Go to ...

on YouTubeRSS Feed

17/12/2017

Síndrome de Dédalo


Vivemos na “sociedade da abundância”. Ricos ou pobres, vivemos em uma sociedade que ganhou leveza e que se desonerou em um nível nunca visto antes em toda a história da humanidade.

Energia fóssil, motor de explosão, luz elétrica, penicilina, tratamento hormonal, Viagra e pílulas de contracepção, alfabetização em massa, diminuição de mortalidade infantil, aumento da vida média até em países pobres, ampliação dos anos de juventude, diminuição geral do trabalho físico, garantias trabalhistas – eis aí elementos que nos fazem estar em um ambiente que realmente libertou o homem para ver outros problemas, não os que havia enfrentado desde sempre. Há uma imensa classe média no mundo. Há um domínio cultural e de estilo da classe média sobre outros setores, no mundo todo. Rock, feminismo e Viagra são universais tanto quanto a língua inglesa e o futebol profissional ou semi-profissional. O livro Afluent society de Galbraith serve para que o filósofo alemão Peter Sloterdijk possa dar dados da desoneração e teorizar sobre tudo isso. O americanismo venceu o mundo, e o mundo gosta disso.

Há quem critique essa sociedade contemporânea em que vivemos, como faz o filósofo germano-coreano Byung-Chul Han. Há quem apenas a descreva detalhadamente, como “sociedade da leveza”. Esse é o trabalho do filósofo francês Gilles Lipovetsky. Há quem, há mais tempo, já venha utilizando o nome “sociedade da leveza” para teorizar sobre essa situação, como faz Sloterdijk, chamando a nossa atenção para o que ele denomina de movimento anti-gravitacional.

Somos anti-gravitacionais desde o século XVIII. Começamos com balões. Fomos para os vôos de Júlio Verne. Passamos pelos vôos da coruja de Minerva, racionalizando tudo ao fim da tarde, com Hegel. Depois, com Wernher von Braun e Armstrong, chegamos à Lua. Viajamos de avião e, agora, de Internet. Queremos sempre subir, sair do chão, escapar da “realidade”. Sabemos que para atingir outros planetas, exceto Marte, não teremos que ter naves espaciais, e sim uma câmara de desmaterialização e rematerialização, como em Star Track. Somos aqueles que não nasceram em pé, mas tiveram de se erguer e tomar a promessa da mãe, “tudo vai ficar bem”, em nossas próprias mãos, mesmo que depois fiquemos sabendo que nossas mães não poderiam ter dito isso. Buscamos a verticalidade e queremos ir além. Queremos ser leves. Tão leves que até o sexo possa ser trocado. Queremos ter o direito de reeducar a biologia. Mas isso possui contrapartidas.

A contrapartida da desoneração é que, em um nível outro, temos que nos re-onerar. O estresse é uma criação desse tipo. Só nossa sociedade possui estresse, pois só ela possui condições de nos deixar duas horas por dia jogando conversa fora na Internet. Só onde há imensa energia acumulada para ser gasta na não-utilidade “básica” é que pode ficar estressados. Assim, a cada subida em novo patamar de leveza e desoneração, criamos algum problema com o qual nos ocuparmos. E queremos acreditar que tal problema veio da desoneração, da “modernidade”, da “tecnologia”, e então geramos os ativismos sociais para tentar resolve-los, mas também para termos a sensação que não perdemos os chão. “Fique com os pés no chão”, “volte para a realidade”, “não se perca em sonhos” e, principalmente, “não voe tão alto”. Em suma, ouça os conselhos de Dédalo para Ìcaro. Não deixe o mundo virtual ficar mais real que o o mundo dito real.  Fique atento contra a hiperrealidade. Dédalo disse isso também, ao mostrar que o voo perto do sol daria a sensação de vitória e êxtase no momento exato da queda.

Essa busca de recriação de uma ontologia, ou de sensação ôntica, é o que eu chamei erradamente de síndrome de Ícaro. Não sabia que já haviam se apropriado desse título para outras coisas. Mas, o título correto do que descrevi, a partir de Sloterdijk e outros, é síndrome de Dédalo, afinal, quem avisa sobre o perigo do voo e pede que não haja deslocamento vertical impensado, é ele, não Ícaro. O correto é utilizarmos o termo síndrome de Dédalo. Pronto, a situação está batizada.

Paulo Ghiraldelli Jr, 59, filósofo. São Paulo, 07/03/2017

Tags: , , ,

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *