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25/04/2018

Política e ciência: vocações inconciliáveis


[Artigo indicado preferencialmente para o público acadêmico]

Marx sabia que sua perspectiva era uma perspectiva. Mas ele não concordava, como Nietzsche concordou, que sua perspectiva era mais uma perspectiva. Para Marx uma perspectiva podia sim ser melhor que outra, mas não pelos critérios variados que o pragmatismo dos americanos e de Nietzsche, no final de século XIX e, depois, no pós-modernismo, fez vingar. Ele acreditava estar olhando o mundo de uma perspectiva epistemológica mais alta, uma vez que estava vendo tudo segundo o que seria a ótica do “proletariado”. Este, sendo “a última classe”, por si só, quase sem querer, não teria razão de defender qualquer ideologia; não tendo nada a perder com a verdade, seria capaz de endossá-la e, portanto, vê-la como ninguém mais assim poderia fazer.

Muitos professores de ciências sociais (e até de filosofia!) nos anos oitenta davam cursos de metodologia usando a seguinte sequência: Durkheim, Weber e Marx. Marx vinha ao final, “superando” outras visões, exatamente por conta de estar coberto por esta teoria epistemológica que louvava a “visão objetiva do proletariado”. A ciência seria consciência, e a consciência melhor seria a consciência de classe. No caso, a “consciência da classe operária”.

Ninguém mais hoje, estando sadio, ministra algum curso dessa forma. Talvez as feministas pré-Judith Butler façam algo parecido, colocando “as mulheres” no lugar do proletariado e reinventado os dogmas do marxismo para um tipo de feminismo. Mas, no geral, a “Queda do Muro”, o “fim das ideologias”, a “onda pós-moderna” e tantas outros grandes situações deram desprestígio ao socialismo, e este fez muita gente a abandonar o marxismo como religião, como ele era vigente entre boa parte dos intelectuais, inclusive os bons. A discussão sobre a “objetividade” em ciências humanas saiu da moda. Todavia, o senso comum ainda está preso a tais resquícios do passado.

O senso comum tende a dizer que as “paixões políticas” é que “cegam a razão”. Será mesmo? Tendo a crer que a política cega a razão, mas não por conta de ser uma paixão. Na verdade a política entorta o olho do investigador, seja o cientista social seja o filósofo, não por despertar paixões, mas por ela própria; de fato, o modo de pensar do político é incompatível com a disciplina do pensamento do investigador, do pesquisador.

Em política não há espaço vazio. Não sei se isso é correto, mas que é uma frase que todo político leva a sério, isso não tenho dúvidas. Assim, direita e esquerda são posturas relativas. Se se abre um espaço à esquerda, alguém vem preenche-lo, e também é assim na direita. Desse modo, quem era direita num momento pode ser a esquerda em outro. O importante é não deixar o eleitorado navegando sozinho. “Não existe espaço vazio na política”, é necessário, assim, ocupar qualquer espaço aberto. Ora, se investigador é seduzido por tal modo de pensar e agir, e se se acostuma a isso, pode perder a disciplina exigida pela investigação, que funciona em outro registro. O registro da ciência e da filosofia não busca o preenchimento do espaço, mas justamente o contrário. O importante é deixar mais e mais espaços vazios, sem palavras, sem decisões, sem afirmar o certo e o errado, sem as adesões. O segredo do investigador é não “fechar a cabeça”; portanto, trata-se de jamais pensar coisas como “vou ocupar o espaço”. O pensamento filosófico e o científico não ocupam espaço, eles proliferam as suspensões de juízo e, por isso mesmo, abrem espaços. O perspectivismo se impõe sem qualquer subterfúgio, sem qualquer data para se encerrar.

Assim, se na política a prática é de falar e tomar decisões, na ciência e na filosofia a disciplina de trabalho evoca a epoché dos fenomenologistas, ou então a pura adesão à função literária da literatura filosófica. Quando o acadêmico se esquece disso e age na academia como se estivesse no mundo da política, ele se fragiliza e dá o passo significativo no sentido de se perder na profissão.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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11 Responses “Política e ciência: vocações inconciliáveis”

  1. Joao Bosco
    09/04/2018 at 14:57

    Eu sou visto dessa forma, por que um amigo meu professor de geografia formado na ufrj, me disse que eu nao tenho credito com as pessoas por que eu constantemente mudo minha orientacao, ora, respondi a ele, o a filosofia nao tem seguidores, quem tem seguidor e igreja, partido, a burrice, filosofo tem inimigos…nao quis dizer que sou filosofo, mas que ja consigo navegar nesssa praia

  2. Joao Bosco
    09/04/2018 at 14:49

    Ouvi dizer sobre um professor de filosofia do rio, formado aqui na uerj, que e pastor e da aula num curso de teologia, que ele e assim, ele trabalha com perspectiva, um aluno, que e evangelico falou, quando ele da aula sobre nietzsche, ele e nietzsche ate morrer, ou seja, defende a perspectiva ate o fim, para que ela seja entendida, nao para convencer e arrebanhar seguidores

  3. Joao Bosco
    09/04/2018 at 14:46

    Acho que a `escolha` pela filosofia, passa por uma formacao cultural unica, original, e por uma condicao mental e genetica especifica, eu devido a problemas psicologicos, tenho periodos que sou propenso a acreditar em deus, ler a biblia, buscar estudar o direito, por que e util, fico num periodo de 3 a 4 meses, pragmatista, utilitarista, mas logo em seguida fico mais humano, sem ambicao, querendo a verdade, ou melhor, querendo exercitar o intelecto, ja que a verdade parece algo nebuloso…fico ocilando entre essas duas visoes, e vejo o filosofo, atraves de vc do mesmo jeito, nao digo doente, doente e uma visao do senso comum, mas e como dizia o raul, enquanto vc se esforca pra ser, um sujeito normal, e fazer tudo IGUAL, eu do meu lado aprendendo a ser louco, um maluco total, na loucura real, o raul era leitor de filosofia, veio para o rio cursar filosofia, o sujeito normal, de senso comum, faz tuto igual, tem conviccoes, sempre a mesma visao politica, fica no campo de batalha escolhido, por isso que a disputa politica parece um fla flu

  4. Joao bosco
    08/04/2018 at 23:08

    Você constantemente Combate o relativismo É mas aqui parece ter uma postura relativista eu só quero entender não quero causar polêmica nem incomodar

    • 09/04/2018 at 07:05

      Pergunta inteligente não incomoda. Mas eu não combato o relativismo. Deveria até fazer o contrário, dado minha simpatia para com o pragmatismo americano. O que ocorre é que eu escrevo sempre em um sentido da investigação, da dialetização, de modo a fazer o leitor pensar. As pessoas não vão encontrar em meus livros e textos doutrinas “sólidas”, defesa de posturas acirradas, muito menor proselitismo de palestrante metido a filósofo ou de divulgador político, um filósofo “de direita” ou “de esquerda”. Não considero essa gente como fiel à filosofia.

  5. Joao bosco
    08/04/2018 at 23:06

    Eu já vi você numa conversa com professor de filosofia usando argumentos Parmênides para dizer que o sofista existe o falso e o sofista usa o falso não se Combate o relativismo Você parece ser da corrente socrática Você acredita na verdade objetiva das coisas mas também pode ser cético porque dúvida do conhecimento mas não da Verdade tanto que eu vi um comentário de uma pessoa que defende o relativismo na filosofia e você disse assim não em todas as correntes meu caro mas na filosofia política parece que você Pelo que eu entendi nesse texto você relativista na política para além de qualquer discurso pró marxista se eu não busco determinar uma verdade objetiva na política ela virou Campo da retórica oi seja não existe lei como garantia de Justiça A Lei e a lei do mais forte quem melhor se expressar leva como pensavam os sofistas na Grécia antiga Mas você também concorda que existem valores objetivos na política como a defesa das minorias o cuidado com o social com educação saúde você fala bem do governo Obama que teve um programa social com relação à saúde chamado o Obama Care realmente gostaria de entender a sua postura relativista nesse texto sendo que você defende valores objetivos na política também fico sem entender

    • 09/04/2018 at 07:05

      João, para entender, tem que ler meus livros, entender a “missão” que me proponho como filósofo-professor, e não como doutrinador de direita ou esquerda.

  6. Francisco
    07/04/2018 at 06:22

    O Direito enquanto jurisprudência (aplicação da ciência do direito) se assemelha a esse “preencher todos os vazios” da Política. O momento da sentença nada mais é do que o juiz “ocupando o espaço” do conflito mediante a interpretação dos dados produzidos durante o processo. Até estávamos discutindo esses dias numa aula de Ética o lugar da verdade no Direito. Talvez a verdade repouse sobre os planos científico e filosófico do Direito, mas na jurisprudência, como se pode conciliar suspensão do juízo e consolidação do juízo quando da sentença? Seria a sentença um ato essencialmente político? E se não o for, por que o processo não continua ad aeternum? A justiça deve ser lenta e científica ou rápida e política?

    • 07/04/2018 at 13:13

      Francisco, é justamente o oposto. O direito pertence ao campo da investigação e sua decisão precisa da independência do modo de agir da ciência.

  7. Henrique
    06/04/2018 at 20:00

    Olá Professor Ghiraldelli!

    Levando em conta o tema deste artigo, o que o senhor pensa dos intelectuais, muitos até bem gabaritados academicamente, que se aventuram na política, como ”assessores de candidatos”?

    Digo isso, pois alguns parecem ter essa espécie de ”impulso político profético”, pois acham que podem, a partir de suas visões de mundo/sociedade, ajudar certos políticos/candidatos a agirem com mais qualidade em suas atribuições.

    • 07/04/2018 at 00:02

      Eu acho que isso dificilmente dá certo. A política é o cachimbo que entorta a boca. Ela faz o cara pensar do modo que expus, e ele não consegue mais ser requisitado para a epoché, para a paciência da indecisão.

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