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24/06/2017

“A sensibilidade dos jovens” e o erro de João Pereira Coutinho


Posso falar “de cátedra”, e uso tal expressão, no caso, não metaforicamente. Há alguns anos na UFRRJ fui atacado por um grupo de jovens que se dizia formado por alunos da universidade. Eram de esquerda. Entraram numa palestra e encerram o ato à força. Mas não sem reação minha, que deixei claro para eles que estavam mentindo sobre o que vinham acusar. Aliás, não vi neles nada de político, apenas um ressentimento banal de gente frágil, manipulada por professores. Garotada incapaz de argumentar. Escutei esses dias que dois desses jovens se tornaram professores, e nos cursinhos pré-vestibulares onde foram dar aulas foram molestados por jovens de direita, que os expulsaram das salas. Aqui se faz, aqui se paga.

O colunista português da Folha de São Paulo, João Pereira Coutinho, conta em um artigo de nome defasado, “Pensamento politicamente correto” (04/04/2017), que esse tipo de coisa pela qual passei está se generalizando no mundo todo. Diz que nossas crianças estão mais ‘sensíveis’. Ele acerta ao notar o óbvio, mas erra ao caracterizar a situação e erra mais ainda ao explicá-la. Ele localiza esse ‘sensibilidade’ como ressentimento de origem política, especialmente à esquerda, e diz que todos são órfãos de Moscou, gente que não tem possibilidade de se preencher com ideários políticos e que então recorre ao restolho de sentimentos de tipo do fanatismo religioso. São jovens, segundo ele, que não podem realizar nada fora da universidade, como o caso do comunismo ou mesmo que aspirações pessoais de poder,  e então tentam manter suas realizações frustradas como realidade na universidade. Ledo engano.

Essa explicação de Coutinho politiza demais a questão. Os magoados que me atacaram o fariam também sem capa política.  A hipersensibilidade deles, sua fraqueza, estava para explodir. No momento, tiveram como ponto de união o pretexto político. Mas o que estavam reclamando, falando coisas sobre mim que são o contrário do que penso – acusando-me de machismo, racismo e homofobia -, nada era senão uma maneira de dizer: não aguentamos sua carga de leituras, sua cobrança, sua requisição de orgulho. Era só isso. E em vários outros lugares, isso atinge garotos da direita também. Atinge todos os ‘sensíveis’. A dureza da escola dá de cara com a falta de, digamos, raça dos jovens.

Ora, mas não é bom ter uma juventude sensível? Aí é que está o nó. A sensibilidade é uma dádiva, e ela pode ser um encaminhamento para a necessária empatia. Mas a sensibilidade a que estou me referindo não é outra coisa senão a falta de algo sob a pele. Tudo é sentido pela pele porque no interior, após atravessar a pele, nada há no homem atual que lhe permita reelaborar experiências e devolver ao plano social uma pessoa reflexiva e criticamente sensível. E essa subjetividade rasa, que é onde está o problema, não é produzida por falta de ideologia, por decepção com Moscou ou qualquer outra capital que ditou moda política. Nenhum dos pensadores contemporâneos atuais iriam pela explicação de Coutinho. Ele busca uma explicação que é a de Pondé e outros do campo jornalístico-conservador que são hiperpolitizadores, e que não enxergam nada no âmbito da filosofia social ou da psicologia social, pois estão, eles sim, ainda atuando como viuvinhas de Moscou. Eles ainda acreditam que devem escrever contra comunistas. Eles perderam o bonde, ainda acreditam em comunismo.

Os pensadores contemporâneos que pensam as transformações da subjetividade têm tentado explicar essa ‘sensibilidade’ que não é sensível ao que importa de maneiras variadas, olhando para as transformações sociais mais complexas. O trajeto todo é dado por um sobrecarregamento do eu seguido de um esvaziamento. O sobrecarregamento do eu, do sujeito, que Heidegger anuncia ao falar em “metafísica da subjetividade”, é o ponto de partida, e vai bater nas “desonerações” que Sloterdijk fala ao descrever os “espaços de mimo”, chega também ao advento do “corpo nu”, distante de projetos éticos, como diz Agamben. Não há como não citar aqui o eu sob aligeiramento de Lipovetsky. Também analisam essa mesma situação Debord na “sociedade do espetáculo”, onde o aparecer supera a dicotomia ser-ter, e Lasch falando do advento do “mínimo eu” e do “narcisismo”. Por fim, também entra na roda a tese de Byung-Chul Han, que aponta para o fim da negatividade na sociedade liberal e, em especial, para o advento da diversidade e da diferença como o que encobre a falta do distinto, este sim produto de uma alteridade impossível em nossa sociedade. Essas teses podem ter encaminhamento político, mas elas jamais pegam um elemento da politicalha esquerda-direita, que vale para grupelhos, para explicar a transformação complexa da subjetividade atual. Coutinho não sabe disso. Como Pondé, ele está preso na literatura que aprendeu num tempo que nem é o seu, mas de lugares conservadores onde estudaram. O anti-comunismo, o anti-totalitarismo deles é algo que politiza o que não é propriamente do âmbito da política.

O que ocorre na subjetividade contemporânea, quando navegamos pelos filósofos atuais que citei, que tentam criar uma descrição do eu atual, é que aquele abaulamento que Nietzsche notou no homem, e que ele creditou ao cristianismo, aliás como Hegel, retrocedeu em muito em nossos tempos. O homem abaulado morreu. O homem atual é uma fina camada de pele. O homem atual pensa com a pele. E como pele não pensa, apenas arrepia, seu comportamento é antes de animal do arrepio e do espasmo que daquele que pode pegar uma doutrina e, com ela, expor rebeldias, desejos, projetos pessoais ou coletivos. Não é à toa que somos uma era das tatuagens, do nu pornográfico, da moda e da maquiagem – o luxo capitalista que mais cresce e mais mata animais. Não há o que ler, pois isso é atividade cerebral, não há o que sentir, pois isso é atividade do coração, não há do que orgulhar-se, pois isso é atividade do thymos. Nada disso existe mais, pois o desenho do homem, em sua psicologia, acerta o mostrá-lo em seu espelho como um produto do espelho: imagem. Cuidamos da imagem. O homem-pele tem de cultivar a pele, da imagem espelhada. Academia para esticá-la, cirurgias para as adiposidades, tatuagens, piercings e maquiagem para o adorno não do corpo, mas da alma. Sim, a alma é a pele. Quem tem só pele, dela cuida. Não à toa a preocupação atual é com o câncer de pele. Nunca houve uma indústria como agora, contra os efeitos dos raios solares. O sol amigo virou inimigo.

As razões pelas quais o homem-pele (uma tese minha) é o protótipo do homem contemporâneo estão nesses pensadores contemporâneos que citei, infelizmente desconhecidos dos jornalistas. Ou, pensando melhor, felizmente desconhecidos. Se eles os conhecem, vão tentar falar deles, e aí o desastre aumenta.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 04/04/2017

Gravura: propaganda do Copertone Tattoo

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5 Responses ““A sensibilidade dos jovens” e o erro de João Pereira Coutinho”

  1. João Pedro Dorigam
    06/04/2017 at 20:09

    Sei lá. Li o texto do Coitinho. Sinceramente, achei que ele estava sendo irônico ao falar da sensibilidade.

    No mais, a tônica do texto não se deu na conclusão-remissão-resumo. Mas, sim, em afirmar que o homem busca realizações transcendentais para justificar seu ideário.

    Na verdade, ele está dizendo que esses moleques nunca entenderam o que a diferença da fé religiosa ligada aos fatos concretos (verossimilhança da fonte) com promessas de fé (benesses dos socialismo que nunca foi concretizada).

    Enfim, a leveza do homem, se partirmos da teoria da subjetividade, tem suas raízes na tautologia originária da ciência (que sempre faz um corte na natureza ignorando as contingências) e a fé no domínio do sujeito sobre o objeto, muito embora falar nessa dicotomia tenha ficado estranho.

    Essa fé em um absoluto transforma homens em Deuses, mas sem o dom da ubiquidade. Por isso, quando estão no espaço e sentem a leveza do nada (do nu), tentam trazer o chão para cima (não descem às vicissitudes) ou lutam para mudar a força da gravidade para que invertam a seu favor.

    Isso gera o peso desonerado. Um falso peso. Uma sensibilidade tacanha como se tivéssemos somente meio sentido. Isso é tão estranho e desumano que até nosso corpo responde com doenças da moda: stress, depressão, ansiedade, etc.

  2. LUIZA GOMES
    04/04/2017 at 16:23

    A POLITICA DO BEM-ESTAR SOCIAL, A QUESTÃO DE GÊNEROS E TC, LOGRADOUROS PROFUNDOS DOS PENSAMENTOS “PROGRESSISTAS” AMPUTARAM OS JOVENS, SUAS ALMAS E MENTES E OS FIZERAM ACREDITAR NOS MITOS. A CRIANÇA CRISTAL, HIPER-PROTEGIDA CONTRA AS AGRESSIVIDADES E VIOLÊNCIA DA REALIDADE DA EXISTÊNCIA CRIARAM MONSTRINHOS ABSOLUTISTAS. TODA UMA GERAÇÃO DOS ÚLTIMOS 20 ANOS ESTÁ ESTRAGADA E AGORA TENTA REINVENTAR O MONSTRO COM TODO ESSE BLÁ BLÁ BLÁ DE HOMEM-PELE?? NÃO SEI SE PONDÉ ESTÁ ABSOLUTAMENTE CERTO, MAS SEI Q VC ESTÁ MUITO LONGE D QUALQUER CERTEZA ABSOLUTA. OS PROGRESSISTAS CRIARAM OS JOVENS DO AQUECIMENTO GLOBAL, DIGO ISSO PQ ASSIM COMO O AQUECIMENTO, SEREMOS AS COBAIAS DAS CONSEQUÊNCIAS PQ NINGUÉM ESTÁ CERTO OU ERRADO SOBRE O Q IRÁ ACONTECER NOS PRÓXIMOS 30 ANOS POR NÃO HAVER DADOS ANTERIORES COM OS QUAIS POSSAMOS NOS CALCAR. O MESMO SOBRE ESSA GERAÇÃO DOS ÚLTIMOS 20 ANOS. A TURMA Q ESTÁ AÍ SERÃO AS COBAIAS, SÓ Q A MAIORIA DE VC PROGRESSISTAS TALVEZ NÃO TERÃO A RESPONSABILIDADE Q DIVIDIR AS CONSEQUÊNCIAS DE SUAS OBRAS!!!!

    • 04/04/2017 at 16:33

      Luiza, a direita precisa aprender a desligar o caps lock. Nada do que escrevi tem a ver com o que você escreveu. Você não entendeu nada, apenas aproveitou o tema para vomitar um reacionarismo imbecil.

  3. vera bosco
    04/04/2017 at 12:55

    argamassa blindada by Crivella

  4. Eduardo Rocha
    04/04/2017 at 11:14

    O fim de qualquer alteridade com a eliminação do outro. Quase não há mais nenhum tipo de dialética. Tudo passou a ser um “faça você mesmo”, seja seu próprio patrão. Como cursos de inglês, empresários, coachs e etc. Tanto que hoje temos a “interface”. O ponto de contato entre rosto e não rosto ou entre dois não rostos. O homem passou a ser um fantasma da sua linguagem. Agora não mais da boca e da mão, mas da pele e do dedo. Um homem camaleão ou um polvo em um mar de espumas.

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