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20/05/2018

Somos crédulos e só assim podemos viver


Artigo indicado para o público em geral

Sociólogos, psicanalistas, antropólogos e outros do âmbito das “Humanidades” entendem crença de uma maneira, o filósofo é obrigado a conceituá-la de modo diferente. Para os primeiros, crença é crença num ideário adrede construído. Para o filósofo, diferentemente, crença é apenas aquilo que se expressa em “Eu creio que p“. Onde “p” é um enunciado qualquer, por exemplo, “a parede de casa é branca”. Não é um ideário, uma doutrina ou coisa parecida. Apenas um enunciado.

Por isso, um filósofo como Donald Davidson leria o artigo de Calligaris,  “Nas redes, ninguém tem a menor chance de convencer ninguém, (Folha, 14/12/2017), como uma forma de colocar um ponto de exclamação um tanto fora do lugar. Calligaris diz que aderimos a crenças por intuição, rapidamente, e que depois, para deixar de lado uma tal crença, é bem difícil. Ora, mas não é novidade que aderimos a crenças. Claro que isso nos faz pertencentes a alguma cultura e, portanto, humanos, como Calligaris lembra. Mas eu, na linha de Davidson, acrescento que é também por razões ontológicas mais profundas que somos crentes. Creio que a parede (branca) de casa é branca por que, caso eu não possa crer nisso, não teria como participar da vida na minha casa. É mais fácil eu viver na minha casa acreditando em entidades milagrosas, e estando junto de meu filho ateu, que eu viver com ele em discordância sobre a cor da parede da sala. Se ele desconfiar que eu estou falando que ela não é branca, ele pode me internar num hospício qualquer, mas se eu falar para ele que Deus o está guiando, ele, ateu, aceitará numa boa.

O que Donald Davidson nos ensinou é que mais acreditamos que desconfiamos. Acreditamos estarmos vivos, que a parede é branca, que sou filho de fulano de tal etc. Acreditamos em quase tudo, pois o conhecimento é, como Platão definiu, “crença verdadeira bem justificada”. Que a parede da sala de casa é branca é uma crença verdadeira e está bem justificada. A justificação boa é: todo mundo concorda e, portanto, há grande chance de estarmos todos certos. Por que desconfiar disso? Apostar na “zebra” a toda hora, e cada vez levando mais gente para o mesmo caminho, descaracterizaria a “zebra”.

Calligaris está sugerindo o contrário de tudo isso. Ele está usando a noção de crença do âmbito não-filosófico. E nisso, ele cria, talvez, um falso problema. Nós não somos não-crentes e nem poderíamos funcionar de outra maneira. Nós somos crentes por razões de sobrevivência básica, “pré-social”. Se não pudermos acreditar, não deixamos só de pertencer a um grupo, mas deixamos de pertencer ao conjunto de humanos ou, talvez, de seres vivos. Já imaginou o desespero de uma planta se ela puder desconfiar que talvez não faça fotossíntese?

Ando num carro em velocidade à noite e cruzo com outro. As luzes sempre nos ofuscam. Durante metros os dois motoristas dirigem às cegas. Ambos acreditam piamente que o outro não está bêbado, não é um suicida e que sabe dirigir. Três crenças muito prováveis de serem falsas. No entanto, acreditamos nelas e, sem elas, não dirigiríamos nunca. A vida humana nada é senão o funcionamento de nossos eus, que nada são, segundo Davidson, que “rede de crenças e desejos”. Sem crenças, não temos “eu” algum. Assim, a Internet (ou seja, rede) tanto quanto qualquer outro espaço comunicacional, faz acreditarmos e desacreditarmos no mesmo sentido que sempre acreditamos e desacreditamos. Ou seja, mais acreditamos que desacreditamos. Nosso mecanismo de acreditar é a garantia de uma vida de mamíferos que, enfim, tiveram fome e receberam peito. Somos crentes por conta desse feedback positivo que está em tudo, e que é rápido, inclusive intra-uterinamente. Desconfiar é um modo de não viver. Descartes, o homem da dúvida hiperbólica, só a sustentou em duas de seis meditações. Ou seja, a dúvida dele durou menos de 48 horas. Tempo rapidíssio para voltar a crer, para quem havia desacreditado em tudo tudo mesmo!

Não crer não é bom. Pode nos fazer perder o trem ou o avião etc. É bom crer. É bom crer rapidamente! Pensar com tempo, isso é outra coisa. Não é vida, é vida de filósofo.

Há uma propaganda na TV que mostra tudo isso de modo simples: é a de um menino que cresce desconfiado, no café da manhã ele já pergunta para os pais se aqueles pais são mesmo seus pais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 14/12/2017

 

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One Response “Somos crédulos e só assim podemos viver”

  1. Eduardo Rocha
    15/12/2017 at 01:51

    Se pegarmos o Pragmatismo e ver que ele não quer dizer como deve ser o mundo ou falar sobre metafísica, mas sim em obter uma consequência prática no mundo de por fim em questões. Por exemplo, se eu falar para minha mãe que estou com dor de cabeça e ela me dá um comprimido. Tomo o comprimido sem questionar, sem hesitação e creio que ficarei bom. Isso seria lidar com situações cotidianas e mundanas que pode gerar um tipo de solidariedade. Ou ainda quando a mãe fala que “tudo vai ficar bem” quando sou um bebê. Me sinto reconfortado, menos desconfiado e com menos medo, apesar de nada garantir que essa promessa se cumpra, uma forma para que possamos nos manter no mundo e ter um certo “controle” sobre contingências. A crença não seria quase que algo ontológico?

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