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18/11/2018

Uncanny Valley – por uma teoria da repulsa


1) Uncanny Valley

Masahiro Mori, professor de Robótica no Japão, criou nos anos setenta a noção de Uncanny Valley. O “vale de estranheza” se refere ao local de uma curva gráfica, em um eixo cartesiano. A curva em questão foi gerada por Mori ao observar as reações de humanos às transformações de robôs na direção de se parecerem humanos. Quando os robôs são ainda bem rústicos e começam a ganhar expressão humana, os observadores se alegram e reagem positivamente. Mas em um determinado momento, a curva de alegria decai abruptamente, formando um vale – onde surge um tempo de estranheza, até de repulsa –, que é então superado quando as características humanas são acrescidas de modo a fazer o robô ficar quase idêntico ao humano. (ver figura ao final do texto)

Uncanny Valey é, então, a zona de estranheza, que se revela entre aquilo que é um objeto humanizado e o robô praticamente igual ao humano. Entre um ponto e outro a zona de estranheza ou o vale da curva mostra o tempo ou os momentos em que olhamos para o robô e sentimos desconforto, repulsa, medo.

Talvez devêssemos levar mais a sério os estudos de Mori, para além do desejo de construir robôs ou de criar jogos eletrônicos e filmes. Pode ser uma boa pista para a questão da empatia, ou da falta de empatia, e para os problemas tomados como os de inclusão do diferente, que preocupam o mundo liberal atual.

O que Mori mostra é que não temos problema com o diferente, mas com o semelhante. Tudo indica, no seu experimento, que a zona de estranheza ou o Uncanny Valley revela o nosso horror ou aversão não ao diferente, mas ao semelhante, em especial ao que podemos chamar de caricatura. Podemos conviver bem (e até amamos) o cães, que são os animais que possuem olhares humanos. Achamos simpático um carro em que os faróis se parecem olhos e o capô uma boca. Não temos problemas no convívio com outros humanos que são, evidentemente, diferente de nós na cor de olhos, gordura, estatura, cabelo, tipo de nariz etc. – somos, afinal, todos diferentes. Mas não conseguimos aceitar os humanos que se comportam como quase iguais, que nos lembram algum exagero, algo que nos troca pela nossa caricatura. Talvez algo – um detalhe mesmo – que nos nos lembre de uma situação primitiva e de descontrole, que um dia vivemos no processo evolutivo, e que superamos a duras penas.

2) Agostinho e o pecado original

O que nos parece semelhante, mas não é aceitável? A caricatura, sim. Mas, em que sentido? Quando ou em que ponto a nossa caricatura causa repulsa? Em que momento o desenhista deixa de nos agradar, quando faz nossa caricatura? Qual traço é o mais desconfortável? Quando é que um robô, quase humano, nos incomoda?

O mais horrível no robô é quando ele apresenta uma semelhança incrível conosco, mas falha em determinados atos de auto-controle. Nesse caso, tudo nele é perfeito, mas há algo que o torna estranho, repulsivo, que nos faz projetar em nós mesmos situações pelas quais nos descontrolamos, ou situações que nos fazem reproduzir movimentos espasmódicos. É humilhante para nós termos convulsões em público. A gagueira não é algo que se deseje. Temos um pavor imenso dos “derrames”, ou qualquer patologia que nos tire o controle do movimento, em especial os do rosto.

Santo Agostinho foi um antropólogo e um psicólogo de mão cheia. Talvez tenha sido ele o autor que primeiro percebeu nossa aversão pelo descontrole somático. Ele foi o filósofo que falou da vontade, que introduziu essa noção no pensamento, rompendo com os clássicos gregos que nada tinham a ver com ela. Também viu a vontade como contendo uma interna dilaceração. E se esta não podia conter certos movimentos espasmódicos, tomou tal coisa como aquilo que poderia ser o nosso maior castigo.

Agostinho viu o desobedecimento de Adão e Eva em relação a Deus como um descontrole dentro de um grande corpo. Deus sofreu o descontrole na sua Criação quando Adão e Eva romperam com a suas próprias ingenuidades ao comerem o fruto da Árvore do Conhecimento, o fruto proibido. Propiciaram a Queda. Deram origem ao mundo sem Deus, ou seja, sem paz interna. O mundo da ansiedade e do medo se abriu para eles. Não ter paz é sempre estar em busca de satisfazer desejos e jamais encontrar parada, jamais encontrar a situação de êxtase que não exige reposição. Essa condição é o próprio castigo pelo rompimento com Deus. Trata-se da sexualização do pecado original, feita por Agostinho.

Na conta de Agostinho, o pecado é punido com a emergência da libido, que faz a vontade entrar em choque consigo mesma e torna o corpo se mostrar desprovido de auto-controle. A ereção e a vagina molhada são sinais de descontrole, de queda no círculo da busca incessante da calma, que nunca virá. Pois a libido é insaciável. Nesse caso, o homem é o autômato de funcionamento ruim: seus membros se movem sem sua ordem. Adão e Eva foram os membros da criação que se moveram na desobediência de Deus, magoando-o, e o castigo deles foi o de terem seus membros ou partes corporais se movendo por si mesmos, a despeito da vontade. Transformam-se em ridículos eternos adolescentes – corando aqui e ali por ações despropositadas. Se observados, provocam o Uncanny Valley, aquele momento em que o observador se vê igual a eles, mas reza para não ter que passar pela mesma situação. Nessa hora, o observador teme o descontrole. Teme o defeito.

3) O Boca Torta

Monteiro Lobato é o autor de O Boca Torta. O personagem de mesmo nome do conto é a personificação do que é feio. Mas não é o feio comum. É o feio à medida que tem um rosto em que um espasmo foi fixado. Trata-se de um negro que mora no mato, uma daquelas pessoas que nascem sem lábios e, então, ficam com dentes e gengivas expostas. Para piorar, sua boca é delineada quase na vertical. No conto, o negro Boca Torta é necrófilo, e acaba se deliciando com a bela e jovem heroína da história, que morre virgem e, enfim, conhece seu primeiro beijo só como defunta. Boca Torta faz o serviço.

Boca Torta termina assassinado. O correto seria, como leitores, sentirmos indignação pela injustiça com o negro. Mas Monteiro Lobato é um grande escritor e, por isso, nos conduz para o outro lado. Terminamos a leitura do conto com asco ao pensar na beleza da moça sendo posta em meio à terra nas mãos de Boca Torta nu, penetrando-a e lambendo-a. Nosso senso de justiça desaparece, soterrado diante da tramoia estética de Lobato. Tramoia estética para nos pegar na armadilha moral. Caímos fácil.

Quem é Boca Torta? Aquilo que somos todos, caso tenhamos de ficar inacabados por conta de uma Natureza que esqueceu de nossos lábios e de colocar nossa boca na horizontal. Nessa hora, ser filho de escravo e andar sujo no mato é o de menos. Boca Torta é aquela coisa torta que só pode ter amor se vindo daqueles que se parecem com ele, os mortos. Ele não pode evitar. Seu desejo o faz frequentar os cemitérios e, mais isso, o põe a cavocar, junto com seu cão, os túmulos das moças. Boca Torta é o descontrole da Natureza e, uma vez adulto, a continuidade desse descontrole por meio da falta de auto-controle. Ele é o ampliador do zona crítica do Uncanny Valley.

4) Filosofia do nascimento

A teoria das esferas de Peter Sloterdijk tem uma parte voltada para uma espécie de arqueologia da intimidade. Criada inicialmente em uma estrutura que acolhe uma dupla – feto-placenta –, a intimidade é campo próprio para a subjetividade humana. É o lugar da ressonância que, enfim, nos prepara para nos fazer sempre aptos ao Eu-Tu. O bebê espera que a parceria intrauterina se mantenha no campo extra-uterino. Que a dupla feto-placenta, um Aqui e um Lá, se transformem na dupla bebê e voz da mãe, criança-gênio, criança-pais e assim por diante. Tudo é construído para isso.  A solidariedade está implícita nessa ressonância que começa antes de se estar no aberto, no mundo.

Se o bebê chora, então a voz da mãe, já bem familiar após nove meses, reaparece para prometer: “Tudo vai ficar bem”. É uma promessa mentirosa. Ninguém pode prometer isso. Mas uma tal promessa evita o niilismo, ou seja, incrusta valores para a criança, lhe dá condições de retribuir. O mecanismo de promessa exige retribuição. A criança responde também prometendo ajudar nisso, o que é resumido na fórmula “tudo vai ficar bem”. Agarra a falsa promessa. Quando percebe que poderia se tratar de uma mentira, já é tarde. Assume a função da promessa, transforma-a em auto-promessa. Esforça-se para manter-se esforçando e não decepcionar a mãe e a si mesmo. Eis que se tem aí a base da subjetividade: a capacidade de encontrar justificativas em si mesmo para uma desinibição, ou melhor, autodesinibição que resultará na passagem da teoria para a prática, do discurso sobre o necessário para o fazer o necessário. Mas o necessário, em humanos, é sempre um plus, um mimo. Na estrutura do mimo nasce a autodesinibição, tendo origem na promessa.

É assim que podemos falar do sujeito, aquele que é autoconsciente, tem identidade e, enfim, pode responsabilizar-se pelos seus pensamentos e atos. É proprietário de sua vontade. Tem controle sobre ela. Em uma palavra: é o senhor auto-controlado. O indivíduo autônomo. Está no projeto do homem sua condição de sujeito, de autonomia. Ele é o ser que se vê como existente tem autocontrole. Tal coisa se torna um ideal estético, moral e cognitivo para o homem.

É assim que temos uma “filosofia do nascimento” em Peter Sloterdijk, e ao mesmo tempo o modo como ele trabalha a respeito da formação da subjetividade. A subjetividade moderna, para ele, faz parte das antropotécnicas que geram, ontogeneticamente e filogeneticamente, o homem. Criar o homem é criar aquele que pode ser descrito por meio do conceito de sujeito moderno é quase a mesma coisa nessa teoria.

Não se constituir como sujeito, nessa teoria, é realmente ter um defeito. Quando algo ocorre na esfera de ressonância entre os sucessores de feto e placenta, o sujeito pode não se fazer sujeito, pode não gerar o auto-controle, pode surgir com defeito. Sujeitos com defeitos ou pseudo-sujeitos podem provocar o Uncanny Valley.

5) Fetiche, reificação e promiscuidade

Giorgio Agamben é um fã de Guy Debord. Ele admira o livro Sociedade do espetáculo. Sabe bem que o espetáculo, no caso, não é o da mídia – embora também seja -, mas fundamentalmente o da mercadoria ao se fazer mercadoria, ou seja, ao se por como o que não tem mais valor de uso, mas só valor de troca, e que portanto tem sua função no aparecer. Na separação entre o produtor e os seus produtos, estes voltam para diante do produtor como estranhos a ele, e se são postos para a aquisição são, na verdade, antes disso e fundamentalmente, postos para cumprirem o objetivo do espetáculo – e talvez o objetivo do espetáculo. Se resta alguma utilidade nisso, não é o de servirem ao homem como utensílios, mas sim o de se fazerem de peças no campo do excedente de valor do modo de produção capitalista. Assim, para o homem, a mercadoria perde realmente a utilidade e ganha sua capacidade de competir com a obra de arte. Torna-se elemento de contemplação. Forja o homem moderno como aquele que se educa para o espetáculo. A espetacularizaração da mercadoria se produz, por deslizamento e contágio, também em outros setores. Mídia e TV, mercadoria e políticos, todos se adaptam à forma-espetáculo.

Agamben lembra de como Marx e Baudelaire se relacionaram com a A exposição Universal (a primeira foi de 1851, em Londres). Cita de modo arguto o como a mercadoria assume a sua condição de espetáculo ao se por como o que aparece. O próprio Guia da Exposição de Paris de 1867 diz o que é necessário dizer sobre a época que Debord caracterizou como aquela que não era a da suplantação do ter pelo ser, mas a do naufrágio de ambos diante do aparecer. Eis um trecho do Guia, citado por Agamben: ‘o público necessita de uma concepção grandiosa que arrebate sua imaginação: é preciso que seu espírito pare estupefato frente às maravilhas da indústria. Ele quer contemplar um golpe de vista feérico, e não produtos similares e uniformemente agrupados’. A palavra chave, nesse caso, é “feérico”. A mercadoria é object féerique. “Féerico” é o que é deslumbrante, maravilho e fantástico, mas também o que denota magia, o que pertence à magia. Em suma: o espetaculoso do espetáculo.

O texto de Agamben sobre esse assunto está diretamente ligado à sua “arqueologia da palavra fetichismo”. Na continuidade disso, Agambem lembra de ilustrações de um livro do século XIX. Vale a pena citar o trecho:

“Em 1843, Grandville publica, sobre um texto do seu amigo Forgues, as Pequenas misérias da vida humana. Em uma série de ilustrações genialmente perversas, Grandville nos oferece uma das primeiras representações de uma fenômeno que viria a tornar-se cada vez mais familiar ao homem moderno: a má consciência com relação aos objetos. Em uma torneira que perde água e não se consegue fechar, em um guarda-chuva que se vira ao avesso, em uma bota que não se deixa calçar inteiramente, nem descalçar e fica obstinadamente presa ao pé, nas folhas de papel espalhadas por uma corrente de ar, em uma tampa que não fecha, em uma calça que se rasga, o olhar profético de Grandville vislumbra, para além do simples incidente fortuito, a cifra de uma nova relação entre homens e coisas. Ninguém melhor do que ele representou o mal-estar do homem frente à inquietante metamorfose dos objetos mais familiares. Sob a sua pena, os objetos perdem a sua inocência e se rebelam ao homem como uma espécie de perfídia deliberada. Eles procuram subtrair-se ao seu uso, animam-se de sentimentos e intenções humanas, tornam-se preguiçosos e descontentes, e o olho não se espanta de os apanhar em atitudes licenciosas”. (Agamben, G. Estâncias. Belo Horizonte: Editora da UFMG, 2007, p. 81).

O fetichismo tem como contrapartida a reificação. Se os objetos se tornam vivos, então os sujeitos, que são os vivos, se tornam objetos, coisa morta, ou ao menos coisa passiva. Quando nos vemos como robôs, mas que, por um pequeno defeito, ainda são coisas, sentimos o desconforto que tem a ver com a perda do controle. Ou seja, somos humanos e, no entanto, coisas – a missão da reificação se cumpre. Ora, o capitalismo é uma economia de perda de controle. Ele nos coloca submissos, como coisas, diante da mercadoria, que se transforma em algo animado que nos dá ordens. A mercadoria nos obriga a vê-la como vedete, estrela, atriz principal. Produz em nosso próprio corpo e hábitos mudanças ou requisitos para mudança, se quisermos convidá-la para vir para a nossa casa. Ou seja, uma calça não como produto, mas como mercadoria, nos obriga a emagrecer para poder vesti-la – ela, é o comandante da ação, o verdadeiro sujeito da relação. Somos animados se somos objetos, se perdemos o controle. Há visível desconforto nisso, e que aparece no nosso incômodo quando nos deparamos com o robô quase humano que, por um defeito pequeno, não é o humano.

Há aí na modernidade enquanto lugar próprio do capitalismo uma promiscuidade jamais vista entre coisas e humanos. Nesse sentido, cresce a necessidade de saber onde começa a coisa e termina o humano e vice versa. As próteses poderão ter fim e começo? E quando é que somos nós mesmos, e não as coisas, que estão funcionando? Se pudermos transportar nossa vida como um software para um corpo que é um hardware, seremos nós mesmos os imortais? Ou seremos de fato apenas cópias, tendo os objetos nos assumido. E se formos cópias, que tipos de defeitos produziremos? Patologias biológicas não mais, certamente. Ora, mas temos horror maior à gagueira em corpo biológico ou em um tipo de espasmo maquinal? Desaparecerá, então, o Uncanny Valley?

6) Palhaços e outros bonecos

O medo de palhaço nem sempre é associado ao medo de bonecos. Mas deveria ser visto assim, em articulação. Medo de palhaço aparece como especificidade do medo de bonecos de ventríloquo, bonecos articulados, autômatos em geral. É um medo moderno, capitalista, associado à emergência dos tempos em que Marx escrevia sobre o fetichismo da mercadoria. Mas, novamente aqui, trata-se do semelhante, aquele que não é o igual, ou seja, a nossa caricatura. Palhaço é a caricatura do humano. E novamente aqui a questão do auto-controle reaparece.

O palhaço, os  bonecos e, enfim, os autômatos em geral prometem diversão. Estão destinados às crianças, à amizade, ao fazer o bem. Mas como carregam um rosto maquinal, caricatural, duplo, não estão isentos de despertarem o que tememos, e que aparece no fenômeno do Uncanny Valley: a repulsa pela perda de auto-controle daquilo que poderia ser nós mesmos. Nesse caso, a ideia é de que algo que se parece humano não é humano, e vai nos fazer mal, não por atacar-nos, mas por revelar sua não humanidade. Talvez revelar nossa própria capacidade de também não sermos humanos seja o nosso maior medo. Revelar o quanto nos descontrolamos, o quanto podemos agir como máquinas sem freio – eis aí o que nos dá perdas de noite de sono. Tememos não nos realizarmos como sujeitos ou indivíduo autônomos. Aliás, é uma arma entre nós dizer para outro que se descontrola: “você perdeu a razão”.

7) O espelho da minha avó.

A uma certa altura da vida minha avó passou a ter raiva do espelho. Ele era um traidor. Mostrava-a de um modo que ela não aceitava ser: velha. Velha, mas só no rosto. Sua disposição corporal e o próprio seu corpo como um todo contrastava com o rosto envelhecido – e isso a fazia sentir-se uma caricatura.

Parece que ela intuía que ao chegar aos oitenta anos, algum movimento corporal deveria ter sido perdido, mas como isso não ocorrera, o mais injusto teria sido esse tropeço do espelho, de fornecer um rosto desarmonioso com o corpo. Naquela época os cremes não eram promissores, e operações plásticas eram, sempre, uma operação cara. Minha avó odiava hospitais e camas. Preferia reclamar do espelho.

A figura no espelho era, para a minha avó, algo mais ou menos parecido com o nosso incômodo detectado pelo Uncanny Valley. Há algo não nosso nessa nossa imagem, quando ela nos mostra velhos. Há algo, nessa imagem aí, nesse robô, nesse brinquedo, nessa coisa, nessa figura do espelho, que não pode ser eu. É algo que tem um defeito. Não pode ser eu, pois eu mesmo, não tenho esse defeito. Mas, se tenho, não o quero. E se não posso evitá-lo, ao menos não o quero visível, demonstrado. Não quero saber dele. Deixo para outros o “conhece-te a ti mesmo”.

8) Edgar, o antropólogo auto-reconstruído

Virado no avesso é um belo livro. É obra de um homem maravilhoso. Um professor exemplar. Um amigo que conhece a fundo a palavra “amizade”. Ele a pratica. E teve de praticá-la, inclusive, consigo mesmo. O livro conta essa saga.

Edgar de Assis Carvalho foi atropelado na cidade de São Paulo. Se decompôs. Colocou no seu livro o seu processo de recuperação, em uma etnografia da reconstrução humana que não conheço similar. É um livro de fuga constante do Uncanny Valley. A fuga para não se tornar um robô quase humano, mas com um pequeno defeito que viria a estragar tudo.

O livro do Edgar é o asco diante do boneco do ventrículo, do palhaço, da caricatura, do espelho da minha avó, da mercadoria vedete, da promiscuidade entre coisas e carne. Do hospital à volta ao lar, toda a reconstrução de Edgar por ele mesmo, em todos os sentidos, mostra exatamente o que deveria ser evitado: não deixar que ninguém caísse no Uncanny Valley quando o visse novamente, quando ele reaparecesse em cena.

Muitas pessoas acidentadas e desmaiadas, quando acordam, colocam as mãos nos lugares mais feridos. A perna quebrada. A busca de sangue em algum lugar. A cabeça moída. O cão enorme que atropelou Rousseau e o colocou a nocaute lhe deu uma experiência típica. Ele teve a experiência do não pensar. E para Rousseau, sabemos bem, vale como condição de sujeito o não-pensamento, e não o pensamento como em Descartes. Isso fica claro nos relatos dos Devaneios do caminhante solitário. O título já diz tudo. Devaneio é o não-pensamento, a condição do ensimento da existência.

A experiência de Edgar, ao acordar, traz outro elo desse mesmo fio: também Edgar não procura saber se está pensando direito, se voltou ou não à consciência, a primeira coisa que faz é passar as mãos nos dentes. Queria saber se estavam todos ali. Não é a dor que o importa, seu medo é que o defeito do boneco que viria a surgir após o atropelamento não fosse banguelo. Tudo, menos isso. Uma pessoa sem dentes, ou seja, com um defeito tão visível, tão no rosto, é como que a minha avó no espelho, é como o palhaço. Posso esconder de todos que não estou pensando direito, que tenho um defeito na minha autonomia intelectual, mas não posso esconder o que meu rosto mostra, que é um defeito de autonomia no sorriso. Sorrir e, ao invés de ver outros sorrindo, despertar asco por um defeito da perda de autonomia de fazer sorrir – eis a desgraça. Agir no avesso de Boca Torta, eis aí o que Edgar não queria. O pior castigo para Edgar seria sorrir sem provocar sorriso, o que equivaleria também o morder sem morder, sem mastigar. A autonomia não é só um imperativo moral para nós, é um imperativo estético, digestivo.

9) A vergonha e o sujeito

Giorgio Agamben descreve a subjetivação, o nascimento da subjetividade, por meio de um processo de unificação entre a perda de um tipo de subjetividade e aquisição da subjetividade no termos de aquisição da linguagem. Aliás, para ele, na senda do linguista Benveniste, ser sujeito é algo do âmbito da linguagem. É a linguagem que nos dá a condição de nos colocar como indivíduos autônomos ao usar o dispositivo “eu”.

Nessa exposição, especialmente no livro O que resta de Auschwitz, Agamben dá cartas de acréscimo para a minha teoria do Uncunny Valley. Assim o faz tecendo comentários a respeito da vergonha.

Agambem liga a subjetividade ao processo de dessubjetivação, por exemplo, quando saltamos da condição da infância, que por definição é o momento da não-linguagem (infante: o que não fala), para a condição de criança falante, com linguagem. Nessa hora, perdemos a experiência, que vinha com a subjetividade até então formada, e adquirimos a subjetividade propriamente dita, que nos dá a condição de autonomia. Pagamos um preço nisso: perdemos a nós mesmos ao adquirirmos uma linguagem que está pronta, e que por estar pronta e não ser propriamente a nossa (embora sendo, enfim, a nossa – para sempre), jamais vai exprimir senão o que está pronto e que não é nosso[1]. Agamben diz que a vergonha se revela em todos os momentos em que essa situação de dessubjetivação-subjetivação é posta a nu. A vergonha está no âmago das perdas necessárias para que se seja autônomo, sujeito.

A fenomenologia da vergonha, como Sartre a teceu, nos dá bem essa ideia. Alguém é pego olhando pela fechadura da porta e, então, se desconcerta. O que deseja, nesse momento? Apenas se desfazer, sumir, desaparecer como um eu. Voltar a condição de não eu. A vergonha clama pelo momento de despossessão do eu. É como se quiséssemos não ter nascido, não ter se constituído como humanos (e não só ontogeneticamente, mas filogeneticamente), para não termos de correr de novo o risco que é se apresentar sem controle, como quem olha pelo buraco da fechadura, cedendo a desejos não assumiveis. É como se quiséssemos evitar ser sujeitos, pois o sujeito pode falhar como sujeito e se apresentar como aquele que, por essa falta, gera o Uncanny Valley.

Tanto quanto a deusa Atena, Alcibíades tinha pavor de tocar flauta. Dizia que as bochechas ficavam inchadas e que o rosto ficava ridículo. Nunca escondeu seu asco diante de povos flautistas, pois seriam gente incapaz de proferir discursos, de conversar. Fugiam da linguagem refugiando-se na boca presa à flauta. Agamben diz, claramente, que a música é uma espécie de volta à não linguagem, à busca daquela situação que acumulou experiências por conta do silêncio da linguagem, mas que se perdeu na constituição do sujeito. Não ser sujeito constituído é escapar de passar vergonha. O sujeito constituído é o que pode falhar na sua obrigação de autonomia, de autocontrole, e provocar o Uncanny Valley. Ser sujeito é sempre correr o risco de passar vergonha, de mostrar o defeito.

10) Passabilidade

No meio LGBTT há o termo “passabilidade”. Há transexuais e travestis com “passabilidade”, há os que não. Os primeiros arrumam empregos e podem ter uma vida com menos tropeços que os segundos.

Por exemplo: Ana Luíza era homem e passou a se apresentar socialmente como mulher. Aos olhos e olfatos de todos, seus traços são indistinguíveis de uma mulher. Nela, não há o perigo de ser traída por uma “peça fora do lugar”. Nada nela pode, a qualquer momento, denotar o temível Boca Torta que estaria ali escondido em seu corpo, no biombo da alma. Ana Luíza tem passabilidade. Ana Claudia também era homem e  passou a se apresentar socialmente como mulher. Mas, mesmo após operações, Ana Claudia não consegue disfarçar o gogó, ao menos assim ela pensa. Ele, o tal gogó, dá o ar da graça em determinados momentos. Ilusão, mas ilusão desastrosa. Ana Claudia não sabe se o gogó é um fantasma. Deve ser. Mas o problema é que esse fantasma, quando vem, faz o serviço de todo fantasma, detona em Ana Claudia um pensamento terrível: “ah, me pegaram, estão me vendo como homem, descobriram meu segredo”. Ana Claudia imagina não ter passibilidade, e por imaginar assim, acaba mesmo não tendo.

Tornar-se mulher na condição de transsexual ou travesti (não estou igualando, apenas agrupando os nomes por economia) é alguma coisa que indica, para muitos, a desrazão. Vestir-se de mulher é algo meio semi-patológico (acusar de “sem-vergonhice” é a variante rústica da acusação de “doente”). Desejar cortar o pênis para ser mulher, então, é algo que, até ontem, era doença mental pela classificação da OMS – Organização Mundial da Saúde. Ou seja, o transsexual é aquele que perdeu o juízo, perdeu a razão, é alguém com distúrbio mental. No limite, não pode ter nenhuma passibilidade, pois está sem o controle de si mesmo. Não tem autonomia. É o robô quase humano, mas com aquela falha que nos coloca rapidamente no Uncanny Valley.

O palhaço, a minha avó, o Boca Torta e a Drag, e até mesmo o Edgar banguelo – todos os que não possuem passabilidade. Estão sempre como quem foi pego olhando o buraco da fechadura do velho Sartre.

Condomínio Jaguaré 26/06/2018

[1] Agamben lembra a articulação da linguagem entre semântica e semiótica. A primeira é a formalidade da linguagem, a segunda é a apropriação da linguagem por nós e, então, suas transformações. Essa divisão é de Benveniste.

Figura: Uncanny Valley

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3 Responses “Uncanny Valley – por uma teoria da repulsa”

  1. Eduardo Rocha
    27/06/2018 at 10:39

    Muito bom. Mas os antigos sempre foram mais “místicos”? E se pegarmos essa ideia de animação do inanimado-mercadoria e voltaremos para civilizações mais antigas?
    Por exemplo: “Fetiche” tem origens africanas que se assemelha muito a “feitiço”. Lá veremos práticas de rituais bem peculiares onde se faziam estátuas com traços humanos bastante horripilantes e praticavam um ritual em que deviam dotar essas figuras, esses fetiches incompletos com as forças da alma (Vodu) que se apresentava meio disforme, sem olho, as vezes quebrado, torto. Existe até um filme de zumbi (A Maldição dos Mortos Vivos) que por meio de um feitiço eles ganham vida. Mas isso também desencadeia a visão de máquina moderna. O de colocar algo dentro para gerar movimento. Estátuas, bonecos humanos, golens, zumbis, Frankenstein, robôs, androids, trens, carros, foguetes (basicamente petróleo e derivados, vapor e eletricidade), a ideia de “espírito”. Então, as qualidades de pessoas são canalizadas às mercadorias pela divisão de trabalho e inconscientemente são cravadas na mercadoria e depois retornam ao homem pelo ato da compra como mercadoria. É como se as horas de trabalho do homem para produzir produtos ou mercadorias fossem drenadas ou sedimentadas nas mesmas. O homem perde um pouco de sua própria alma criando um espectro que penetra na mercadoria-morto. Como uma forma de que um “gesto alienante” pode ser inserido em qualquer coisa, pode ser sedimentado em tudo e todos. Se formos para a física teremos energia cinética movendo objetos parados, o morto ganhando vida (como uma bola de bilhar batendo na outra). Essa transferência de energia tem algo de “místico” ou misterioso e que obviamente naquela época ainda não conseguiam explicar.
    Outra coisa lendo seu texto é que na literatura os disformes são os que funcionam como ajudantes. Como Frankenstein, Quasimodo, Sloth, Pinóquio, Gnomos, Anões, Vizir, Magos, etc., e de certa forma, eles são aqueles esquecidos, os que quando junto de nós ganham um quartinho em casa tipo um calabouço justamente para não serem vistos. Quem olha para eles “perde a capacidade de prestar atenção”, eles são a representação do esquecimento. Os defeitos físicos, são uma distração.
    Mais recentemente no caso do popular espiritismo (Positivismo), isso tudo ecoou também em literaturas de gênero como contos, ensaios, histórias de terror, mistério e de suspense, coisas como Frankenstein, vampiros, Revelação Mesmeriana, O Enterramento Prematuro e Os Fatos no Caso do Senhor Waldemar de Allan Poe, O Médico e o Monstro de Robert Louis Stevenson, H. P. Lovecraft, Kafka, entre outros. Os monstros no escuro que não raro somos nós mesmos ou animados por nós. A ideia da psicanálise e inconsciente entrando no íntimo (daimons, anjos, gênios, Jesus).

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