Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

30/05/2017

A sociedade desonerada: um quadro a partir de Sloterdijk, Agamben, Lipovetsky e Byung-Chul Han


Nossos tempos são os da desoneração. Menos cargas para todos. É algo que vemos de fato e também o que se coloca no horizonte coletivo e no desejo individual de uma maneira jamais vista. A sociedade da necessidade fica para trás, e a única necessidade que se impõe é a do direito de ter direitos, e estes, por sua vez, sempre no sentido de afastar aquilo que onera. Esse movimento histórico e geográfico é tão forte que já há algum tempo atinge os animais. Somos porta vozes deles na nossa luta de livrá-los de qualquer escravidão, como já fizemos conosco, com as crianças, as mulheres e os pobres.

Quatro filósofos contemporâneos, todos vivos, descrevem a sociedade atual como a sociedade da desoneração: Peter Sloterdijk, Giorgio Agamben, Gilles Lipovetsky e Byung-Chul Han.[1]  Abaixo, faço um esboço sobre o que falam, para as minhas próprias conclusões.

A partir de uma visão de longa duração, Sloterdijk fala da sociedade da desoneração a partir da sua noção de mimo. O homem é um ser que só é homem pelo mimo. Tanto do ponto de vista da ontogênese quanto da filogênese ele se faz pelo agrado, pelo plus de carinho ou pelo mais-amor. Esse movimento, uma vez integrante dos tempos modernos, é potencializado por quatro elementos: dinheiro, pacificismo, segurança e mídia. O dinheiro abre espaços para muitos. O privilégio de sangue é posto de lado e o dinheiro permite às multidões o acesso ao que era impensável no âmbito de uma geografia das facilitações e ao mundo do que permite por no passado uma série de onerações. A ideia das loterias, regra do mundo todo, só poderia ser pensada numa sociedade como a nossa, que acha que ter mais portas abertas pelo dinheiro vale a pena se for sem o trabalho. A paz necessária ao mercado e ao canal aberto pelo dinheiro muda o rumo das coisas, gerando um descarga quanto às energias da virilidade. Ninguém precisa mais ser “macho”. O feminismo não poderia ser pensado sem o advento da regra da paz. A expectativa de vida e as possibilidades da medicina e do ambiente do “prever para prover” desinibem a todos para correr riscos e, ao mesmo tempo, cobrar mais e mais o aumento de segurança para que os riscos se tornem lúdicos. Os americanos vão para guerra com uma certeza de que voltarão. E nada cresceu mais no mundo atualmente que as companhias de seguros. Por fim, a mídia retira de cena o homem acadêmico, de formação, e põe no lugar o usuário de canais de informação, que se faz comunicador e até professor pela circulação do que o “Dr. Google”. A mídia torna célebre o chamado autor sem obra!

Agamben tira conclusões éticas a respeito da desoneração. E sua conclusões éticas se dirigem diretamente para o aspecto da formação da identidade. Ele nota que a modernidade transferiu a identidade para aspectos corporais – em especial a digital e os elementos dos estudos sobre biotipos. Na continuidade, os tempos contemporâneos pensam em deixar a digital e a foto 3×4 de lado para adotar caracterísiticas ainda mais ligadas ao “corpo nu”, os aspectos biológicos nossos, como um número associado ao nosso DNA. Câmeras que servem como “o olho de Deus” são postas para nos localizar o tempo todo, mas o que conta mesmo nessas câmeras é o biológico que nela compõe a cena e o palco. Essa tese de Agamben tem a ver com a sua divisão da vida como bios e zoe, sendo que a primeira é a vida onerada pela ética dos cargos e a pessoalidade (personalidade), e a segunda é a mera vida biológica, “animal”, na qual importa o estar respirando. No mundo contemporâneo temos a sorte de, para ganhar direito à vida, não termos de nos onerar pelas responsabilidades éticas que garantiam que éramos seres vivos. No passado, a vida era onerada eticamente pelos cargos, funções, “sangue azul” e outros elementos que, enfim, restringiam demais o contingente dos seres vivos, com direito à vida. Agamben não vê positividade nisso. Ele toma a desoneração como a emergência de uma sociedade onde o vivo é o vivo do “campo de concentração”, ou seja, aquele destituído de dignidade, pois apenas respirar não é uma questão da dignidade da vida – talvez nem pudesse ser chamada de vida.

O preço pago pela redução da vida à vida nua é muito alto, pensa Agamben. A própria desoneração, então, é uma oneração em certo sentido. Por sua vez, Sloterdijk vê que a desoneração exige ao mesmo tempo onerações. O leve cria o pesado dentro do leve. Dá peso ao fútil e ao frívolo, exatamente porque a nova ontologia gera o que ele chama de ‘a insustentável leveza dos ser’. Falamos todos os dias que estamos estressados. Mas isso por podermos viver numa sociedade em que o vocabulário criou a palavra stress para lembrar o quanto as onerações são mais sentidas se a sociedade é desonerada.

Lipovetsky vê a desoneração por uma ótica do estudioso do fenômeno do consumo. Ele estuda o consumo como uma disputa entre dois tempos, a da “sociedade vebleriana” versus a “sociedade das marcas” e da “experiência de si”. O consumo que Veblen notou foi explicado por ele mesmo como um elemento de desoneração na medida em que privilegiava o desnecessário. O gasto em função do status e da diferenciação classista, antes reduzido, foi sendo estendido a todos. Em determinado momento, esse gasto em função da distinção social, dado pela ostentação, passou a também ser o gasto de multidões. A sociedade do consumo de massa passou a consumir antes o supérfluo que o necessário. Ser consumidor e ganhar uma identidade digna de humano passou a ser dada pela possibilidade de gastar com o não necessário. Claro que esse movimento do consumo, originalmente proporcionado pelo modo de produção fordista, criou em seguida a proliferação das marcas. O produto ficou de lado em função de seus símbolos dado pelas marcas. A ostentação das marcas por parte da juventude pobre ganhou traços de identidade, e a questão deixou de ser algo do âmbito da distinção para ser algo do âmbito do pertencimento. Os jovens pobres querem antes estar integrados nos slogans das marcas e, portanto, nas tribos que giram em torno disso, do que propriamente se distinguir em termos classistas. A porta então se abre para um novo consumo, o da “curtição de si”. O consumo é transportado para a própria busca do conforto máximo e da capacidade de se experimentar, em termos individuais, até íntimos, “tudo que a vida pode dar”. O objetivo da desoneração máxima se confunde com o ser feliz e isto se realiza se for possível, para cada um, ser chamado individualmente para ter algo ou fazer algo voltado para si mesmo. O marketing não demorou para se dirigir às pessoas como eus que podem ter experiências intimas com produtos e serviços. Um banco que serve só você, uma viagem que o faz ver um lugar sagrado que vai ouvir suas preces, uma palestra que lhe permitir sentir-se inteligente, uma ginástica ou yoga que lhe proporciona um “encontro consigo mesmo”, um absorvente íntimo que pode lhe proporcionar o prazer de “ser você mesma”, um colégio voltado para o auto-reconhecimento do aluno, uma maquiagem que lhe permite “sentir-se verdadeiramente mulher”, uma droga que lhe dá a juventude para poder curtir aos 70 anos novas experiências ou a operação plástica que lhe dará nova condição não diante de outros, mas do espelho. O consumo nesse caso preenche os anseios do narcisismo contemporâneo. Dentro desse império, é claro que o novo adquire função especial, e a espiral do consumo vai adiante. Tudo isso onera dentro de um quadro maior de desoneração. E tudo isso altera consideravelmente o que entendemos como sendo o tempo. O tempo se encurta, de modo que a máxima de Epicuro “não há um mal que dure para sempre” garante que até o mal passe como uma moda. A “sociedade-moda”, ou seja, a sociedade regrada pelo tempo volátil da moda torna-se a única sociedade onde vale a pena viver.

Em uma sociedade assim, onde todos vivem experiências íntimas no altar da desoneração, surgem os consultores para tudo. É necessário que alguém instrua alguém, com saberes pretensamente científicos, sobre as novas técnicas de usos de produtos e serviços para o real encontro de si mesmo. Tudo é melhor se feito no âmbito íntimo. Nesse aspecto, Peter Sloterdijk e Lipovetsky falam a mesma língua. Ambos notam os consultores, em especial aqueles que lidam com a nova forma de vida: o despertar do homo ludens como regra de vida. Todos precisam ter seu personal trainer e ele não pode ser diferente de um animador de programas de TV.

A desoneração é abordada por Byung-Chul Han em seu aspecto mais charmoso: a liberdade individual. O consumo como elemento que leva a um novo ‘cuidado de si’, visto por Lipovetsky, aparece em Han sob a ótica de um movimento amplo contemporâneo que ele chama de neoliberalismo. Trata-se de uma forma de lidar com a ideia de que de fato cada um é cada um, que as diferenças individuais são nosso segredo de felicidade, e que podemos então nos lançar na “sociedade do rendimento” como empresários de nós mesmos. Cada um ganha o direito de explorar-se. Todos podem ser empresários de si mesmos. O homem não é o lobo do homem, mas o lobo de si mesmo. O desoneração que nos conduz aos direitos individuais nos premia com o fim da distinção. Somos todos diferentes, mas não mais distintos. E na nossa busca de diferença, para curtir a nós mesmos nossa liberdade, ganhamos a liberdade de nos cansarmos da nós mesmos. Claro, se somos empresários e trabalhadores na mesma empresa, que é nosso corpo, o cansaço é duplo. Han aponta a mudança das doenças psíquicas para mostrar que nossa sociedade desonerada é uma sociedade onde há transparência, onde todos olham para todos, mas e que intimidade se transforma apenas na particularidade, não na privacidade e distinção, e no esforçar-se para transpor auto-barreiras. O resultado dessa situação é que a desoneração nos onera com a nossa total integração na competitividade às vezes conosco mesmo. Tudo que fazemos vira competição. Podem ver isso, penso eu, nas operações plásticas, que nunca terminam: quem faz uma faz dez. O mesmo vale para o silicone, para a “bomba” nas academias, para a compra de determinado produto ou serviço. Uma viagem não basta, é preciso em todos os fins de semana e todas as férias estar em lugares diferentes. Culto de si e ao mesmo tempo corrida veloz em direção ao mais desonerado, ou seja, a felicidade.

Tudo tem de ser fácil, e repetido então. A estética do liso, ou seja, das obras que são sem pontas passando pela depilação brasileira, como Han diz, ganha o altar.  A vida é lisa e por isso dá uma estética lisa. Uma vida lisa é que a não interrompe fluxos. Vivemos na sociedade positiva, diz Han, e o negativo deixa de ser importante a ponto de não termos mais como nos criamos verdadeiramente somo selfs distintos, só diferentes, pois nos falta o Outro. Morre a alteridade de tal forma que nosso cansaço conosco mesmo vem na exatamente medida dessa morte. Vivemos na sociedade em que não vale mais a frase sartriana “o interno são os outros”. O Outro desaparece e o self  é o único lugar de felicidade, do Céu, e e´claro, então, do inferno. O inferno somos nós.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 05/05/2017

[1] Não há dúvida que do lado da filosofia analítica, Donald Davidson e Richard Rorty estariam no elenco, quanto ao específico da linguagem, à medida que caminharam no sentido de uma concepção da linguagem na radicalização da linha de Quine, a desreferencialização.

 

Tags: , , ,

6 Responses “A sociedade desonerada: um quadro a partir de Sloterdijk, Agamben, Lipovetsky e Byung-Chul Han”

  1. joao
    08/05/2017 at 18:08

    paulo, o que diferencia o Outro como distinto, do diferente, e por que ele nao existe mais

    • 08/05/2017 at 18:51

      O outro não é simplesmente aquele que nos é diferente, mas que o nos contraria frontalmente, o que nos nega, seja pessoa, instituição, ficção, objeto, política. A tese de que o mundo que comporta a alteridade (como exposta no clássico texto da dialética do senhor e do escravo, de Hegel)foi enfraquecido não é minha e sim do Han. Como disse no artigo, ele acredita que nossa vida é a vida positiva, sem o negativo. A figura do senhor desaparece contra a figura do escravo, uma vez que somos senhores de nós mesmos, senão segundo a filosofia, ao menos segundo a ideologia “neoliberal”.

  2. Ecce Homo
    06/05/2017 at 13:48

    Por que a inexistência da verdade (ou da Verdade) e a ausência de qualquer parâmetro pode conduzir o homem e o nosso planeta para um futuro melhor do que uma sociedade onde a verdade ainda tenha alguma importância e parâmetros são necessários? Isso partindo do principio que Ghiraldelli é um apologista dessa sociedade que descreve como da “desoneração” e não um crítico….

    • 06/05/2017 at 18:21

      Estou em dúvida se você entendeu os quatro autores e eu. Pareceu-me que não. “Apologista”? Que estranho! Além do mais, o texto não fala sobre verdade.

  3. Gustavo
    05/05/2017 at 21:07

    Apontar a vida “ lisa “ em que vivemos, corpos totalmente depilados, completamente nus. É uma maneira de ver o ser humano mesquinho que temos mundo afora. Ótimo texto professor.

    • 05/05/2017 at 21:40

      Gustavo, eu não disse isso, nem o Han. Você põe palavras na boca nossa. Agradeço ter lido. Mas não sei se leu o texto nosso ou o seu mesmo.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo