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26/09/2018

Por que sentimos repulsa? O Uncanny Valley para além da simples robótica.


[Artigo para o público acadêmico]

O Uncanny Valley é o “vale” em uma curva produzida em um gráfico que mensura o progresso da empatia nossa diante dos semblantes de robôs. Esse gráfico foi mostrado nos anos setenta pelo professor de robótica, o engenheiro japonês Masahiro Mori. O vale no gráfico corresponde à parte em que uma simpatia crescente é interrompida por estranhamento, decepção, repulsa e medo, e isso ocorre quando o observador passa a se encontrar com robôs que se aproximam muito da figura humana, mas que possuem pequenos detalhes que deixam a desejar. A curva de simpatia volta a adquirir normalidade e positividade quando de fato este rosto é substituído pelo real rosto humano. Ou seja, podemos gostar de robozinhos como gostamos da figura humana, mas não gostamos de determinadas caricaturas. Essas figuras das quais não gostamos não necessariamente são feias. São apenas incompletas ou exageradas em algum detalhe que, enfim, em princípio, não deveria causar tanta estranheza.

O que o Uncanny Valley nos ensina? Primeiro: não é o diferente que nos importuna, mas o semelhante. Segundo: não é o feio que nos impressiona, mas o esquisito, ou seja, aquilo que revela um pequeno defeito que se torna insuportável. Terceiro: esse defeito é o da perda de autocontrole ou falta de autocontrole – o desafio ou a negação da autonomia.

A questão do Uncanny Valley é, portanto, não alguma coisa que serve apenas para fazer filmes, jogos ou prever se teremos ou não amizades com robôs. O que o Uncanny Valley nos mostra é algo que está muito além do que escreveu seu criador. É um campo de pesquisa virgem. Nem mesmo aqueles que deveriam prestar atenção nisso para ganhar dinheiro rápido, que são os homens do marketing comercial ou político, têm dado a devida atenção a isso.

O Uncanny Valley talvez tenha pouquíssima utilidade em robótica. Ele é um grande achado quando investigamos questões centrais: o que alimenta ou não a nossa solidariedade? O que nos faz despertar empatia? O que realmente somos diante do outro? É uma peça fundamental para filósofos dispostos a pensarem sobre teoria da subjetividade.

Dos três ensinamentos do Uncanny Valley que menciono, dois deles são possíveis de serem retirados diretamente do escrito de Mori, da sua experiência e de seu curva. Mas o terceiro ensinamento é conclusão minha – uma hipótese de trabalho. A meu ver, não há como não relacionar o aparecimento do esquisito aos olhos dos humanos, exatamente quando a curva é descrita pelo seu “vale”, com o fato de que os traços que perturbam o observador são os traços que se articulam ao não funcionamento (ou funcionamento não esperado) da face observada.

A sensação de que se está diante do esquisito pode ser articulada a qualquer face, talvez corpo. Mas não se trata aí de uma aversão exclusivamente estética. Há uma aversão que corresponde à ligação entre estética facial e disfunção nervosa, capaz de, real ou imaginariamente,  comprometer a face. No limite, para quem vê a face esquisita do quase-humano, da caricatura humana – do robô ao velho passando pelo palhaço ou pelo zumbie – emerge uma questão estético-moral. Se presumimos o funcionamento falho de alguém, de modo a ver ou imaginar que isso se estampa na face, tal como o corar de bochechas no caso normal, estamos já preocupados com alguma possível quebra de moralidade por quem se descontrolou. Descontrole e falta moral andam juntas na tradição de costumes ocidentais.

Em um artigo anterior (Uncanny Valley – por uma teoria da repulsa), por meio de dez tópicos, mostrei como que surgem elementos que não cumprem o desiderato de auto-controle, característica básica do sujeito ou indivíduo moderno. O Uncanny Valley ou o que nos causa estranheza e, enfim, repulsa, não é a face feia, mas aquilo que se mostra feio porque está associado a um comportamento que nos causa preocupação e repulsa, que é não sermos senhores de nós mesmos. Todas as vezes que nossa subjetividade apresenta uma rachadura, exatamente quando se mostra alguma coisa que escapa à autonomia, eis aí, então, que aparece o que realmente nos preocupa. Toda imagem que nos lembra essa situação que, enfim, tememos que ocorra também conosco, que é a perda da autonomia, estamos enfim no campo do medo, do desconforto, da repulsa – é o local que é demonstrado, na curva, pelo Uncanny Valley.

Não é à toa que todas as vezes que na história do pensamento anunciamos qualquer coisa capaz de apontar para a nossa dificuldade de senhorio, surgem reações violentas por parte do público sobre tais ideias. Quando Darwin colocou em nosso sangue o vínculo com o animal, fazendo-nos parentes dos sem-razão, passamos a temer que as falhas de nossa autonomia, que tanto presenciamos ao longo da vida, não pudessem ser de todo resolvidas ou supridas ou evitadas. Quando Freud, que seguiu Darwin, disse que o nosso dispositivo de autocontrole, ele próprio, não tinha controle, ou seja, que o “ego não é senhor em sua própria casa”, a reação contra ele foi vigorosa. Quando Marx disse que o fetichismo da mercadoria é o sinal de que estamos submetidos a uma vontade que não é a nossa, mas sim à própria mercadoria que nos faz seu assistente e assistidor, seu mero coadjuvante, também surgiram imensas reações contra ele. Os filósofos que seguiram esses mestres das feridas humanas, todos eles, se tornam malditos, em algum sentido.

Em todas essas situações, a face que nos foi apresentada foi a face do boneco que é quase humano, mas por não ter autocontrole, sempre apresenta-se como a caricatura humana. Pais que possuem filhos com paralisia cerebral sabem do que estou falando. E afinal, todos nós, quando pensamos em uma velhice que pode nos tirar a autonomia – em vários sentidos – também tomamos consciência sobre o que estou falando aqui. A ronda noturna de nossos fantasmas, quando individuais, contam histórias de morte assistida e de eutanásia. Tudo que mais tememos é a perda de algo que chamamos de independência, autonomia, ou eufemisticamente a perda de qualidade de vida. Quando traços da perda de autonomia estão incrustados no rosto de algo que, justamente por isso, parece humano e ao mesmo tempo mostra uma falha com o humano, então estremecemos.

Há um enorme percurso – tanto ontogeneticamente quanto filogeneticamente – para cumprir o destino da verticalidade. Ser bípede não foi fácil. Cumprir esse destino a cada nascimento também não é fácil. A disposição antigravitacional implica em um terrível compromisso do homem consigo mesmo. Quando pensamos que podemos nos encontrar com uma face que denota alguém que não adquiriu esses autocontroles e as vitórias advindas disso, caímos na situação de estranhamento, medo e repulsa. Entramos na zona do Uncanny Valley.

Não é à toa que a única coisa que, de fato, não deixamos nossos filhos ver, é nós mesmos fazendo sexo. Pois nessa hora estamos, assim acreditamos, no campo mais propício para colocar quem nos vê no Uncanny Valley. Pois o sexo é descontrole. Sexo: quando achamos que estamos no controle, eis que gememos como bichos – ou melhor, como humanos. Olhos, boca, cores, suores, braços e tudo o mais sai de seu itinerário no ato sexual. Ao imaginarmos nossos filhos nos vendo assim, pensamos que eles sentirão o pavor que temos quando vemos o esquisito que é a face do robô que se parece muito conosco, mas que denota uma falha, um defeito, algo que irá se manifestar ou poderá se manifestar ou talvez já tenha se manifestado (imaginamos) como descontrole.

Temos vergonha da nudez perante os filhos. Nunca é demais lembrar, aqui, a vergonha de Derrida, uma vez nu diante de seu gato. O que olha um gato, quando nos mira ao estamos nus? E se o assustarmos com uma ereção? Não morreríamos de vergonha? A vergonha é o momento em que queremos desaparecer, perder o eu, dessubjetivar. Antes ser um nada que ser um eu sem compostura, sem postura, sem autocontrole. Qualquer face que tragar essa cicatriz da possibilidade do descontrole, nos lembra da possibilidade de passarmos vergonha, e já então começamos a passar vergonha.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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4 Responses “Por que sentimos repulsa? O Uncanny Valley para além da simples robótica.”

  1. Henrique
    01/07/2018 at 16:36

    vc tem escrito e estudado sobre novos individualismos, novas desinibições, novos sujeitos, etc, está atento ao fenômeno desse intelectual Jordan Peterson? ele tem uma proposta “auto-ajuda”, coach, mas num viés mais “conservador”, me parece. O que pensa sobre ele? vale um artigo https://www.gazetadopovo.com.br/ideias/quem-e-jordan-peterson-o-intelectual-mais-influente-do-mundo-3581u1nmrn5m5fn52w9ck9cj9

    • 01/07/2018 at 16:40

      Henrique, mais um! Já não basta a besta Pondé e a besta Karnal?

  2. Kurt
    28/06/2018 at 12:17

    Além de Darwin, Freud e Marx, se quiser mais um exemplo:

    Gödel e seu (agora famoso) teorema sobre a incompletude de sistemas axiomáticos consistentes e suficientemente complexos como para conter a Aritmética.

    Apenas para entender o contexto “filosófico” (note as aspas): Gödel não era um iconoclasta. Pelo contrário, era uma espécie de pensador platónico, ilhado no mar do positivismo lógico. Falando mal e pronto, Gödel era “contra” o pensamento de Wittgenstein. Portanto, as consequências do seu teorema acabaram sendo um tanto paradoxais.

    Para ler mais:

    O livro 1 abaixo é uma boa introdução geral. Consiste em uma breve biografia pessoal e intelectual de Gödel.

    O livro 2 ainda sendo de “divulgação” possui um conteúdo muito mais técnico. Contudo, acho que não é necessário ser matemático profissional para entender.

    O livro 3 é um tributo, uma ode, uma aventura intelectual, sobre a questão da autoreferência, muito presente nas obras das pessoas mencionadas no título.

    1. Rebecca Goldstein: Incompletude. Cia das Letras
    2. Nagel and Newman: Gödel’s proof.
    3. Douglas Hoffstader: Gödel, Escher, Bach. Ed. UNB.

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