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16/12/2018

Por que intelectuais não entendem o voto em Bolsonaro?


[Artigo para o público em geral]

Há um desprezo em estudos iconográficos e sua relação com o imaginário no âmbito das ciências humanas. Filósofos gostam da escrita, desprezam a imagem. Até mesmo sociólogos da comunicação não dão o valor devido ao que se torna ícone, o que preenche o imaginário de uma época. O texto escrito é de tal modo valorizado, que tudo que é do âmbito da gravura é posto em segundo plano. Ver figuras, ao menos para os modernos, é coisa de criança. Esquecemos facilmente que, em parte, somos eternas crianças.

Quanto mais a imagem se tornou diretora de nossas vidas – em especial após a edição da Didactica Magna (em meados dos anos 1600), de Comenius,  – mais ela se confundiu com o supérfluo em termos não só literais, mas também metafóricos. Como nós, intelectuais, gostamos de ser profundos, ir aos fundamentos, fazer metafísica, acabamos achando que os que trabalham com o marketing e com a iconografia são intelectuais menores, são intelectuais superficiais por ficarem no que é do âmbito da superfície. O resultado disso é que até mesmo os que estudam semiótica terminam por não entender nada de signos e símbolos.

As manifestações na Internet a respeito da vitória de Bolsonaro, em sua maior parte, caminham por fora do estudo da iconografia e da imagética, e se sacodem de modo espalhafatoso na balbúrdia da informação. Por isso mesmo, se tornam antes lamento que análise. São mais mimimi, como dizem os pretensos machos, do que atitude de amor fati, como diriam nietzschianos verdadeiros.

Se olharmos para as imagens históricas que estiveram em jogo, e no que elas se ligam em termos de valores morais populares, vamos entender muito bem a vitória de Bolsonaro. Todos os ícones ligados a crimes que giraram em torno de Bolsonaro trouxeram para a praça de debates os crimes políticos. Bolsonaro cometeu todo tipo de afronta, sim, mas de caráter político, ou de envólucro político. Ou seja, seu xenofobismo, anti-feminismo, homofobia, desprezo a pobres e racismo, foram embrulhados em pacotes do imaginário do que é o fascismo. Essa iconografia só faz sentido para os intelectuais. A suástica, o desenho do homem no pau de arara e coisas do tipo estão como horror para os intelectuais, para estudantes liberais e de esquerda, para artistas que conhecem a história do teatro. Ora, para o homem comum, é outra a iconografia que marca o que é condenável: são as grades, o uniforme listrado (que nem existe entre nós), a ideia de se estar preso. Esta imagem, desde o Impeachment – e o sucesso do pixuleco Lula não nos deixa mentir – calou fundo na retina da população. Os crimes do fascismo não horrorizam o homem comum (caso não se tivesse passado no cinema, mil vezes, o Holocausto, hoje já teríamos perdoado Hitler),  mas o crime do roubo e a imagem da condenação, a viagem de ida para Curitiba junto de policiais federais, isso sim tem a ver com o que a população relaciona com o crime. Todos os petistas passaram por essa imagem. Bolsonaro ganhou outras maldades nas costas, arcou com uma iconografia que traça o perfil do bandido como bandido que se enquadra no fascismo – e só nós, intelectuais, condenamos o fascismo. O homem popular condena o ladrão que caiu sob grades. A ideia da condenação de um juiz, essa imagem, é que tem a ver com o crime.

Aliás, no dia da eleição, muitos vieram perguntar voto para Fran e eu, e ao conversarem revelavam o que tinham feito nas urnas segundo essa expressão significativa: “o Lula quer governar de dentro da prisão, como fazem as facções”. Nessa hora, falamos que Bolsonaro defendia a ditadura e a tortura, que fazia declarações racistas etc., e isso não soou nem um pouco inteligível. O termo “fascista”, entre nós, não tem o poder que tem na Europa. Aliás, uns dias antes da eleição, a novela da Globo matou Ulstra, na figura de Galdino, e ainda por cima colocou o machista como incendiário. Ora, a população nossa, a do homem comum, não vê o torturador e o machista invejoso como criminosos horrorosos como nós, intelectuais, os vemos.

Quando entendemos isso, então podemos compreender a razão pela qual Bolsonaro pode empurrar uma mulher e continuar moralmente sadio, enquanto que uma pessoa extremamente doce como Palocci ou uma pessoa afável como Lula podem se tornar referência do típico marginal. O coturno do nazista é uma imagem que nos amedronta, a nós, intelectuais. Mas, para o não-intelectual, o que desperta a ideia de se estar diante de um criminoso que deve se calar, são as grades, são o acompanhamento ao lado de policiais, em atitude de prisioneiro. “Não roubei e não matei”, dizem os que se acham inocentes. Os petistas ficaram com a imagem de quem realmente roubou, e em alguns momentos mais duros, como quem também matou. E como o PT acabou abafando todo o resto da esquerda, ao final até mesmo os que tinham pouco a ver com Lula, não puderam não arcar com os respingos de um imaginário condenatório. Ciro teria tido mais voto se não tivesse defendido Dilma. O PSOL teria se transformado numa autêntica força de esquerda, alternativa e viável, se não tivesse voltado a seguir Lula após ter se libertado dele. A votação de Giannazi, um deputado não lulista, mostrou isso – elegeu-se sem dinheiro algum em um meio hostil comandado pela Janaína Paschoal. A votação de Jean Willys, um dilmista, e a votação de Boulos, um lulista, também mostraram o mesmo, em sentido inverso.

Enquanto os intelectuais não perceberem que o mundo contemporâneo é o mundo das imagens e suas ligações com valores morais, em uma construção que, para ser notada, demanda observação atenta e histórica, eles sempre estarão na luta entre o que pensam e o que a população em geral pensa, e não compreenderão esta última de modo algum. Muitas vezes os marqueteiros acertam mais que os filósofos e sociólogos, simplesmente por perceberem – por dever de ofício – essa vinculação do imagético com o energético, uma lição que o filósofo Arthur Danto traçou várias vezes em seus livros, uma lição cujo mestre atual é Peter Sloterdijk.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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6 Responses “Por que intelectuais não entendem o voto em Bolsonaro?”

  1. LMC
    10/10/2018 at 12:21

    Felizmente o Ciro não ficou do
    lado daquela direita tonta do
    Aécio,que teve um chilique achando
    que houve fraude nas urnas
    eletrônicas na reeleição de Dilma.

  2. Renato Aloizio de Oliveira Gimenes
    09/10/2018 at 20:22

    Vou te agradecer o resto da vida por este texto.

    Valeu!

    • 09/10/2018 at 20:54

      Renato, venho faz certo tempo notando nosso descuido sobre a imagem, embora falemos muito dela.

  3. Luan
    08/10/2018 at 17:23

    Concordo Paulo, não tenho bola de cristal e isso vale para os dois lados, sobre meu bolso eu sou funcionário público do estado do Rio de Janeiro, então ele não vai muito bem já faz um tempo. Mas você colocou uma boa pedra no meu caminho, entre deixar uma tragédia anunciada acontecer ou apostar que o PT não irá chamuscar mais ainda a esquerda e nos levar para um buraco pior. Sinceramente, não sei como responder essa questão, pelo menos não no momento, eu estava convicto em anular, agora tenho uma pedra. Obrigado, Paulo.

  4. Luan
    08/10/2018 at 15:45

    Sei que não se liga ao texto… ontem em conversas quando disse que anularia meu voto no 2º turno, amigos ficaram indignados, como assim? Para mim é simples, se mantendo só no âmbito eleitoral quem elegeu o Bolsonaro foi o PT ao lançar a candidatura do Haddad, a uma megalomania do Lula tentando mostrar que elegeria um candidato fraco mesmo estando preso. Bastava ao PT botar o rabo entre as pernas e deixar que Marina, Geraldo ou Ciro ganhassem, mas não e agora entramos na mesma chantagem eleitoral de 2014 entre Dilma e Aécio em que o PT vira e nos fala ruim com a gente pior com eles. Mas dessa vez não, pois se em 4 anos o Aécio é agora Bolsonaro, imagine com mais 4 anos de PT… qual seria o resultado? Teríamos (mesmo sendo difícil) alguém pior que o Bolsonaro?

    • 08/10/2018 at 16:39

      Luan, você não tem bola de cristal. Tudo depende do que você quer para primeiro de janeiro em relação ao seu bolso. Agora, se você é rico e dá mais importância ao PT e ao Bolsonaro que ao seu bolso, você paga para ver.

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