Go to ...

on YouTubeRSS Feed

21/10/2018

Sujeito clássico ou grupos de pressão?


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Os europeus são filósofos, os americanos não. Essa velha crença do senso comum ainda continua corrente. Essa crença, na sua quase verdade, nubla o ambiente e não nos deixa ver sua mentira.

Foi Alexis de Tocqueville, em A democracia na América (1835), quem expôs o retrato mais justo dos americanos quanto à filosofia: “Creio que não há, no mundo civilizado, país em que o povo se ocupe menos de filosofia que os Estados Unidos. (…) a América é, pois, um dos países do mundo onde menos se estudam e em que melhor se seguem os preceitos de Descartes”. O que Tocqueville quer dizer é que o americano desdenha a especulação, o espírito de sistema, e busca sempre avaliar tudo quase do zero, e a partir de sua própria razão. Nisso, então, sem erudição, cumpre o espírito do príncipe do Iluminismo.

É necessário levar a sério essa observação de Tocqueville. Essa sua observação é ponto de partida para compreender o quadro atual da filosofia acadêmica no Ocidente. E também tem muito a ensinar sobre o quadro das atribulações da filosofia política atual, e até mesmo sobre o panorama cultural geral do Ocidente.

Esse modo individual, essencialmente voltado para a práxis cotidiana, traçou a maneira como hoje a “questão do sujeito” é vista, e como que as disciplinas filosóficas atuais, nos quadros de nossas faculdades de filosofia, se distribuem. Em suma: faculdades de influência anglo-americana falam de “filosofia da mente”, e menos de “subjetividade”. O indivíduo pensante enquanto eu ego é importante para os americanos. Quanto a franceses, alemães e italianos, o mais importante é o sujeito. Qual a diferença?

Sujeito vem do grego hipokeymenon, que significa “estar em baixo de”, depois traduzido para o latim subjectum, que é o que subjaz, mas como uma suposição última – o que supõe a si e não tem mais nenhum suposto ou pressuposto. Assim, o sujeito é o sujeito gramatical, a base para qualquer predicação, o “ser que é dito e do qual se diz algo”. Heidegger foi quem melhor notou que essa metafísica veio a se transformar numa “metafísica da subjetividade”. “Acreditamos em Deus por que acreditamos na gramática” (Nietzsche) veio a se atualizar no “acreditamos no homem porque nossa gramatica se laicizou, mas não se dessubstancializou”. Com o humanismo moderno, o sujeito – o suposto que supõe a si – passou a ser a base ou fundamento enquanto pensamento consciente, ou seja, o pensamento de si (o ego) e a instância responsável pelos seus atos. Levando em conta uma tal definição, temos que a subjetividade se revela na união de três elementos: consciência e autoconsciência; o eu na sua ipseidade (uma identidade que não é a identidade A = A, mas Eu = Eu); a capacidade de desinibição a partir de justificação ou autojustificação, a autonomia.

Ora, os estudos em “filosofia da mente” estão sempre mais preocupados com as duas primeiras características da subjetividade, e pouco usam o termo “subjetividade”. É o modo anglo-americano de abordar o tema. Os estudos sobre a “questão do sujeito” são mais próprios de franceses, alemães e italianos, tematizando a subjetividade pela sua terceira característica, a do protagonismo prático, ou seja, ético – as feições da autonomia.

Por que os americanos não se preocupam com a subjetividade a partir daquela terceira característica do sujeito, que parece a central a europeus? A resposta, se levarmos em consideração os ensinamentos de Tocqueville, pode ser esta: a América vê o self made man como o natural, o corriqueiro, o destino do homem que é homem. Não há necessidade de estudo sobre o corriqueiro que é o corriqueiro, que então deveriam sustentar projetos para a criação de algo. Diferentemente, na Europa, a ideia do homem que é palco e ator, que deve assumir o protagonismo, sempre será um projeto. O self made man não nasce espontâneamente na Europa, então, é necessário tematizá-lo, estudá-lo – em uma palavra: propô-lo.

A Europa sempre terá que se libertar de seu passado eivado em hierarquias nada democráticas. Os Estados Unidos sempre terão de lidar com hierarquias que não se justificam perante sua própria Carta Magna.

Assim, se um filósofo americano como Richard Rorty, que diferente de seus colegas ousa utilizar o termo “sujeito”, ao falar deste o denomina simplesmente de “rede de crenças e desejos”, um filósofo francês como Alain Renaut, diferentemente, pode dizer que “sujeito é aquele que é consciente de seus pensamentos e responsável pelos seus atos”. Um filósofo alemão como Peter Sloterdijk, por sua vez, diz que “ser-sujeito significa tomar uma posição a partir da qual um ator por passar da teoria à prática”, o que ocorre quando o ator encontra “o motivo o que liberta da hesitação e o desinibe”. O caráter heróico de protagonista, de pensador consciente e fazedor responsável, que é o sujeito na conta de europeus, no mundo moderno define o homem que se deseja. Tem-se aí o ideal de homem. Ora, o self que pode ser sinônimo de instância subjetiva, na conta de americanos, é também o retrato do homem, mas exclusivamente como retrato – não como um sonhado empresário, o homem do empreendimento e do risco. Em terra em que  o self made man existe na literatura aos borbotões (reais ou ideológicos, tanto faz), não é necessário projetá-lo ou desejá-lo. Americanos vivem desejos da filosofia, não especulam sobre eles, ensinou Tocqueville. Ele disse isso muito antes da filosofia propriamente americana, o pragmatismo, ter se formado.

O vocabulário dos grupos no campo da filosofia política americana e na filosofia política europeia seguem as consequências dessa divisão na escolha do que é importante no âmbito da subjetividade.

No Estados Unidos, país em que a política de grupos de pressão – “minorias” – é tão ou mais importante que a de classes sociais, fala-se sempre em identidade. Fukuyama e Charles Taylor tinham a América na cabeça ao falarem da atualidade da visão de Hegel, que pensa a política pelo reconhecimento, e daí a necessidade de identidades grupais bem delimitadas. Na Europa a política de grupos aparece aos intelectuais e aos governantes como estranha. O desenvolvimento do pensamento político europeu moderno sempre se fez pela ideia de classes sociais e de buscar, então, o sujeito das classes. Quem é o sujeito da história? A burguesia ou o proletariado? Há outros sujeitos? Quando agora, europeus são obrigados, por pressão do feminismo americano, a conceder maiores direitos às mulheres, e por pressão das ondas migratórias mais recentes, então notar as diferenças entre os grupos de imigrantes, eles  ficam perdidos. Procuram o sujeito para encontrar o homem, na sua versão clássica do resto da “metafísica da subjetividade”. Não o encontram! Pois agora o europeu está diante do fenômeno do multiculturalismo americano! Neste, vale identificar indivíduo e grupo, e não achar protagonistas causadores.

Claro que do lado da América há o que se notar de recíproco. Não raro o Partido Democrata se vê sem chão, não sabendo se deve fazer política com o velho sujeito da história (o operariado) ou se deve fazer política a partir dos grupos de pressão de todo tipo, que preenchem a cena mais visível da política popular americana. O Partido Democrata americano olha para seus colegas europeus, os partidos social-democratas, e não os entende, parece que eles ainda funcionam segundo a “política de classes” e segundo a ideia do sujeito protagonista – assim pensa o americano. Na última campanha presidencial americana, pode ser mesmo verdade que o Partido Democrata tenha perdido por ter se preocupado muito mais com a “negra lésbica gorda” que com o operariado empobrecido, que em alguns lugares caiu nas mãos da retórica do populismo de direita.

Tudo isso se resume assim: Indivíduo identitário ou sujeito histórico? Essa questão está no fio da navalha chamado Atlântico, que divide o Ocidente. Ela também é o centro da política prática e da comunicação. Se as políticas públicas devem elaborar projetos de comunicação para seus beneficiados, e se esses beneficiados devem forjar ou ter canais de comunicação e discursos bem recortados, então temos de saber se vamos lidar com grupos de pressão, ou seja, minorias, ou se vamos lidar com classes, ou seja, com projetos que ainda lembram a ideia mais europeia  de sujeito. Nesse terreno, todo cuidado é pouco.

Não podemos nunca nos esquecer que na América a literatura foi do individualismo de Emerson para os X-Men de Stan Lee, enquanto que na Europa Os Miseráveis de Vitor Hugo é o grande clássico sobre os tempos modernos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. 14/03/2018 Jaguaré, São Paulo

Figura: uma das gravuras da série “We the people”. Veja aqui: https://amplifier.org/wethepeople/

Tags: , , , , , , , , , , ,

5 Responses “Sujeito clássico ou grupos de pressão?”

  1. Thiago carlos
    14/03/2018 at 18:04

    O movimento gay começou nos EUA caro energúmeno S Michaelides

  2. Leandro
    14/03/2018 at 15:39

    Ghiraldelli, obrigado pela generosidade explicitada na clareza do seu texto. Algumas questões ficaram mais assentes, para mim, no tocante “indivíduo”x”sujeito”.

  3. S Michaelides
    14/03/2018 at 13:39

    Por isso que a Europa está se afundando em um lamaçal de lixo orgânico. Aliás, foi dela que saíram recentemente pseudo movimentos libertários e igualitários, como o LGBT(u, v, x, …), que criaram mais problemas sociais do que a taxa de juros impostas por bancos privados, por exemplo. Uma coisa útil restou, pelo menos, na verdade é o que a sustenta até hoje, uma viagem de férias de um mês que servirá para… Para o álbum, ora. A Europa de hoje não se sustentará vivendo da época de ouro do passado, passado este que não a pertence mais. Vienna? Enfim, como maximizou G. Washington: “Let your discourse with men of business be short and comprehensive”. A Grã-Bretanha, pelo menos, já entendeu que não dá para continuar com o discurso transce-neardental monista de unificação desses pensantes europeus apoiados por bancários.

    • 14/03/2018 at 15:03

      Meu artigo nada diz para que você faça esses comentários.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *