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16/08/2018

Ou temos a doutrina do mérito ou não temos nada


[Artigo para o público em geral]

O discurso da meritocracia é uma ideologia. Todos sabemos disso. Mas não há também a doutrina da meritocracia, que funciona não ideologicamente?

A direita nega o papel ideológico do discurso da meritocracia. Reclama de programas sociais que empurram para cima as minorias e os mais pobres. Mas também vai de chapéu na mão para que o estado ajude empresas e, pior ainda, situa-se em uma classe média que reclama de subsídios para tudo que ela consome ou faz. Do fazendeiro à dona de butique passando pelo taxista, não são poucos os que podem ser chamados de gente de direita exatamente porque reclamam para eles benefícios que negam a outros.

A esquerda, por sua vez, de uns tempos para cá unificou, de modo pouco inteligente, seu discurso contra a meritocracia. É capaz de gastar horas em um discurso ideológico falando de quanto ideológico é o discurso  da meritocracia. Ao mesmo tempo, individualmente, quando cada um da esquerda, ao contar a sua biografia, não deixa de enfatizar o quanto conseguiu o que conseguiu “por méritos”. Não dizem do pai rico, não falam do professor que os ajudou, não contam da bolsa estatal que receberam às vezes antes por puxa-saquismo que por mérito intelectual etc. Nessa hora, esquecem que falaram contra a meritocracia e fazem de tudo para dizer que venceram “pelo mérito” sem qualquer anjo da guarda na parada. Individualmente o membro da esquerda faz o mesmo discurso do da direita. Aliás, no Brasil há tanta necessidade de se dizer isso, que alguns que defendem a escola e o professor públicos se acham autodidatas!

As coisas funcionam assim exatamente porque o discurso do mérito é o discurso liberal hegemônico, vencedor, consensual. Ele se fixou naquele momento em que, em 1835, Tocqueville apresentava o seu A Democracia na América, e comentava que entre os povos democráticos todo e qualquer trabalho, uma vez honesto, era honrado. Ou seja, o discurso do mérito se fez junto com o discurso de que trabalhar em um ofício é honrado, ao contrário do pensamento aristocrático, para o qual quem trabalha é justamente quem não foi agraciado com o sangue de quem tem o direito de não trabalhar, e por isso mesmo é um indivíduo de segunda categoria.

Logo depois de Tocqueville ter publicado seu livro máximo, em 1848, Marx e Engels lançaram o Manifesto Comunista. Neste, todo o discurso liberal foi considerado não algo ruim, mas algo que seus arautos não queriam realizar de verdade no que tinha de bom, tornando-se então uma peça ideológica. Marx e Engels jamais criticaram a meritocracia. O que eles diziam é que ela, de fato, não havia se instaurado do modo prometido, que mesmo todos sendo honrados pelo trabalho, muitos que diziam trabalhar na verdade não mais trabalhavam, e funcionavam como uma classe social que imitava a aristocracia. Os burgueses mais ricos – ao menos no clima europeu e não americano – pareciam gostar de dizer que não trabalhavam. Pareciam gostar de repor hierarquias ligadas a privilégios que não tinham a ver com méritos vindos do esforço pessoal, do trabalho, do tirocínio aprendido e  coisas do tipo. Aliás, Tocqueville notou que o empresário europeu nunca foi o empresário-trabalhador americano. Ele, Tocqueville, lembrou que o rico americano adorava se deslocar para a Europa para ficar num clima no qual não precisasse prestar contas sociais de não estar trabalhando, diferente da América que, no mínimo, lhe exigia a filantropia e algum tempo pessoal dispendido socialmente. (1)

Desse confronto entre o modo americano e o modo europeu de ser burguês, nasceu essa confusão entre o discurso do mérito como ideologia e o discurso do mérito como doutrina moderna. Essa confusão colocou as esquerdas em uma visão errada, pois esta tomou o primeiro discurso como o único possível enquanto discurso correto.

Assim, tudo funciona ainda segundo aquela conversa de alguns anos antes da institucionalização da cota para negros na universidade. Naquela época eu perguntei a um estudante negro colegial, com dezesseis anos, se ele era a favor das cotas étnicas, e ele respondeu com uma sabedoria incrível: “sim, claro, mas não na minha vez”. Sabemos que as cotas são necessárias, não para melhorar cada negro, nem para funcionar como pagamento de dívida histórica, mas simplesmente para que povo brasileiro negro ocupe livremente todo e qualquer lugar sócio-geográfico do país de modo rápido, e com isso faça diminuir o preconceito. Mas, de certo modo, esse discurso é mais fácil ser feito por mim, branco, que pelo próprio negro. Afinal, é desagradável parecer estar discursando em causa própria.

Se a meritocracia perder seu valor, se não pudermos realmente premiar os que se sobressaem intelectualmente, se toda vez que fizermos isso alguém vier falar que isso é pura ideologia, vamos nos afundar em um país que não conseguiu entender a faceta não ideológica, puramente conceitual e correta, da doutrina do mérito. E criaremos o anti-mérito, o que será tão ruim quanto o discurso da anti-cota ou anti-política social da direita.

Paulo Ghiraldelli Jr. , 60, filósofo.

(1) Sobre o discurso do empenho do americanismo no trabalho do rico e suas consequências sobre a generosidade, ver os meus livros sobre Sloterdijk, tanto o publicado pela Via Vérita  quanto o publicado pela Vozes. Há neles, também, um aceno para a posição de Derrida, que insiste em falar da impossibilidade da generosidade por tal via, na sua análise sobre o dom ou dádiva.

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One Response “Ou temos a doutrina do mérito ou não temos nada”

  1. Marisa Neres
    12/04/2018 at 10:22

    Devidamente compartilhado!!!

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