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16/08/2018

Uma professora “a favor do assalto”? O que é isso?


[Texto indicado preferencialmente para leitores com interesses acadêmicos]

Santo Agostinho não exitou em dizer que roubar um pão quando se tem fome é perdoável. Mas ele não usou a palavra “assalto”, pois isso poderia ser entendido como algo além do ataque ao patrimônio, mas à vida humana. O cristianismo é uma doutrina de elogio ao pobre, de cuidado com o faminto e necessitado, mas não é uma doutrina da violência.

Vi e ouvi uma entrevista de uma moça da esquerda, professora (veja aqui), em que ela diz não propriamente que é “a favor do assalto”, mas algo parecido: ela diz que há “uma lógica no assalto”. Sim, há! Claro! Mas no pacote ela diz que ao querer tomar algo que não é seu, o indivíduo está “dominado pela lógica do capitalismo”, onde as coisas se dão de forma injusta. Desse modo, “nesse  contexto”, fazer o aparentemente injusto, o assalto, seria justo. A direita tosca não consegue entender o recado da moça, pois está sempre preocupada em xingar as pessoas e vociferar. A filosofia ensina a não fazer isso que a direita – até por seus intelectuais – costuma fazer. Antes de tudo, impõem-se a análise, essa amiga do pensamento.

O que de fato se expressa no pensamento da moça, da professora? Uma visão pré-marxista do capitalismo: o processo capitalista é um processo de injustiça que, no limite, pode se consubstanciar na frase “a propriedade é um roubo”. Voltamos a Rousseau, mas não chegamos de modo algum a Marx. Neste último, o capitalismo pode ser injusto, mas a propriedade não é um roubo e muito menos o mecanismo pelo qual o capitalismo se amplia, a mais valia, tem qualquer coisa de criminoso, por qualquer noção de direito que se venha a aplicar. Marx deu um salto na interpretação do capitalismo exatamente porque, sem perder a noção da discussão moral de sua época, acrescentou a ela uma uma investigação sobre os mecanismos sociais (e econômicos) pelos quais os pobres, num contexto global, produziam mais e ficam mais pobres, e os ricos, sem produzir nada ficavam mais ricos. Marx nunca tirou da cabeça a dialética do senhor e do escravo contida na obra de Hegel. Esta última conclusão, sobre a distância crescente entre ricos e pobres em uma sociedade sempre mais abundante, ainda é nossa realidade atual, segundo todos os mecanismos estatísticos internacionais (veja dados atuais). Sabendo disso, os homens, dentro do capitalismo, inventaram a contrabalança das chamadas políticas sociais – a inspiração social-democrata, a inspiração do liberalismo americano do New Deal, o comunitarismo americano etc. Nesse quadro, “o social” nos governos são instrumentos para que a injustiça do capitalismo seja amenizada – já que impossível de ser eliminada – e que então seja possível manter a legislação que faz da proteção da vida, do patrimônio e da liberdade de pensamento e expressão as bases da sociedade moderna, o legado deixado pelo liberalismo desde seu início, no século XVII, cuja expressão teórica melhor se fez pela obra de John Locke.

Dentro desse quadro, a injustiça do capitalismo é vista como estrutural, e convive com um sistema de direito, que considera crime o “assalto”, seja contra o patrimônio seja contra a vida ou seja contra a liberdade de pensamento e expressão. Marx jamais considerou fora do parâmetro do conceito de crime a “lei burguesa” de punição ao ladrão ou ao assaltante. Bandidos, mesmo anti-capitalistas, nunca se deram bem com o pensamento de Marx. Marx jamais foi contra o liberalismo nesse aspecto. Ele achava que o socialismo iria dar passos além do liberalismo, mas não destruí-lo. Talvez Marx até pudesse endossar a frase de Sloterdijk, “o liberalismo é muito importante para ser deixado nas mãos dos liberais”.

Marx poderia admirar a doutrina de Agostinho, e este, por sua vez, certamente encontraria pontos positivos na doutrina do filósofo alemão, mas nenhum dos dois teorizaram pela justificativa benévola, ainda que contextualizada, do assalto. É estranho aos inteligentes da esquerda a condescendência ao crime de assalto. O pensamento da moça, aqui referida, trabalha dentro de uma lógica um pouco esquisita: o Sol é quente, então, queimar pessoas faz parte da lógica do Sol, da Natureza, por isso mesmo posso submeter qualquer um a processos de alta temperatura. É isso: a lógica do capitalismo tem algo de perverso e, então, tudo que eu fizer de perverso, que se pareça contra tal ordem, deve ser elogiada ou, no mínimo, encontrar uma justificação. Esse raciocínio não tem a ver com o marxismo, é apenas uma forma de expressão do que Nietzsche chamou de aventuras do homem moderno, aquele prenhe de ressentimento. Bolcheviques se aproveitaram desse ressentimento. Hitler notou isso e criou o pensamento de extrema direita: hierarquia rígida para recrutar os ressentidos, dando-lhes cargos subalternos que eles nunca sonharam ter numa sociedade de concorrência, forjada pelo dinheiro e pela inteligência – a sociedade liberal.

Todas as vezes que vejo uma moça como esta, falando do assalto assim, percebo que nossas universidades possuem quadros de esquerda que não chegaram a ler Marx. Quadros de esquerda com certa tendência à violência que, no geral, vemos no fascismo, na extrema direita. No limite, pode-se dizer que há certo infantilismo nesse pensamento, afeito ao aparecimento de bandidos heróis, vingadores que irão “fazer justiça”. As mocinhas e adolescentes em geral podem achar mesmo que Pancho Villa era Antonio Banderas. Muita gente achou que Hitler, tomando coisas dos judeus ricos, era um justiceiro.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Antonio Banderas como Pancho Villa

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9 Responses “Uma professora “a favor do assalto”? O que é isso?”

  1. Matheus Caio Queiroz
    30/04/2018 at 01:01

    O que fica evidenciado na tese defendida pela Tiburi, tese da legitimação do roubo no contexto da lógica capitalista, é que, quando não a péssima leitura que se fez de Marx (se se fez, claro), a moça almeja angariar seguidores. Este teu texto, Paulo, é de fevereiro, mas agora pôde ter sua confirmação mais ainda pelo fato da idolatria que Lula, estando preso, ganhou mais do que já tinha de seus sectários da esquerda. O que eu lamento é a enxurrada de maldizeres da qual padece a imagem de Karl Marx. Digo isto antes como leitor do que seguidor de suas ideias, coisa que nunca fui por falta de interesse. Tiburi, uma mini-Marilena Chauí, peca tanto quanto Chauí pecou ao dizer, tresloucada, que Moro era treinado pela CIA (e outras loucuras mais). As duas, em menor ou maior grau de burrice ou má-fé, fazem esses papéis para agradar e angariar seguidores.

    • 30/04/2018 at 08:58

      Matheus, você pegou o ponto! É tudo isso. O mundo desses intelectuais midiáticos está se transformando num “parquinho de Pondé”. É claro que Chauí é culta e Tiburi não, mas de Chauí para seus discípulos sobrou isso só, não a cultura.

  2. Valdinei
    09/03/2018 at 12:14

    A maioria dos assaltados são pessoas que ralam para ganhar o pouco que tem. Ricos são raramente assaltados, pois raramente andam pelas ruas a pé. Os muito ricos, então, estão blindados ou se movem pelo ar.

    • 09/03/2018 at 12:37

      De certo modo sim, mas a questão do texto, você sabe, não é essa.

  3. Dick vigarista
    14/02/2018 at 20:37

    Ola professor tudo bem
    Muito inteligente os dois ultimos paragrafos,e fico muito feliz no fato que vc disse algo que nunca consegui externalizar.
    Fenomeno parecido acontece no ambito das religioes :muitos defendem ou acusam determinado segmento(cristao ,muculmano,umbandista) sem ao menos conhecer os pressupostos.Faz sua critica baseada em apenas achismos.
    Professor li alguma coisa sobre Bauman e achei interessante a abordagem do polones sobre a realidade liquida.Vc me recomenda leituras sobre o pensador.
    E o curso sobre o esloveno,possui algum pre requeisito
    Abs

  4. Ariel Lázaro
    02/02/2018 at 12:29

    O que esperar de uma filósofa que não consegue dialogar com um moleque militante?

  5. Fabrício
    01/02/2018 at 22:28

    Excelente análise, das duas, uma: ou a professora em questão leu Marx, de maneira superficial, ou os pressupostos filosóficos para a afirmação do vídeo não são de Marx, isto é, advêm de especulações de repentinas e de nenhum rigor lógico.

  6. Gabriel
    01/02/2018 at 14:38

    Alguns amigos meus de esquerda e defensores do Lula amam o personagem Coringa do Batman o Cavaleiro das trevas. Outra colega minha também mais a esquerda afirma que os judeus mereceram passar pelo que passaram pois muitos judeus ricos apoiaram a ascensão do nazismo. Não consigo concordar com eles. E não sabia que Marx não apoiaria tal atitude. Percebe-se a falta de leitura das pessoas.

    • 01/02/2018 at 18:25

      Gabriel, o livro de cabeceira de Fidel era “O conde de Monte Cristo”.

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