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16/11/2018

Para não ler errado Agamben e Adorno


[Texto para o público acadêmico]

Adorno e Horkeimer falaram de uma situação contemporânea de “over” ética. Agamben, por sua vez, viu em nossos tempos a impossibilidade da ética. Distingui-los é bem útil, em tempos em que o trabalho de conceituar e fazer distinções é interrompido pelos sabichões do momento.

Assimilar o pensamento de Giorgio Agamben a um fio tonalizado por certo marxismo xucro, empurrando-o para uma posição de simples condenação da modernidade, é um erro. Esse erro ocorre quando o seu leitor assimila a noção de “vida nua”, vinculada ao “estado de exceção”, antes à “sociedade administrada” dos filósofos da Escola de Frankfurt que à noção de “biopolítica” de Foucault.

A vida nua se opõe à vida ética. Esta, é a vida humana, aquela, é a vida exclusivamente biológica. Quando Agamben diz que na modernidade prevalece a vida enquanto vida nua, e cita o estado de exceção e, enfim, o campo de concentração, ele está particularizando e, de certo modo, radicalizando a visão em função de uma dramatização acentuada. Mas, se olharmos de onde vem sua noção, traçada a partir de Foucault e não de Adorno, veremos que sua dívida é para com a noção de biopolítica. Nesse caso, Foucault diz que a modernidade é a época em que a vida biológica passa a importar. Ela, a vida biológica, entra para a política. Os estados formulam políticas que lidam com taxas de nascimento e mortalidade, saúde pública, envelhecimento da população etc. Assim, se nasce um estado que pode colocar pessoas para fora da condição de pessoas, em campos de concentração, e reduzi-las à vida nua, isso se insere em um movimento maior em que o estado se ocupa com a sobrevivência da população, e daí deriva o estado liberal e o estado social democrata, o Welfare State. Neste caso, a vida ética nem é mais considerada vida, embora possa parecer o contrário. Vida é vida biológica, para nós atualmente. Ou seja, para nós modernos viver é estar vivo, ou seja, respirando, e as condições de dignidade são acrescentadas depois, como uma capa que se pode ir colocando à medida que um estado é economicamente viável.

Assim, no caso da vida nua, no âmbito da biopolítica, vemos a modernidade como uma época em que vale apenas antes sobreviver que viver de joelhos. Isso jamais foi pensado por um antigo, que assimilaria uma tal coisa como sendo a não-vida ou a vida do escravo. Viver nunca foi poder respirar, para o antigo.

Uma tal noção de vida nua não pode ser assimilada à vida na sociedade administrada ou sociedade da total administração de Adorno e Horkheimer. Pois, nesse caso, posto pelos frankfurtianos, o que se está pensando é na situação totalitária moderna (capitalista liberal, nazista ou comunista, tanto faz) como uma época que não tem a ver com a redução da vida à vida biológica, mas, ao contrário, trata-se de uma situação em que há muito mais ética e moral do que se poderia querer. Tudo é regrado, posto sob disciplina e burocracia, de modo que a sociedade fica amortecida não por ser uma sociedade limitada à respiração, mas sim uma sociedade com rigidez de quem pode cumprir funções.  Pode-se ter uma sociedade assim, só respirando? Sim, mas sob um ritmo de respiração imposto, regrado, que considera um psiquismo a ser dominado. Na sociedade administrada há o tédio, no sentido heideggeriano da palavra. Na sociedade que tem como horizonte o campo de concentração, de Agamben, não há espaço para o tédio, pois os corpos reduzidos à vida nua, no limite, irão ser somente corpos. Animal não tem tédio. Zumbi não tem tédio.

O que faz com que exista a confusão entre o que fala Adorno e o que fala Agamben, é que a redução à vida nua traz o drama da comparação com o campo de concentração, e Adorno e Horkheimer foram atentos para com o nazismo. Mas na situação vista por Agamben, o que há é o extirpar da vida ética como um todo, mas a manutenção da vida animal. Adorno, sabe-se bem, colocou a sociedade administrada como uma situação em que um idílico e idealizado mundo liberal desaparece em função do advento do capitalismo tardio, completamente capaz de trazer o bruto à repressão, e deslocar o sublimado para funções burocráticas. Mas, se olhamos para a questão da biopolítica, e lembrarmos que Foucault se opôs à hipótese repressiva do freudo-marxismo, iremos entender que Agamben pode radicalizar e empurrar tudo – com de fato faz – para a visão em que não se pode falar em repressão, pois a vida nua já está sem ganchos com a vida que pode ser reprimida, já não há qualquer psiquismo a ser reprimido. Nesse caso, Agamben está pensando, em termos radicais, no campo de concentração como modelo de acolhimento de nós todos como zumbis, de homens e mulheres que perderam a condição de reclamarem.

Agamben fala de homens e mulheres que não são oprimidos ou otimizados. Não podem mais sê-lo. Adorno e Horheimer falam sim de repressão.

Na modernidade de Agamben o homem se torna alguém sem a possibilidade de estar em uma trama ética. Ele é número, mas enquanto é o seu DNA. Na modernidade de Adorno, o homem não é número, ele é peça. Ele não é seu DNA. São visões diferentes do campo de concentração e visões diferentes de como a sociedade moderna faz suas reduções. Adorno não vê o homem moderno como o “muçulmano” do campo de concentração, que Primo Levi descreveu. É Agamben que assim o faz. Mas, por ter a noção de Foucault na cabeça, ou seja, com o conceito de vida nua nascido de condições biopolíticas, Agamben vê esse homem sem psiquê como na condição de quem não pode mais ser reprimido, enquanto que Adorno o vê, sim, reprimido. Adorno não o vê sem psiquê, muito ao contrário.

Adorno e Horkheimer lidam com o par reprimido-sublimado. Assim falam de civilização, na linha dos escritos culturais de Freud. Agamben fala de zoé e bios, respectivamente vida animal e vida ética, tomando a civilização, em seu aspecto moderno, na linha de Foucault. Só que, para Agamben, pode-se dizer, talvez, Foucault tenha adoçado demais as coisas ao não ver que ao extrair potencialidades dos humanos, há sim um momento em que toda e qualquer potencialidade já cessou.

Há em Adorno e Horkheimer uma descrição da modernidade. Talvez Foucault sempre tenha caminhado por esse via. Há aí uma busca por uma descrição do nascimento da subjetividade moderna. Em Agamben, diferentemente de ambos, há uma descrição ontológica da condição humana, e a modernidade é apenas um episódio disso. Se Agamben fala em subjetividade, o faz de modo subalterno.

Paulo Ghiraldelli Jr., 61, filósofo.

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8 Responses “Para não ler errado Agamben e Adorno”

  1. Matheus Bravati Rueda
    14/11/2018 at 14:49

    Professor, já pensou em publicar seus textos em forma de ensaios filosóficos reunidos em uma obra ? Eu com certeza compraria.

    • 14/11/2018 at 15:01

      Faço isso de vez em quando. Tenho alguns livros assim.

  2. Matheus Reginatto
    07/11/2018 at 00:50

    Que baita texto, Paulo! Aliás, aproveiro para dizer: tu és o que há de melhor na filosofia brasileira!
    Mas, me diga: como faço pra ler Aganbem? Tu tem algo sobre ele? E se for uma obra dele, que fale do bios e do zoé, qual seria?
    Grande abraço filósofo…e, nesses tempos difíceis, eu estou indo de Foucault, Richard Rorty, e Guiraldelli…grande abraço

    • 07/11/2018 at 01:07

      Procure na parte de papers do blog que tenho sim

  3. Igor Cesar
    05/11/2018 at 16:07

    Professor, e como você explicaria o uso enfático, ainda que com espaçamentos, do paradigma debordiano nas fases otimistas do Agamben?

    • 06/11/2018 at 01:12

      Dá uma olhada na parte de papers do meu blog, que remete para o “academia”

  4. Bruno
    04/11/2018 at 20:58

    Hannah Arendt também faz uma descrição ontológica da condição humana?

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