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18/11/2017

Todos nós somos Trans!


Em A força do querer , novela da Globo no horário nobre, o personagem Nonato, travesti, explica de modo reto e correto a sua diferença para com o transgênero: “eu sou travesti, idealizo uma mulher que há dentro de mim e aos poucos a produzo, não tenho nenhum problema com o meu corpo de homem, mas o trans é bem diferente, ele tem um pavor do seu corpo, ele não se identifica com seu corpo”. No sequência da trama e das cenas, surge a personagem Ivana, que está se reconhecendo como trans, explicando para a prima como que outros como ela deram solução para a questão da não identificação com o próprio corpo.

Só não entende quem não quer. Só não se sabe trans quem nunca pensou sobre a sua própria vida. Basta uma pergunta para cada um de nós, e o número de pessoas trans nos jogaria diante de uma estatística diferente, bem maior. A pergunta é esta: você nunca quis ter um nariz diferente, ou ser mais alto ou mais magro, ou ser moreno ao invés de loiro? E quanto ao sexo, não gostaria de tê-lo maior? Ou menor? E seus pés, sempre esteve contente com eles? E você, feioso, não gostaria de ter a chance de trocar de rosto? Se fôssemos todas pessoas fortes, e não bebês chorões e escondidos, daríamos respostas sinceras a tais perguntas, e entenderíamos claramente  que todos nós, os tais bípedes-sem-penas-de-unhas-chatas, em algum momento de nossas vidas, pensamos em fazer o que Anita fez: arrancou o nariz largo de linha afro e optou pelo nariz afilado caucasiano. Ser trans é um caso maior de ser transgênero. Não é propriamente com o pênis e com a vagina a luta do trans, é com a sua silhueta inteira, aliás, como todos nós.

Por que não podemos tirar um seio para criar um tórax masculino? Por que não podemos, como Michael Jackson, criarmos um perfil menos “afro”? Alguns vão invocar Deus e a sua ordem, outros, já mais acostumados ao século XVIII, vão invocar a Natureza e suas ordens. Mas uma boa parte invocará, para negar tais possibilidades, o peso não percebido do construtivismo disseminado, justamente a doutrina que pareceria mais favorecer os desejos trans. Grosso modo o construtivismo diz que somos produtos culturais. Então, se obedecemos isso, a Cultura passa a ser o novo Deus e a nova Natureza. Transforma-se em um tipo de História, como esta ficou no lugar de Deus nas mãos de Lênin e dos bolcheviques (curiosamente, os mencheviques e a social democracia defendiam a mesma coisa!). Assim, negar a etnia, a cultura, o clã, a tribo, a cidade, o ethos, o aspecto, a semelhança com pares etc., transforma-se em pecado no âmbito do construtivismo embutido sem criticidade. Índio sem pena na cabeça não é índio, assim pensa o de pouco inteligência. O trans é uma ofensa cultural, um desprezo à tradição, uma rejeição moral mais grave que a rejeição ao sangue familiar. O trans é, então, apatriótico. No limite, se ele nega o que ninguém diz negar, pode ser que fraqueje na batalha pela pátria, e por isso vai causar problemas nas Forças Armadas americanas, na conta de Donald Trump e seus fantásticos bolsonarizados assessores (mesmo que já esteja lá, sem causar problemas).

Mas a resposta dos meus opositores vem de imediato: “o problema é que o trans quer cortar o pênis e ter vagina, ou quer ter pênis no lugar de vagina!” E “isso não é como querer ter um pé maior ou uma orelha menos caída!”. Sim, claro! Mas isso vale se pensarmos que é a questão do pênis e da vagina é o que incomoda o trans, mas não é. O que o incomoda é sua silhueta como um todo, é sua biomecânica geral, que que não tem a “aerodinâmica” exigida pelo que ele imagina que é ou quer ser. A funcionalidade do corpo não lhe é funcional, e isso o faz repensar sua identidade buscada. O trans não é um obcecado sexual ou um perfeccionista doente, um virginiano adoiado. Se ele vai ou não mudar de gênero com um dado a mais, o de refazer órgãos genitais, isso não é o mais importante para ele. Isso vem no conjunto da obra. É um ajuste a mais. Nem sempre o principal. A novela tem deixado claro isso: os seios proeminentes são mais incômodos para Ivana que a falta de um pipi. E todo tipo de esportista mulher sabe disso e cuida bem, com técnicas atuais, para que os seios não se tornem um problema. Aliás, do mesmo modo que as esportista eliminam a menstruação. Aliás, cá entre nós, o mundo dos atletas deveria poder nos ensinar o quanto todos nós, bem pequenos, queremos ser trans. Tudo que um garoto quer é ter seu corpo adaptado melhor para as atividades físicas que lhe dão prestígio. Vivemos sem prestígio?

É errado querer ter asas e voar, se tudo indica que se pode voar? É errado ir em uma clínica e pedir que seu filho, que está para nascer, passe por tratamentos pré-natais, para não ter doenças típicas da infância que nós, os mais velhos, tivemos? Isso é o pesadelo de Habermas? Eugenia hitleriana? Ora bolas! As intervenções que fazemos em nós mesmos estão disponíveis e não deixaremos isso para outros. Estamos nos transformando uma vez que nunca fomos outra coisa senão trans, ou seja, até mesmo nossa condição de bípedes não nos foi dada! Darwin nos contou isso. E Jesus, na história do bom samaritano, endossou nosso modo trans. Pois trans é também trans quanto à moralidade. Mudamos de corpo exatamente para podermos ser plenamente morais, isto é, executar de modo melhor o nosso mores.

Vamos conseguir entender a nós mesmos o dia em que pensarmos em antropotécnicas de Sloterdijk como elemento de produção do bípede-sem-penas-de-unhas-chatas, e não com a metafísica dual que temos, que está sempre procurando o que há de estrutural no homem para ver o quer é o conjuntural. Uma busca em falso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 01/08/2017

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2 Responses “Todos nós somos Trans!”

  1. Hilquias Honório
    01/08/2017 at 17:20

    Boa! Eu não costumo gostar tanto quando a novela se propõe a fazer a defesa de idéias ou causas. Sempre me pareceu meio forçado. Mas devo admitir que essa está sendo didática, e o melhor é que com boa parte da população tendo acesso. Até expectadores mais conservadores estão ponderando a questão, dá pra perceber no dia-a-dia. Já eu, relendo os seus artigos sobre novelas, vou abrindo mais a mente.

    • 01/08/2017 at 17:35

      Sim, Honório, não é fácil acertar esse tipo de coisa. Em geral vira uma “educação moral e cívica”.

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