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16/12/2017

A Teoria Queer como a nossa última teoria


Este texto é indicado para o público acadêmico

Se uma mulher fosse estuprada e viesse a perguntar a Kant o que deveria fazer, ele não titubearia em lhe dizer que deveria se matar. A vida para Kant não era, de modo algum, a vida que Agamben chama de zoe, ou seja, a “vida nua” que, enfim, é a noção de vida com a qual a política moderna e nós todos trabalhamos hoje em dia. Kant era “das antigas”, ainda entendia a vida como bios, ou seja, como alguma coisa do âmbito ético. Estar vivo era portar uma ética; ser uma pessoa era ser honrado. Uma vez desonrada, a mulher já estaria, por si só, sem vida. Matar-se seria uma necessidade para que não viesse a se tornar um zumbi.

Kant foi o último filósofo a negar uma das marcas centrais da modernidade: aquilo que, mais tarde, Foucault chamou de a biopolítica, e que já estava funcionando no tempo do filósofo de Königsberg. A biopolítica de Foucault é a entrada da noção de vida na política, no sentido de “vida nua” – a vida animal ou zoe, na lembrança conceitual de Agamben.

Podemos notar que ao considerarmos a vida como elemento primordial da política, passamos a fazer políticas de caráter social democrata, procurando melhorar as chamadas “condições de vida” das populações. Mas essa é uma visão otimista. Agamben prefere falar da visão menos gloriosa. O advento da vida como “vida nua” significou tomar a vida como o que está reduzido ao que não se envolve com nenhuma dignidade. Desse modo, o estado moderno é aquele que, no limite, fazendo bem ou mal aos indivíduos, vê a todos como habitantes do campo de concentração. Neste, a vida conta pelo arrastar-se do corpo, não por qualquer traço de dignidade. Nesse caso, estamos a mil anos luz da vida dos antigos. No caso dos antigos, estar vivo era estar laureado. Mesmo o escravo, ao ter a sua função na polis, não estava reduzido à “vida nua”, ao corpo tomado pela sua condição de  vivo a partir de sua função respiratória, e tão somente por isso.

Se assumimos essa claúsula de Foucault-Agamben para a descrição da modernidade, então podemos entender também a razão pela qual o indivíduo moderno deixou sua condição de sujeito, antes preso à consciência, vir parar no corpo. Não à toa a sua pele tornou-se a sua única roupa.

O revestido anatômico torna-se sinônimo de indivíduo, e a própria noção de pessoa – o sujeito ético-moral – perde sentido, mantendo-se no vocabulário por hábito e inércia. Os ricos continuam vestidos, mas estão tão sem qualquer cobertura quanto os pobres. Não voltaram à condição paradisíaca, angelical, quando podiam andar nus diante de Deus. Mas, ao contrário, foram transformados, junto com todos, em decaídos que perderam até mesmo a cobertura de folhagens posta para proteger as chamadas, até bem pouco tempo, de “partes íntimas”.

Em uma “sociedade da transparência” (Byung Chul-Han), onde há estatuto ontológico só para o que é parecido com uma vitrine, e numa “sociedade do espetáculo” (Debord), onde o estatuto ontológico derruba a dicotomia ser versus ter para eleger o império do aparecer, tudo caminha sob novas regras. A própria ética e a “ética da transparência”. O corpo nu é um imperativo. Nesse sentido o último refúgio da estética é a tatuagem e o último estágio da ética é a Teoria Queer.

Assim, por razões éticas construímos nossa derradeira teoria social, aliada do feminismo. Eis a nova acepção sobre nós.

O corpo, que se mantém como a marca do que é sexuado, é tão construção social quanto o gênero. Este, sabe-se no contexto dessa teoria que, diga-se de passagem, soa bem razoável, é gerado de modo a ser uma construção, o que assim se realiza pela “performatividade da linguagem” (Austin), pelos “discursos” (Foucault), pelas “re-significação” (Derrida), tudo ao modo como Judith Butler falou. Sendo o corpo o que resta de cada um de nós, os vivos, ele também passa pelo mesmo processo do gênero. O sexo segue as ordens de construção do gênero e tudo conflui no corpo. A própria materialidade corporal, se reduzida à mera zoe, busca se salvar dizendo para todos que ela ainda não está totalmente reduzida, e que não é sua culpa tudo que ocorreu, tudo que se mostra como seu destino. As coisas ocorreram à sua revelia. Se a vida foi reduzida à vida corporal enquanto vida animal, um último suspiro em sentido contrário seria dizer: eis que há ainda uma derradeira dignidade, que é ser diferente, esquisito, vilipendiado pela condição de objeto corporal, ou seja, a condição de “corpo abjeto”, esse conceito bem útil de Júlia Kristeva.

Corpo abjeto. Um conceito que vem a calhar para o final dos tempos. Somos drags, gays, travestis, lésbicas ou simplesmente surdos. Somos também disformes, gordos ou magérrimos, “negros para além da conta”, hermafroditas, anões transsexuais, Wonder Women ou seja lá como ainda podemos nos apresentar como sendo pessoa. Se somos só corpo, voltamos à carga com sujeitos éticos, como pessoa, por meio do corpo que ainda possa, pela via queer, ser tomado como … humano!

Se interpretamos a modernidade como Agamben nos diz que podemos, então a Teoria Queer é menos que um instrumento cognitivo e mais uma reação de um último estágio do niilismo, a última reação valorativa, o dia final da ética. O queer é aquele que pede dignidade ainda que já não tenham nada a pedir, a não ser seu próprio corpo na situação de precariedade e ao mesmo tempo exuberância, um corpo que só está vivo pelo conceito moderno de vida, o de “vida nua” – mas que está vivo!

Podemos tomar com um ganho a Teoria Queer, mas não há razão para não vê-la, também, como um passo nosso para a beirada do precipício niilista, se é que podemos dar alguma razão a Nietzsche e Heidegger no modo que traçaram suas filosofias da história.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 06/11/2017

Doutor e mestre em Filosofia pela USP. Doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. Bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil.

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4 Responses “A Teoria Queer como a nossa última teoria”

  1. Eduardo Rocha
    08/11/2017 at 16:50

    O Estado moderno como um campo de concentração significa dizer que o Estado agora adota uma racionalidade política que virou biopolítica. Vemos seguros, clínicas, prisões, aposentadoria, licença médica, previdência, seguridade social (uma espécie de regulação da vida para a morte iminente) e como isso pode afetar elementos burocráticos estatais? O homem passou a ter o corpo escaneado tanto que o importante são os conhecimentos técnicos e científicos do indivíduo como no Nazismo. Um Estado que leva a sério gestão e administração da população, planejamentos estratégicos da vida socioeconômica ou como isso pode afetar o Estado financeiramente e administrativamente. A vida enquanto zoé é estar morto socialmente e estar vivo ou simplesmente viver a vida enquanto elemento biológico, ou seja, o corpo deve estar posto sob a disciplina para a produção. Nesse caso, isso só não foi possível agora pensando em Welfare State como uma superabundância, numa sociedade cada dia mais “ligeira” e aos poucos com tempo livre? E a busca por reconhecimento fica presa somente ao corpo já que o thymos agora é um órgão do corpo, e mesmo eu seja uma parte da alma a alma não está no corpo? E o Thymos não pode dar identidade-reconhecimento novamente, principalmente a social?

  2. Daniel
    08/11/2017 at 14:15

    Na teoria Queer, podemos ver então pelo menos duas questões. Uma questão é sobre a valorização da identidade moderna, pela diferença, pela diversidade. Mas também temos a questão do niilismo que Nietzsche atenta, e nesse caso, as transformações corporais sem estarem ligadas a um ethos, traduzem a lógica moderna niilista do novo, do corpo como aquilo que pode ser atualizado.

  3. Matheus
    08/11/2017 at 13:38

    Paulo, estaria equivocado dizer que essa é a última ontologia do ser humano?

    Ou a ontologia estará sempre mais preocupada com a substância/Deus?

    (Pergunta de leigo no texto para acadêmicos rsrs)

    • 08/11/2017 at 14:24

      Matheus, nem toda ontologia e substancialista, claro.

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