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27/07/2017

Somos todos terroristas – sociedade contemporânea e individualismo a partir de Buyng-Chul Han e Peter Sloterdijk


O terrorismo é um ato em busca de autenticidade. O filósofo germano-coreano Byung Chul Han endossa essa tese. Mas, o terrorismo também é provocado pelo excesso de leveza e consequente reação em busca de reoneração. Penso que o filósofo alemão Peter Sloterdijk endossaria essa tese.

Nos resultados, essas teses possuem pontos em comum. Autenticar-se é mostrar-se como sendo o que se é, com uma identidade que merece atenção. O terrorista é alguém que sabe que finalmente terá atenção ao detornar um prédio e/ou detornar-se. Finalmente, então, será ele mesmo – autêntico. Reonerar-se ou adquirir peso é descer à realidade, ter os pés nos chão. Fazer acontecer e trazer outros ao acontecer é função de quem recupera onerações identitárias, agora, as de realizador de destinos. O terrorista readquire presença no chão do mundo, na realidade, pois faz reaparecer a dor. Em ambos os casos, autenticação e reoneração, o mundo midiático é o que o terrorista elege como realidade, e é por este que seu impacto de espetáculo se torna realidade e faz dele próprio alguém real. O mundo real é imagem, mas nesse caso uma representação especial.

Autenticação e reoneração agrupadas à midia: eis os elementos do terrorista para que ele saia do vazio e do entorpecimento e retorne de onde estava para a vida – a “vida real”, como ele a entende. Podemos substituri a palavra terrorista pela expressão homem contemporâneo ou, melhor dizendo, o jovem contemporâneo nas democracias ocidentais liberais. De certo modo podemos até, com alguma coragem, dizer: nós somos esse terrorista, em algum grau. Cada um de nós precisa, em algum momento, para  sentir a própria presença, dizer-se autêntico, ou mostrar-se com algum peso social e, então, para tal, em nossa atualidade parece que temos de  causar algum escândalo ou alguma dor relativamente geral. Hoje em dia cada um tem sua mídia para assim agir e seu círculo de “realidade” recuperado ou fixado.

Autenticação. “Qual a minha virtude? Ora, eu sou autêntica. Eu fui todo o tempo aqui eu mesma, sem fingir”. Assim fala de si a integrante do reality show BBB, da TV Globo. Reoneração. “Ele tem um peso no time, sem as investidas dele as coisas se complicam”. Assim fala um comentarista de futebol ao analisar a participação de um jogador. Alguns chegam mesmo a usar a palavra “agressivo”. “Fulano de tal é agressivo no mercado, faz as coisas acontecerem”. “Fulano de tal detona”. Detornar – significativo esse verbo, que ocupa parte dos discursos populares de nossa época.

Desse modo, ser gente comum é ser terrorista nos tempos contemporâneos. “Ele está causando” – dizem. A condição normal e cotidiana de vida exige que todos possam “botar terror”. Fora disso, sentem-se desaparecer. Essas condições são descritas em gênese e explicadas de modo diferente em Byung-Chul Han e Peter Sloterdijk.

Han nos dá um quadro estático, Sloterdijk nos dá um quadro mais acentuadamente genealógico. Mas ambos tomam personagens especiais como exemplos para desenvolverem suas teses. Para a discussão da autenticidade como problema, Han escolhe Sócrates. Para a discussão da leveza, ou seja, a desoneração, Sloterdijk encontra Rousseau, e para a reoneração lembra dos jesuítas e seus herdeiros, os consultores de todo tipo.

Han diz:

Os discípulos de Sócrates que o amam o chamam atopos. O outro a quem desejo está desorientado. Não tolera nenhuma comparação. Em Fragmentos de um discurso amoroso Roland Barthes escreve sobre a atopia do outro: ‘Atopia, o outro faz a linguagem se agitar: não se pode falar dele, sobre ele; todo discurso é falso, torpe, mortificante.’ Como objeto de desejo, Sócrates é incomparável e singular. A singularidade é alguma coisa totalmente distinta da autenticidade. A autenticidade pressupõe a comparabilidade. Quem é autêntico, é distinto dos demais. Porém, Sócrates é atopos, incomparável.  Não só é distinto dos demais, é distinto de tudo que é distinto dos demais. [1]

A atenção para com o atopos, a partir de Sócrates, é um bom exemplo. Sócrates se diz cidadão de Atenas, tendo saído da cidade só duas vezes, ainda assim, por obrigações militares. Todavia, quando se faz necessário, como no Timeu, falar do funcionamento da cidade ideal, ele recua e deixa a vez para o estudioso disso, o próprio Timeu. Mostra-se como quem não tem lugar, como que estando fora de orientação em um espaço já traçado e, por isso mesmo, pouco capaz de falar de como é viver na cidade ou explicá-la em seu melhor. Essa ideia de atopia é bem aproveitada por Barthes e, ao seu modo, por Han. Trata-se de procurar o distinto que é distinto de todos os outros distintos. Mira-se antes o singular que o autêntico.

A autenticidade se faz quando há elementos que se parecem, e que então clamam por comparações várias de modo que aquele não falseado emerja. Dessa forma, como Han de fato explica, a autenticidade é filha da comparação. Segundo ele, nossa sociedade atual é comparativa. Ele chama uma tal sociedade de “neoliberal”, e penso que, com esse termo, não está dizendo nada além do seguinte: a sociedade capitalista contemporânea é aquela em que a linha de produção obedece o consumo, e este, ao procurar ser consumo em grande escala, se torna finalmente um consumo do que é diversificado. Basta uma troca de carbono em sua fórmula química para que um desodorante derive outro. O primeiro, mais famoso, se diz autêntico, o outro serve como cópia e deverá ter um preço mais baixo, para os menos ricos. Após isso, se o segundo se fixar também no gosto das classes médias, pode abandonar seu caráter de cópia, vir a ser um original autêntico de sua própria marca. Essa diversificação das marcas de produtos-mercadorias para o consumo (o que não implica em várias fábricas mas, ao contrário, um certo caráter monopolista), segundo essa fase do capitalismo que começou no início do século passado e que agora é regra inexorável, se expande para além de desodorantes, caixinhas de leite, geladeiras, carros e até serviços. Adentra as atividades das pessoas.

Nesse sentido é que as pessoas deixam de lado o caráter para falarem em personalidade. Persona é máscara, então, qual máscara estou usando que é mais próxima do meu rosto? Ou a máscara que estou usando já é meu rosto e, então, sou atêntico? Se sou autêntico, sou virtuoso. Mas para ser autêntico, me coloquei na condição de comparável, portanto, diante de algum mecanismo de igualação. O mercado “neoliberal” é o campo dessa regra: todos querem ter um eu autêntico! Mas ser autêntico é ser autêntico para alguém, para todos, e causar  a realidade com essa tal autenticidade. O terrorismo de cada um começa quando cada indivíduo, no relativo isolamento dentro de multidões, faz com que cada um pratique algum ato para se fazer autêntico, se mostrar autêntico. Os atos menos nobres, nesse caso, por serem da ordem do espetaculoso, ganham mais ênfase. Autenticidade na base do mercado atrai a ordem que já conhecemos por conta de uma tal sociedade, a da visibilidade e transparência[2].

Han chega a dizer que essa busca por autenticidade favorece certo narcisismo. Cada um quer que o mundo seja seu espelho, esteja voltado para ele e o reflita. Mas essa busca de autenticidade é também, segundo ele, o campo no qual o apelo pela diversidade “neoliberal” aflora. Pedir diversidade é, para Han, sintoma dessa sociedade “neoliberal”. Pois o diverso cai no âmbito dos muitos que são comparáveis. Não se trata aí de admitir a alteridade como negativa, mas sim clamar pela diferença que, permitindo o trabalho da igualação para efeitos de comparação, abre espaço para que cada um diga que é autêntico, que não falseia. Ora, estamos de fato cansados de ver a pluralidade da sociedade contemporânea eleger a democracia liberal com o seu campo e com o seu paraíso obrigatório. Mas cada elemento da diversidade convive com o outro permitindo o igual, a comparabilidade, todos no mesmo plano, portanto.  O outro como negativo, como contrariedade, como aquele que ajuda mas também critica, como o que se mostra digno de ser, como Sartre diz, o “inferno”, este não é colocado em uma sociedade como a nossa. Somos uma sociedade de tribos e diversidade, mas sem a admissão de um Sócrates. Ora, mas tambem Atenas, a democracia que não conheceu o liberalismo, não admitiu Sócrates! Isso pode desautorizar um pouco o uso do termo neoliberal, por Han, mas não invalida sua ideia.

Han denuncia essa situação não por ser contra a diversidade, mas por entender que nela se esconde a igualdade de tudo com tudo e, sem o outro, promove o surgimento de uma subjetividade esvaziada, que não sabe bem seus limites, depressiva, que então reage fazendo acontecer o terrorismo, ou seja, a causação enquanto projeto de autenticidade. E a palavra terrorismo, nesse caso, vale em todas as acepções do termo.

Peter Sloterdijk, por sua vez, ao trazer Rousseau e os jesuítas para a cena, também está interessado no problema da falta de alteridade. Rousseau é o homem que anuncia a existência enquanto desoneração completa. Uma vez no Lago Biel[3], o genebrino entra na condição do homem que devaneia, que sem pensar em nada pode então “sentir” sua existência. Não penso, logo sou, é a conclusão rousseauniana.[4] Rousseau foge de qualquer alteridade para encontrar-se. Mas não quer se encontrar como eu pensante, e sim como eu que, completamente desonerado, descompromissado, pode sentir-se existindo. Mas essa experiência de liberdade, Sloterdijk avisa bem, ainda não é a experiência de liberdade que, também moderna, vem com os empreendedores, os aventureiros e homens de ação.

Nesse segundo caso, os primeiros homens modernos são antes os jesuítas, os que se preparam ferreamente na obedicência, na disciplina e na posse de razões, e assim podem se portarem como sujeitos. São eles que dão as cartas ao mostrarem que possuem justificativas para agir, e mais, mostrarem também que, se tiverem dúvidas, ainda podem consultar o papa, ou o papa neles interiorizado. Se o sujeito é, por definição, aquele que passa da teoria à prática, e sabe se desinibir para tal, então eles são os sujeitos. Além dos mais, também são os sujeitos ao perceberem que nem todos podem se comportar como eles, e que, então, estes deverão recorrer a eles, se servir deles. Ora, a Igreja nunca disse outra coisa que não isso: o sacerdote existe para servir.[5] No fundo, sempre souberam os padres que governa quem serve. Passam a servir muitos, lhes dando razão para a ação, ou justificativa para o que já fizeram. São os protótipos daqueles que, nos dias de hoje, que são dias da sociedade desonerada e leve, funcionam como consultores. O casuísmo – combatido por Pascal contra os jesuítas – talvez seja a origem da consultoria.[6]

Sloterdijk traça um quadro de nossa época a partir da visão de uma sociedade que faz a “virada para o indivíduo” junto de uma crescente desoneração, provocada pelo combustível fóssil e, com este, pela enorme produtividade do trabalho que tirou o homem de sua horizontalidade, colocando-o cada vez mais numa direção vertical, num trabalho antigravitacional. Nasceu com isso a “sociedade da abundância” e a possibilidade de se ter uma verdadeira sociedade do consumo, onde o virtuoso é o filho pródigo. Nessa sociedade gasta-se por dever cívico – isto é ser moderno.

O homem atual se vê não esvaziado exatamente como Rousseau, que foi ao Lago Biel voluntariamente para tal. O vazio do homem moderno é devedor das condições de leveza para as quais foi empurrado, carregado, jogado. O homem moderno acorda sem se preocupar com doenças, trabalho muscular pesado, riscos de vários tipos – e até mesmo os pobres podem usufruir disso em nossa sociedade atual, ou ter algo assim como parâmetro, dada a capacidade enorme de mimo de nossa época. “Os homens modernos se vangloriam de terem inventado a felicidade”, diz Nietzsche. Ora, agir como sujeito em uma situação asssim põe o homem a procurar razões em si mesmo e, não raro, nada achar, e então vir buscar a indústria da consultoria para continuar a se auto-proclamar sujeito. Do coach ao guru midiagogo passando pelo palestrante de auto-ajuda ou coisa parecida, todos podem dar conselhos para um pseudo-sujeito se acreditar sujeito.

Na nossa atualidade, então, no projeto de reoneração que cada um escolhe para si mesmo, podemos ter diferentes complementos para um eu esvaziado ou um eu com completo desvalorizado. Há na condição de colaborador o ideólogo do tipo do intelectual pré 1968, ou então o atual consultor de empresas, ou ainda o agente de entretenimento. Nos três casos, pode-se pensar no homem atual como aquele que se reonera por meio do incentivo ao terror, da bomba no corpo à agressão na internet, sendo que em ambos os casos o que se busca é o peso gravitacional que os esportes radicais tiram e recolocam em sucessões de tentativas de reavivamento de cada um. O importante é não ir como Ícaro indefinidamente para o céu, por conta da leveza atual e por conta dos inúmeros incentivos exteriores de próteses de sujeitos. O mal de Ícaro não foi morrer, mas morrer sem se tornar pesado, sem ter saído nos jornais ou na Internet. Em tudo isso, há sempre o sentido de que se é sujeito, indivíduo autônomo. Sloterdijk diz bem: em nossa época “é soberano aquele que decide em que armadilha quer cair”.[7]

Podemos voltar agora à autenticidade em sua comparação com o  excesso de leveza e consequente busca de reoneração. Apesar dos pressupostos diferentes de ambas as teorias, parece plausível dizer que o terror, ou seja, o ato pelo qual há um simbolismo de acontecimento em cena, é o que é comum, e é o que vemos no campo social se queremos encontrar a subjetividade atual. O jovem precisa “fazer acontecer” de modo a ser autêntico, por uma via, ou ter peso, “cair na real”, por outra via explicativa. Mas nenhum dos casos mostra um desenvolvimento que não leve a espasmos – daí a ideia de terror, e não simplesmente a ideia de façanha. O terror nunca é falso. O terror nunca é leve. Quando o terror não mata ninguém, mas ocorre como ato que é anunciado, ele já cumpriu seu desiderato. Não há nada mais próprio  que isso, o terror, para qualificar o que ocorre com o homem atual.  O mundo é dos que se mostram autênticos, ou seja autênticos balões, que explodem lá no alto, podendo recuperar peso e vir incendiar florestas aqui em baixo.

Paulo Ghiraldelli  é professor, filósofo e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). É professor pesquisador convidado na Faculdade Paulo VI, da Igreja Católica, em filosofia.

[1] Han, B.C. Die Austreibungen des Anderen. Frankurt am Main: S. Fischer Verlag GmbH, 2016, cap. 3.

[2] Han, B C. Transparenzgesellschaft. Berlim: MSB Matthes & Seitz Berlin Verlagsgesellschaft mbH, 2012.

[3] Sloterdijk, P. StreB und Freiheit. Berlin: Suhrkamp, 2012.

[4] Ghiraldelli, P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Vérita, 2017, cap. 7.3.

[5] Ghiraldelli, P. O que é a subjetividade moderna a partir do Evangelho de Matheus. <https://www.academia.edu/30694798/O_que_e_a_subjetividade_moderna_Sloterdijk_a_partir_do_Evangelho_de_Matheus>

[6] Ghiraldelli, P. Para ler Sloterdijk. Op. cit., cap. 7.2

[7] Sloterdijk, P. O Palácio de Cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008, p. 74.

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3 Responses “Somos todos terroristas – sociedade contemporânea e individualismo a partir de Buyng-Chul Han e Peter Sloterdijk”

  1. Eduardo Rocha
    09/04/2017 at 01:58

    Paulo, diante desse “diagnóstico” da modernidade e da sociedade contemporânea, até que ponto isso pode contribuir para problemas psicológicos e psiquiátricos das pessoas? O Brasil salvo engano, é o local onde as pessoas mais se consideram felizes do mundo mais ao mesmo tempo um dos top 3 em distúrbios e transtornos dos mais diversos tipos. Temos o narcisismo como Lasch fala. Desonerações e reonerações Sloterdijk. Não à toa também, a depressão é chamada de “a doença do Séc. XXI”. O limiar entre nós e um terrorista talvez não seja tão distante assim.

    • 09/04/2017 at 08:30

      Há um autor, o Byung Chul Han que insiste nessa ligação, acho que escrevi sobre isso por aqui no blog.

  2. bony
    15/03/2017 at 04:29

    Essa nossa condicao terrotista me faz pensar na banalidade do mal de Arendt. O terrorista que detona tudo finalmente pode ser restituido a sua “normalidade”. A banalidade do terrorista que mata e a nossa banalidade como terroristas que tiram selfie pra tudo parecem ambas vinculadas com o nao parar, o nao pensar.

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