Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

Somos todos dopados


Somos todos dopados. Aliás, só vivemos em função do doping. Nosso corpo produz substâncias que nos dão prazer semelhante ao que procuramos por conta de efeitos químicos do doping. A medicina sabe disso, mas comenta pouco. A filosofia sempre quis ignorar isso. A filosofia imagina que se a química nos diz algo, esse algo tem a ver com os deuses, por conta do néctar divino ou do vinho cristão, ou com os animais, por conta de uma programação do organismo. Isso vai ter de mudar. Precisamos nos abrir para novas descrições.

Alguns filósofos começaram a pensar no prazer de modo que poderia nos encaminhar para uma visão menos restrita a respeito da química. Foram os utilitaristas que falaram da felicidade ética como ligada ao que é mensurável a respeito do bem estar. Fizeram do prazer sinônimo de felicidade exatamente para efeito de cálculo. Prazer foi definido como ausência de dor, e então tivemos um campo aberto para se falar em felicidade a partir do que é físico. Pessoas como Karol Wojtiyla, o Papa João Paulo II, se puseram contra o utilitarismo especialmente nesse ponto. O personalismo de Wojtila engrossou a voz filosófica dos que sempre puseram a felicidade em todo lugar menos no campo do barro de Adão.

Filósofos como Wojtyla nunca admitiram a equação entre felicidade e prazer, e isso, é claro, por conta de reservarem para a felicidade o campo grego da eudaimonia, bem mantido por Agostinho. A eudaimonia é, no grego, o eu (bom) + daimon (gênio), isto é, o bom gênio, o que é o bom guia que nos dirige. Estar sem vícios, sem a ansiedade que é produto do vício, é então prosperar na tranquilidade e isso mostra o bom gênio. Quando se vive isso, o grego antigo dizia que era como estar em plena cidadania, integrado na vida da polis. Agostinho, por sua vez, via a mesma situação como também uma aquisição de cidadania plena, ainda que, nesse caso, tratava-se de estar bem na cidade de Deus, não na polis terrena.

Mas tudo isso precisa  ser ponderado junto com as correntes filosóficas que podem, quase que sem precisar citar os utilitaristas, levar em conta antes de tudo o prazer. Filósofos contemporâneos, sem qualquer posição contrária às religiões, sabem que não podem mais desconsiderar a naturalidade do doping natural. O filósofo francês Gilles Lipovestsky fala do “doping do consumo” como nos proporcionando prazer físico. Mas o filósofo alemão Peter Sloterdijk vai além e fala do homem como “um ser endorfinado”. Ou seja, não seríamos felizes no capitalismo que nos provoca o prazer do consumo se isso não fosse um substituto do que sentimos por situações intrínsecas ao que somos naturalmente.

Não podemos mais desconsiderar que o sexo é doping e que o esporte é doping. A religião é doping. Tudo que nos dá prazer assim faz porque somos seres endorfinados. Produzimos endorfinas e isso nos dá prazer, e o que nos faz não parar de produzir endorfina é justamente aquilo que nos dá prazer. Um atleta que cessa suas atividades de atletismo entra em depressão. O escritor que não pode escrever ganha o mesmo destino. O religioso que perde sua fé passa pela mesma situação. A química da endorfinização não pode ser atingida. Nessa hora, é bobagem querer distinguir felicidade de prazer. A endorfinização perdida nos remete à situação de desprezar qualquer pessoa que quer insistir na tecla de que não somos infelizes. Provar para alguém nessa situação que ela não é infeliz, que ela está apenas em uma situação de desprazer, soa ridículo para tal pessoa. E não deveríamos desconsiderar isso. Não deveríamos, em nome de nos agarrarmos à metafísica como o garoto agarra na barra da sai da mãe, não levarmos a sério a descrição de nós que os bioquímicos podem fazer, e que se manifesta bem na primeira pessoa quando caímos na secura da endorfinização.

Claro que não estou dizendo que agora temos de recriar um fundacionismo materialista. Ou seja, o ponto de apoio metafísico se deslocaria para a química e, então, recriaríamos, como fizeram tantos no século XIX, uma versão materialista da metafísica. Talvez Lenin e Engels tenham feito isso. Mas não é mais o caso. O que estou dizendo não é essa banalidade filosófica. O que mostro é que a felicidade merece também ter uma descrição que não despreze o saber atual, que diz que vivemos dopados por nós mesmos e que quando procuramos qualquer tipo de doping exterior, suplementar, assim o fazemos apenas porque o nosso doping natural não está se efetivando.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 02/05/2017

Tags: , , , , ,

3 Responses “Somos todos dopados”

  1. Bruno Zoca
    07/05/2017 at 13:00

    Paulo, não consigo visualizar muito bem essa questão do doping natural, ele pode ser considerado a vida que é anterior a tais desejos externos – se é que isso é possível? Vai além de apenas o uso de uma substância, é uma mudança de postura através de uma nova prática diante da vida.
    Por exemplo, uma pessoa que vivia bem sem praticar esportes, mas num determinado momento começa a prática para aliviar algo que ela percebe que não está legal, algum problema de saúde e a partir desse esporte ela constrói algo muito mais prazeroso, que muda sua saúde física e mental, se por algum instante ela perde isso ela cai em depressão ou algo do tipo? É mais ou menos isso?
    Abraços.

    • 07/05/2017 at 13:07

      Somos seres que produzem substância que nos dá prazer. Endorfina. Ela é produzida mais se nos exercitamos. Claro que há outras substâncias que dependem de outras coisas, e não o exercício, para nos dar prazer. Em suma, o doping nosso, produzido pelo nosso próprio corpo, é uma condição natural e histórica nossa. Muitas vezes quando não temos o doping interno, apelamos para o externo. Mas meu artigo quer enfatizr outra coisa: a narrativa materialista como uma narrativa também válida.

  2. Jean Pessoa
    02/05/2017 at 15:46

    O doping, o “controle” ou atualização da felicidade aparece como oposto a aquela felicidade do Guimarães Rosa, onde soh se eh achada em horinhas de descuido.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo