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19/08/2017

A subjetividade da sociedade sem tempo


Uma maneira de tratar Deus de modo a fazê-lo menos louco é tirá-lo do tempo. Boécio e Agostinho assim agiram. Deus não vive o nosso passado, presente e futuro, elementos que estão a cada dia juntos em cada uma de nossas percepções. Desse modo, Deus não convive com o problema que colocamos para ele, que é o de prever coisas ruins e, no entanto, deixá-las acontecer.

A filosofia é uma tentativa de tornar o homem alguma coisa perto do divino. Desse modo, a filosofia sempre foi inimiga da história. Esta se envolve com o tempo, aquela procura encontrar uma passagem para que o homem transcenda o espaço e tempo. Buscamos na filosofia aquilo que a modernidade nos deu, ainda que de modo diferente, o que queríamos para sermos deuses. Abolimos o tempo.

A abolição do tempo pela filosofia seria um ato de transcendência. A abolição ocorrida se fez por uma série de atos de descontrole amarrados na noção que é a de anti-tempo: o imediatismo. O tempo forma a tradição, a revolução e a reforma. O imediatismo nos vincula à moda. A moda que não mais segue o tempo, mas o destrói,  é que rege a modernidade que vivemos. A moda só finge estar afeita às estações, ela é mandada pelas marcas e estas, por sua vez, obedecem ao imediatismo cujo príncipe é o celular ligado à Internet, às redes sociais, ao mundo da simultaneidade. Tudo ocorre para ser visto por todos no tempo que ocorre. A moda é modinha. Imediata. Funciona ao sabor da luta de marcas. “I love Brand” é a frase que define a nossa modernidade.

Os acontecimentos ocorridos em simultaneidade, imediatos e, por isso, sem tempo, estão sob o olho das marcas, a nova mercadoria. Essas marcas então lançam a moda instantânea, para manter o consumo avolumado aceso no contexto da carnificina do branding. Funciona mais ou menos assim: em um movimento de protesto na Romênia as pessoas saem vestidas com uma faixa vermelha na blusa, e simultaneamente isso é visto pelo mundo todo que, por sua vez, quase que espontaneamente, adota a faixa, incorporada à camisa – eis a moda posta, e já também sem perda de tempo é apropriada pelas marcas.

Essa imediaticidade que serve não à moda, mas ao mundo que então se torna homogeneizado pela moda, é a mesma imediaticidade que adentra nossa subjetividade. Todos possuem pressa de viver as identidades distribuídas pela moda. Cada um assim age de modo a poder dizer novamente que está sentido algo, que tem sensibilidade, que merece estar no mundo. Um mundo sem deuses busca o homem como deus para que tudo volte a ter sentido, mas então encontra não o homem, mas os acontecimentos do mundo sendo explicados pelo uso, pela moda feita por cada marca que, desses acontecimentos, arranca um slogan, uma cor, um design, uma performance.

Também os acontecimentos da ficção servem para o mesmo consumo: quando o Capitão América morreu em uma das HQs, apareceram camisas com o seu escudo, somente o escudo, no mundo todo. Isso ainda era uma mercadoria. Hoje, falaríamos da “marca da camisa do escudo”. Todas as marcas estão envolvidas em campanhas sociais ou ligadas a algum projeto de referência literária. Tudo muito ao gosto da política liberal de respeito humano, animal, social e ecológico, ou então diluída no sentimentalismo ou na produção de ícones humorísticos. É uma moda para escolarizados. Mas são justamente os escolarizados, os da sociedade da abundância, que vivem a imediaticidade. A sociedade dos apressados.

Pegue seu celular e consulte as marcas famosas que tornam cada um de nós um ser vivo – faça isso agora. Coma, vista-se, dirija e ame segundo o mundo do império do sem tempo, ou seja, da moda requalificada pelo império das marcas.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 22/03/2017

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2 Responses “A subjetividade da sociedade sem tempo”

  1. CBC
    05/04/2017 at 16:07

    Paulo, o que vc pensa desses movimentos de ocupação? São uma performance, mas que busca espaços de conversação e tem uma reflexão como base da ação ou são mais um movimento de moda? Haveria que se distinguir entre ocupações que estão no primeiro tipo e depois ocupações que, dada a subjetividade de pele, obviamente seriam modas?

    • 05/04/2017 at 19:33

      Depende da ocupação! Não sei a que você se refere.

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