunal racial em lugar algum, só na cabeça dele e de outros que, de fato, fizeram os tais tribunais na universidade.

Desse modo, concordo e discordo do meu amigo Francisco Daudt: há sim um “não me reles não me toques” se espraiando. Mas não é alguma coisa da pura frivolidade humana, mas do fato de estarmos no olho do furacão da guerra semiótica e semântica que nunca foi vivida por ninguém, não da maneira que estamos vivendo. Se não apurarmos nosso modo de perguntar para as pessoas sobre como elas se sentem, e nos mantermos esperando os sentimentos delas a partir dos nossos, como se processos hermenêuticos de Dilthey funcionassem hoje, não vamos conseguir viver em relativa paz não. Não há fórmula, vamos ter de conversar, de deixarmos de ser surdos, e de ponderamos mais ao abrir a boca.

Dilthey colocou as regras da hermenêutica moderna no final do século XIX: para conhecermos o autor do passado, sua obra, temos de adentrar na tarefa imaginativa de nos colocarmos no lugar dele, e especialmente entendermos a sua época, seu pertencimento a uma “geração”. Essa regra básica tem uma utilidade a ser questionada hoje em dia. Não sabemos quais as palavras estão no coração, fígado e cérebro do outro, mesmo aquele com o qual estamos aqui e agora; temos de perguntar, e saber perguntar, diretamente. Perdemos o recurso à imaginação e ao nosso sentido de identidade e compaixão. Não é fácil não. A “sociologia compreensiva” de Dilthey não nos ajuda mais, pois não sabemos como realmente “compreendermos” ou outro nesse processo de mutabilidade tão rápido, que faz com que palavras que pareciam expressar coisas comuns não tenham mais valor universal.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 08/11/2017.

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

Foto acima: Wilhelm Dilthey (1883-1911).

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