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16/12/2017

Por que Marx seduz os intelectuais? Marx e o desencantamento do mundo


Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico

“Tudo está repleto de deuses”, disse Tales lá nas costas da Turquia, quando ali era uma praia jônica. O nosso primeiro filósofo, segundo a historiografia oficial, começou a filosofia atentando para as possibilidades ou não do “dencantamento do mundo” (Weber). Viu as figuras misteriosas postas em cada cantinho do mundo. De lá para cá os filósofos nunca mais abandonaram sua paixão pelo mistério. Vinte e cinco séculos depois, o sucesso de Marx como escritor e filósofo, ao menos entre os intelectuais mais exigentes, veio exatamente dessa característica: também ele ficou encabulado com a proliferação de fantasmas e potências demiúrgicas no mundo.

O filósofo italiano Giorgio Agamben[1] lembra que nos anos sessenta, Althusser, a autoridade máxima em marxismo oficial do Ocidente, dizia que a melhor leitura de O capital seria aquela que pulasse as partes em que Marx estava embevecido pelos mistérios. Eram aquelas partes em que Marx agia mais como filósofo do que como o homem de ciência que a religião marxista queria que ele fosse, ao menos naquela época. O capital bem lido seria aquele em que a passagem sobre o fetichismo da mercadoria não fizesse efeito algum na cabeça do leitor. Trata-se da passagem que, sem dúvida, é que mais seduz na obra de Marx.

Nessa passagem, “O caráter fetiche da mercadoria e seu segredo”, Marx adentra ao seu modo, e de maneira original, o problema do “mundo repleto de deuses”, mas no contexto da vida moderna, a vida sob o capitalismo.

Ele aponta para o elemento de equivalência entre produtos diferentes: o trabalho abstrato, contabilizado em tempo. Mostra que é isso que permite que coisas completamente diferentes possam ir ao mercado, deixando de lado suas utilidades (valor de uso) para adquirirem valor (valor de troca). Mas faz mais, indo além das leituras de “economia política” de sua época ele fala também de como essa abstração não é um processo mental, mas um elemento da realidade: o dinheiro. Se os medievais se perguntavam sobre “o problema dos universais”, Marx apresenta o universal-abstrato-dinheiro como algo que está na realidade e a inverte.[2] De fato o universal é o que existe na prática! E dessa forma se institui o mercado capitalista. Adentrando todas as relações, o dinheiro faz o reino do abstrato dar a tônica para todas as relações humanas. Tudo que é individual e tem rosto perde vida, e só o que não tem rosto, o universal tornado real, se impõe. Enquanto o produto tornado mercadoria perde o rosto, e também nós produtores e consumidores somos embevecidos pelo desfile da mercadoria, esta, por sua vez, readquire rosto na comunicação da vitrine, e o próprio dinheiro reaparece com rosto – os de nossos chefes, heróis, políticos afamados e difamados etc. O dinheiro sem rosto, atual, que é o dinheiro virtual, é a mostra hipermoderna de que o disfarce de alguns séculos ficou velho.

Agamben diz não acreditar que Marx, ao escrever essa parte de O capital, não tenha trabalhado com a imagem do “Palácio de Cristal”, a primeira Exposição Universal no Hyde Park, de 1851. Aliás, nessa data, lembra Agamben, Marx estava em Londres. [3]

De fato, se um universal ganha vida, existe concretamente, não é a representação do mundo somente que se inverte, é a própria realidade que se inverte. Passamos a encontrar o universal no bolso, na carteira, na conta bancária. Não à toa Agamben andou dizendo que “Deus não morreu, virou dinheiro”. O fetichismo é, então, o fenômeno religioso, estudado pela antropologia, que Marx caracteriza de uma maneira especial e diferente. O totem do fetichismo religioso é a mercadoria do fenômeno capitalista. Criado pelo homem como produto, ela ressurge como mercadoria e, depois, como potência demiúrgica – por conta de sua transitibilidade por meio do dinheiro – para assombrar (em duplo sentido) o produtor, agora consumidor. A cada vitrine há um fantasma ou um demônio misterioso que diz ao consumidor que ele, produto, ordena sua compra,  mas que só sairá dali de onde está segundo o universal dinheiro concretizado na realidade em alguma de suas formas – papel moeda, cheque, digitalização. Nessa hora, o produto-mercadoria ganha vida e se torna sujeito, o homem, enquanto comprador, ganha aspectos de coisa, de objeto, e deve seguir as ordens do sujeito. Isso é tão verdade que o consumidor muda formas corporais e mentais para poder se relacionar com os desejos da mercadoria (vai à academia ou à mesa de cirurgia para alterar-se materialmente, fisicamente, de modo a poder vestir uma calça que o ordena adquiri-la, e nessa hora, mostra que é ela que o adquire). Tudo podo ocorrer se o dinheiro, ao final, der permissão para que a relação social ocorra: dona mercadoria deixa ser acompanhada pelo cliente da loja.

No Palácio de Cristal – Slorterdijk[4] nota bem e Agamben completa – o transeunte, estando na parte Oriental ou Ocidental do ambiente, podia ver ao fundo um halo azulado. O Palácio de Cristal era aclimatado, gerando um mundo próprio, e, segundo o panfleto de apresentação da Exposição de 1867, a de Paris, tudo havia sido feito segundo um requisito: ‘é necessária ao público uma concepção grandiosa que toque sua imaginação (…) ele quer contemplar uma visada feérica e não produtos semelhantes e uniformemente agrupados’.[5] As exposições foram montadas como catedrais de vidro, mas tendo por dentro a sensação de se estar no fechado e no aberto ao mesmo tempo. Ali os deuses se puseram a descoberto. Ocorreu a verdadeira Olimpíada do mundo moderno, a arena onde se deram as manifestações divinas para um público completamente despido. Ninguém pode ir vestindo uma roupa numa Olimpíada. Tudo que é utilizável está ali, na exposição máxima do show do mercado, e não nos corpos dos transeuntes; ao mesmo tempo, tudo que é utilizável surge no ambiente não segundo sua utilidade, mas sua completa capacidade de ser por para a visibilidae. No Palácio de Cristal deu-se um passo na direção do que depois, de modo mundializado, Debord chamou de princípio da sociedade do espetáculo. A era moderna, diz ele, põe de lado a dicotomia ser versus ter, para fazer imperar a época do aparecer.[6]

Nós, que não somos capazes de qualquer ontologia senão a da imagem de nós mesmos postada de um em um minuto, como nos ordena o Facebook, sabemos bem sobre o que Debord prognosticou. Ele sentiu ter certeza de ter acertado quando só tínhamos a TV, mas o espetáculo da política e tudo o mais já havia de fato se tornado o que a mercadoria havia ensinado aos homens: assistir.

É essa capacidade de criar uma interpretação que tenta por a nu algo que tem seus ares misteriosos, esse mistério que faz nosso mundo também estar “repleto de deuses”, que conquista os intelectuais. Os intelectuais mais exigentes percebem que Marx não fez um trabalho de economia somente. É impossível não notar que ele não foi mais um sociólogo avant la lettre, mas que foi um filósofo na linha dos primeiros pré-socráticos, buscando o arkhé e pondo a nu o trabalho das potências divinas mitológicas que queriam ocupar o lugar do arkhé. Esse é o elemento que realmente fascina os professores de filosofia. Afinal, a parte social de Marx, seu apelo para um mundo de menos injustiça, já havia sido elemento de conquista de intelectuais do próprio tempo de Marx, por outras vias: Revolução Francesa, cristianismo, Revolução Americana, movimento socialista etc.

Quando lemos os marxistas, mesmo os mais rebeldes, não raro sentimos um cheiro de religiosidade no ar. Os marxistas escrevem sempre no sentido de dizer que a leitura que fazem da obra de Marx é a correta e é a que aponta para a revolução, enquanto as outras “desvirtuam Marx”. Essa forma repete a escolástica e toda a guerra hermenêutica da teologia cristã no seio do catolicismo. Mas essa religiosidade crivada por uma inspiração que torna o marxismo algo entediante e meio que infantil, talvez seja a prova da beleza do trabalho de Marx, que conseguiu atravessar os séculos, conquistar mentes interessantes e curiosas, mesmo estando envolto com por essa forma de exposição que se fez na construção da Igreja Karl Marx.

]Marx não mostrou como arkhé a água, mas a mercadoria.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 02/12/2017

Gravura acima: Palácio de Cristal, Hyde Park. Desenho e litografia de Augustus Butler, 1851

[1] Agamben, G. Meios sem fim. São Paulo- Belo Horizonte. Editora Autêntica, 2015, p., 72-3.

[2] Jappe, A. As aventuras da mercadoria. Rio de Janeiro: Contraponto, 2013, p. 39.

[3] Idem, ibidem, p. 73

[4] Sloterdijk, P. O palácio de cristal. Lisboa: Relógio D’Água, 2008. Sobre o Palácio de Cristal ver também: Ghiraldelli Jr., P. Para ler Sloterdijk. Rio de Janeiro: Via Veritas, 2017.

[5] Agamben, op. cit., p. 73.

[6] Debord, G, A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997, p. 18, § 17.

Paulo Ghiraldelli  é filósofo, professor e escritor. Tem doutorado em filosofia pela USP e doutorado em filosofia da educação pela PUC-SP. Tem mestrado em filosofia pela USP e mestrado em filosofia e história da educação pela PUC-SP. Tirou sua livre-docência pela UNESP, tornando-se professor titular. Fez pós-doutorado no setor de medicina social da UERJ, como tema “Corpo – Filosofia e Educação”. É bacharel em filosofia pela Universidade Presbiteriana Mackenzie (S. Paulo) e é licenciado em Educação Física pela Escola Superior de Ed. Física de S. Carlos, hoje incorporada pela Universidade Federal de S. Carlos (UFSCar). Foi pesquisador nos Estados Unidos e na Nova Zelândia. É editor internacional e participante de publicações relevantes no Brasil e no exterior. Possui mais de 40 livros em filosofia e educação. Trabalha como escritor e cartunista e tem presença constante na mídia imprensa, falada e televisiva. Atua junto com Francielle Maria Chies no programa Hora da CorujaFLIX TV. É professor de filosofia aposentado da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). Trabalha atualmente como diretor e pesquisador do Centro de Estudos em Filosofia Americana (CEFA). Para mais detalhes ver CV Lattes.

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One Response “Por que Marx seduz os intelectuais? Marx e o desencantamento do mundo”

  1. Hilquias Honório
    03/12/2017 at 15:13

    De fato, recomendado para o público acadêmico. Não é qualquer um que entende um texto desses. Fiquei feliz por ter conseguido entender tudo, já na primeira leitura.

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