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30/05/2017

A vida sob a obscenidade máxima


A Bíblia é impossível de ser proveitosamente lida com olhos pornográficos. A pornografia caracteriza-se  pela exibição da carne sem seus mistérios. A leitura da Bíblia de modo literal, sem hermenêutica, é a transformação do texto na banalização do facilmente visível. Trata-se, nesse caso, da leitura pornográfica.

A leitura pornográfica da Bíblia, promovida pelos pastores das Luzes e, depois, pelos pastores do comércio e da indústria dos milagres, faz parte do mesmo movimento que instituiu a pornografia no lugar do erotismo. Em ambos os casos, trata-se da fórmula geral da desoneração do mundo (Sloterdijk) ou do aligeiramento pela leveza (Lipovetsky), a regra de que tudo deve ser fácil, e que é impulsionada pelo vagalhão da mercadorização existente na modernidade, que abarca produtos, sentimentos, relações, objetos culturais, instituições e pessoas. Se tudo é mercadoria, tudo é não montado para o uso, e sim para o mercado, para a vitrine e para o ver. Tudo é para o espetáculo (Debord). Nada de treliças, barreiras, véus ou burcas. Nada de fronteiras. O Ocidente exige Luzes, para e pela ciência. O Ocidente exige democracia, ou seja, a ética política da transparência. Ou participamos da pornografização de tudo ou não somos “gente de bem”.

Esse imperativo pode ser explicado por um exemplo simples e atual. Experimente não ter um perfil no Facebook, exibindo a sua vida. Logo as pessoas começarão a cobrá-lo. E se resistir, pensarão que você esconde algo vergonhoso, que participa de alguma atividade ilegal etc. “Pornografe-se ou te devoro”.

Vivemos num mundo de fluxo de capital, pessoas, visões e informações. Vivemos na sociedade positiva da transparência e dos fluxos (Byung-Chul Han). Quem tenta barrar esse fluxos é logo chamado de  reacionário, e de fato o é. A propaganda atual, que é regrada pelo despudoramento, nos deixa entender isso. Há poucos anos, mesmo que se pensasse em propagandas ousadas, não conseguiríamos atores para fazê-las. Mas hoje há comercial de laxante, de absorvente íntimo e até mesmo de remédio para coceiras na vagina. As atrizes e modelos se prestam a essa situação de exposição, sem qualquer problema. Não temem ficarem marcadas por uma tal coisa, pois isso não marca mais ninguém. Participar de fluxos informativos e expositivos não envergonha pessoal como também o capital não se envergonha de ser transacional e muitos menos as guerras se envergonham de criar pessoas que ultrapassam fronteiras. Aliás, não dar abrigo a tais pessoas, interromper o fluxo, é efetivamente ser contra a legítima ajuda humanitária.

Nossa sociedade contemporânea é, então, por tudo isso, a da temporalidade reduzida, a sociedade do imediato. As regras da reflexão, que exigem tempo, são trocadas pelas regras da resposta imediata, uma vez que os fluxos não se interrompem. A fala nas redes sociais mostra bem isso, e contaminam todo o resto. Nada mais é reflexivo, até pelo fato de que pessoas reflexivas só se educam reflexivas se o Outro emerge para que a reflexão não seja apenas o cultivo do Mesmo. Sem o negativo, como criar uma positividade reflexiva? Mas na radicalização das Luzes não pode haver biombo, só caminhos. O reclame por alguma hermenêutica deve ser abolido e no seu lugar a sociedade dos dados, o império do Google, transforma-se num grande polvo com braços e ventosas por todo lado. O que se quer é que “se vá direto ao ponto” em qualquer conversa, o que se quer é falar de si sem ouvir o outro, o que se deseja é a economia do tempo, mesmo que o tempo já tenha se encurtado ao máximo, no imediato da celularização sem fim da vida atual. Todos estão conectados em tempo real. Real? A nossa própria noção de real em contraponto ao virtual mudou muito. Quem hoje ousaria dizer que o virtual se opõe ao virtual se todos funcionamos instantaneamente?

Voltemos à questão bíblica: como a filosofia, teologia é para todos, mas não para qualquer um. Mas nossa sociedade acha não que é para todos e sim para qualquer um. Tudo pode ser tocado, sem que exista preparação intelectual para tal. Se Deus falou pela Bíblia, qualquer um deve poder entendê-lo diretamente, sem capuz, sem apetrechos, sem o próprio intelecto. O Deus moderno não fala só para quem pode encontrar uma árvore pegando fogo! Então, a Bíblia pode se absorvida por osmose, e por isso há várias pessoas que a carregam no sovaco, como uma arma em coldre de policial à paisana. Eles estão sempre de terninho.

Que não estranhemos que os juízes e os réus, e tudo o mais, façam suas atividades televisionadas e até com interação popular via tela de celular. Na sociedade da transparência a carne deve aparece em close. Todos somos treinados para a pornografia. A Terra vai ser completamente iluminada em um desmatamento total e na informatização absoluta. Não haverá útero para se esconder. O conceito de vida privada será alterado a ponto da própria noção de pornografia e obscenidade virem a desaparecer. Furamos a terra para encontrar petróleo e criar a liberdade de hoje, a que não precisa da força animal, a da sociedade do mimo. Quando furamos a Terra autorizamos o furo de tudo. Não há lugar em que não olharemos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 15/05/2017

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11 Responses “A vida sob a obscenidade máxima”

  1. Estevão Damacena
    20/05/2017 at 00:36

    Porra professor! Desculpa o palavrão, mas só assim para conseguir expressar o impacto deste texto para mim!
    Sinto que conseguistes ir no âmago dos dilemas que nos cercam todos os dias. Esta exposição do corpo(e alma) virou mais que um vício, mas sim uma regra moral de “sociabilidade”. Só será bem visto aquele que mais se expor, aquele que menor pudor tenha de arremessar sua vida(ou pseudo-vida) nas telas dos celulares!
    Quando o Senhor fez a analogia destas “luzes” que a tudo se direciona, fez-me lembrar do texto do Foucault em Vigiar em Punir quando ele diz que antes das novas leis iluministas, os corpos dos transgressores iam para a masmorra, para a escuridão. Com o panóptico, o principio se inverteu. Ali a visibilidade dos corpos que era o mais importante!

    Abraços de seu ex-aluno da UFRRJ

    • 20/05/2017 at 08:27

      Estevão, estou sempre tentando conseguir captar o tempo em que vivemos. Obrigado por ler minhas coisas. O CEFA está sempre aberto para você, e também meu lugar de trabalho com aulas, a Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI, de Mogi. Apareça!

  2. André
    16/05/2017 at 01:22

    Que sinistro, Paulo. Acho que eu tô meio longe disso porque sou velho. Vou reparar mais no mundo a partir da sua perspectiva e ver se concordo ou não. Valeu!

    • 16/05/2017 at 08:58

      André, mais velho que eu? Não é sinistro! É a vida. Obrigado pelo interesse em minhas coisas.

  3. Geraldo Santos
    16/05/2017 at 01:14

    De filósofo para filósofo> Muito bom e bombástico. É mesmo a pornografização de tudo.

    • 16/05/2017 at 08:59

      Geraldo, obrigado pelo interesse na leitura de minhas coisas.

  4. Valquíria
    15/05/2017 at 23:51

    Seus textos são muito ricos!!

    • 16/05/2017 at 09:00

      Valquíria, obrigado por gastar seu tempo nas minhas coisas e tirar algum proveito.

  5. Thiago
    15/05/2017 at 21:14

    Obrigado por seu trabalho como filosofo.

    • 15/05/2017 at 23:25

      Thiago, agradeço seu interesse pelas minhas coisas!

  6. Eduardo
    15/05/2017 at 14:33

    Boa Tarde Prof.

    Que livro e/ou autor recomenda para o estudo da hermenêutica, mas que fuja da interpretação de textos sagrados; uma hermenêutica mais geral?

    Grato.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo