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27/06/2017

Rocha Loures: o indivíduo exemplar


Rocha Loures é um deputado amigo do presidente Temer. Há um vídeo rodando na TV brasileira incessantemente, onde ele aparece saindo da pizzaria Camelo, um lugar de jornalistas e políticos na cidade de São Paulo. Sai apressado e joga em um táxi uma mala cheia de dinheiro. Propina. O presidente está na corda bamba por conta dessa propina, e seu amigo está na cadeia. Para os jornalistas, políticos e a população em geral o fato a ser notado é este e somente este. Tudo roda em torna da luta contra a corrupção. Para um filósofo como eu, o elemento mais importante, que tem a ver com os caminhos da cultura de um modo mais amplo, está num dado banal desse episódio todo.

O dado banal é que Rocha Loures não está nem um pouco preocupado com a sua desonestidade estampada para o mundo. Se a sua família irá ou não se manter como gente, após isso, não o intimida. Na atual circunstância, ele nem parece preocupado em estar já na prisão da Papuda, e não mais na carceragem da Polícia Federal. O que o apavora é, de verdade, a possibilidade de ter a cabeça raspada. Em meio a esse cataclismo ético-moral, o homem está preocupado com o seus cabelos, ou melhor, com a sua aparência. A semiótica da degradação nada tem a ver com leis ou consciência moral, mas com aquilo que é ele mesmo, Rocha Loures, que é sua silhueta. Loures tem parte de sua subjetividade montada por dois elementos: uma psiquê preenchida por dinheiro e uma identidade dada por um rosto com cabelo. Ele é seu corpo. Ele é o exemplar do homem contemporâneo.

Claro que o corte de cabelo é a marca da prisão. Mas nesse embroglio todo centrar sua atenção nisso, é significativo. No fundo, nenhuma grande doutrina preenche Rocha Loures senão seu “visual”. Ele é seu corpo, então, ele só se sente verdadeiramente na berlinda, se seu corpo aparecer na berlinda. Só a nossa época contemporânea explicitou essa concepção de identidade. Nós contemporâneos nos vemos não como cristãos ou comunistas ou burgueses ou trabalhadores etc. Nossa identidade é dada pelo nosso corpo. Somos gordos ou negros ou magros ou mancos ou afeminados – tudo que tem a ver com o corpo e com o “visual”. Isso nos coloca num mundo de desoneração moral (Sloterdijk/Lipovetsky) e de inflação estética (Debord/Byung Chul Han), num mundo em que corpo nu (Agamben) prevalece sobre o corpo socialmente carregado. Um corpo nu, só ele, é o eu contemporâneo. Então, o que gravamos nesse corpo que se torna um papel em branco, cria um avatar ou uma identidade de Facebook, e isso nos dá a identidade atual. “Penso logo sou” cede lugar para “Apareço logo sou”. Mas apareço como? Se eu aparecer careca na prisão, só então estarei na prisão, só então o Rocha Loures verdadeiro estará na prisão e terá sido punido. A sensibilidade de Loures é a sensibilidade capilar e a de seus olhos vendo-se na foto como careca. Ele pouco se importa se seus atos o destruíram. Ele não se acha destruído. Ele se vê como vítima, e agora evita que ele próprio, ou seja, um boneco com um montinho de pelos na cabeça, desapareça.

Compreender a subjetividade nos tempos contemporâneos é notar, em suas consequências, essa minimização da identidade que terminou por ser o nosso aspecto. Se caio sob um aspecto visual posso me sentir humilhado ou não, independente de tudo o mais que, em outros tempos, realmente me humilharia. Desse modo, não vivemos uma época de “guerra de egos”, mas, ao contrário, de desinflação de egos. O eu se amplia como casca estética corporal associado a determinadas simbologias. Mas casca é casca, nada além do superficial. O si mesmo se esvazia, vira superfície, e o narcisismo surgido daí é em razão de que projetamos nossa imagem de casca, de superfície, em tudo o mais. Tudo que nos cerca, então, também fica vazio. Tudo fica importante se tem cabelos ou não. Essa estética lisa, rala, simplória molda o eu que se tornou corpo. É nisso que cada um de nós se tornou no âmbito  da vida contemporânea. Saímos da ética do dever para uma entrada na ética dos direitos, mas nossos direitos não são mais os Direitos Humanos e, sim, o direito ao cabelo ou ao silicone nas nádegas ou à tatuagem seja lá em que lugar ela vai estar – e olha que ela tem ido para lugares que jamais imaginávamos que poderiam se francamente mostrados!

A filosofia tornada crítica da cultura tem a tarefa de mapear essas transformações do eu, mas também de arregimentar esforços no sentido da compreensão das razões pelas quais estamos como estamos. Rocha Loures é a ponta de um iceberg cuja parte ainda não investigada é exatamente a que nos tem feito nos vermos como eus minguados, e isso numa época que todo mundo diz o contrário de nós, que somos cada vez mais “espaçosos” e não vemos o tamanho do outro, o direito do outro.

Rocha Loures parece grande, esbarrando em tudo, acotovelando tudo, empurrando os direitos de todos nós para que só o seu caminho possa se abrir. Afinal, formação de quadrilha é isso. Mas ele próprio não se vê assim. Sua identidade, para ele mesmo, nada é senão um pequeno rosto branco com um tufinho de cabelo em cima que, se retirado, o fará aparecer de modo a desaparecer como gente. Se entendermos isso, teremos captado o espírito de nossa época. Teremos feito o que Hegel mandou fazer como sendo filosofia.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 09/06/2017

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10 Responses “Rocha Loures: o indivíduo exemplar”

  1. LMC
    10/06/2017 at 12:50

    Estão falando muito do Bolsonazi.
    Mas,se Joaquim Barbosa e João
    Doria forem candidatos em 2018,
    o milico vai ter tantos votos
    quanto o Ulysses teve pra
    presidente em 1989.kkkkkkkkkkkkk

  2. Guilherme Picolo
    09/06/2017 at 15:56

    Que belo texto!

    E eu pós-moderno parece confundir-se com um avatar ou uma skin que possui perfil público em redes sociais.

    Por falar em avatar, sugiro este conto: http://www.riesemberg.com/2009/10/avatar-theophile-gautier.html

  3. Ezequias costa
    09/06/2017 at 11:54

    Bom dia meu amigo Paulo, a agora rocha ficou frágil, que estética a dele não tem jeito vão rapa os cabelos dele, como o de Cabral? Ele se deu mal.

  4. Matheus
    09/06/2017 at 11:27

    Nunca disse isso antes pq parece “massagem de ego”, mas dessa vez tenho de dizer: Parabéns!

    Não sei se os demais autores citados já trabalham sobre isso, creio que não, mas o senhor avançou muito na questão da identidade contemporânea “Facebookiana”/fotográfica (“instagrâmica” talvez?)

    Interessante pensar que ao menos antigamente a fotografia já era lisa, agora é mais lisa ainda pq está atrás de um superfície plana chamada tela.

    • 09/06/2017 at 11:43

      Matheus, obrigado. Estou nisso há algum tempo, talvez até antes que alguns autores que citei. Fiz meu pós doc na UERJ, sobre corpo. Foi publicado pela Ática.

  5. Isaias Bispo de Miranda
    09/06/2017 at 11:00

    Ótimo texto, Paulo! Só uma dúvida: você não acha que a fonte do blog está muito pequena? Não sei se é a minha visão, mas ultimamente, depois que a fonte foi reduzida (ela foi?), tenho tido uma certa dificuldade com a leitura.

    • 09/06/2017 at 11:25

      Sim, é a nova versão do WordPress, diminuiu um pouco. Mas não me afetou, vou perguntar para outras pessoas.

    • Tony Bocão
      09/06/2017 at 15:09

      Sim, se aumentar só um pouco já vai ajudar muito, arde os olhos…

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