Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

26/03/2017

Os que sabem interromper – Sloterdijk versus Byung Chul-Han


Nietzsche faz a crítica dos “homens ativos”. “Os homens ativos rolam tal como pedra, conforme a estupidez da mecânica”, é o que ele diz em Humano demasiado humano, no aforismo 283. Em seguida, no 284, ele  complementa:  “o ocioso é sempre um homem melhor do que o ativo. – Mas não pensem que, ao falar de ócio e lazer, estou me referindo a vocês, preguiçosos“. Impõe-se aí, então, a distinção entre o ativo, o ocioso e o preguiçoso. Nietzsche despreza o primeiro e último. Eleva o do meio, o ocioso. O ócio que permite o autêntico lúdico, e não o desporto, e o ócio que é próprio dos que não trabalham, ou seja, homens livres, estão na Grécia antiga como modelos que seduzem Nietzsche e, por que não dizer, toda a boa filosofia?

Os dois aforismos não são enigmáticos. Nietzsche deixa claro, já no início do 283: “Aos homens ativos falta habitualmente a atividade superior, quero dizer, a individual. Eles são ativos como funcionários, comerciantes, eruditos, isto é, como representantes de uma espécie, mas não como seres individuais e únicos; neste aspecto são indolentes.”  Ou seja, ativos são indolentes, são os preguiçosos, além claro de serem ativos. Escapa disso o homem que dispõe o seu tempo e o organiza por si mesmo. Este sim pode se dar ao luxo de não ser escravo. O funcionário, o que funciona, o que está em função – este é o preguiçoso, do banqueiro ao erudito! Muitos de nós somos ativistas, ou seja, queremos funcionar! Que triste.

O filósofo germano-coreano Byung-Chul Han faz o elogio de Nietzsche porque este, em tais aforismos, lembra de como que a máquina ou o computador são burros, pois não sabem parar, não conseguem interromper uma ação, podem continuar indefinidamente. Aliás, diga-se de passagem, são feitos para parar por antecipação, ou seja, por via da ordem da chamada obsolescência programada. Desse modo, não são nunca soberanos. É o negativo, a possibilidade da interrupção, que qualifica o que pode ser chamado de atividade soberana. A escravidão vem com o que aparentemente é a liberdade, ou seja, a inexistência de limites. Han tira daí duas linhas de raciocínio. Uma linha diz respeito à pedagogia do ver, que teria que ser reposta para treinar o olho no sentido dele deixar as coisas se aproximarem por elas mesmas. Essa pedagogia poderia ajudar a mudar as coisas. Uma outra linha alia a não interrupção à positivização de tudo, que, segundo ele, é o que domina o mundo atual, por meio do “capitalismo na sua fase neoliberal” – nesse caso, há mais desdobramentos descritivos da situação maquinal que precisam ser notados.

Essa positivização está na base da hiperatividade. Nesse segundo caso, o que se diz é que o modo de vida “neoliberal”, que vinga agora, não é aquele descrito pelo marxismo ao analisar o capitalismo, em que há o explorador e o explorado, mas aquele em que impera a liberdade, isto é, todos são livres pois acreditam que todos são patrões de si mesmos, e de fato, em certo sentido, o são. Assim se realiza o fim da exploração do homem pelo outro homem e inicia-se a auto-exploração do indivíduo. Certamente sabemos todos o quanto somos chamados para trabalhar por meio da Internet e outros mecanismos, fora de hora de trabalho. Somos chamados por quem? Ora, por nós mesmos! Não é uma situação confortável.  É o completo fim do ócio.  O modo da não-interrupção é, segundo Han, o que leva o homem à repetição de si mesmo, à repetição do si-mesmo. Mas esse si-mesmo não é uma construção a partir do outro, pois atualmente o outro desapareceu, aliás, como toda negatividade e toda alteridade. Todos sabemos, afinal, como temos sido gerados em forma de narcisos. Então, o si-mesmo se torna uma igualdade (o eu=eu é absorvido pelo A=A, a ipseidade decai diante da identidade). Não se trata aí, então, de estarmos falando de um verdadeiro si mesmo, um self, que pode curtir um cansaço gostoso após a sua tarefa realizada, mas um si-mesmo que sendo o igual, se torna um motivo de enjoou para o eu. O si-mesmo do homem sob o “neoliberalismo” é, na verdade, para Han, o que chamamos de “mais do mesmo”.

Contra essas tendências, Han propõe uma pedagogia capaz de nos fazer voltar a ver, obedecendo a temporalização correta de cada coisa, deixando cada uma se aproximar do olho. Nisso, penso que Han está correto e, então, retirando a parte em que ele fala em neoliberalismo e, junto disso, o modo como ele descreve essa prática como totalitária, seu texto pode ser aliado à crítica da “incapacidade de hesitar”. Pois ele está querendo uma “pedagogia da contemplação”, mas em moldes novos, não no âmbito da inatividade. Ele fala algo essencial sobre as máquinas, na carência delas de possuírem capacidade de interrupção que, por fim, dá todo o teor de nossa vida. Toda nossa vida é regrada pelo lema “o show não pode parar” ou “a vida continua”, mesmo após desgraças imensas. Nossa sociedade chega até a impedir o luto, nesse afã de quebrar os relógios individuais e impor o ritmo dos funcionários, dos que funcionam. Ora, o que falta às máquinas e o que nós temos de exclusivo, diferente delas, é a natividade. Han não deixa de notar isso. Mas não aprofunda o necessário.

Han fala da natividade, mas não desenvolve a ideia. Penso que a existência da prática da interrupção está na atividade, louvada por Sloterdijk, que é a epoché de Husserl. Mas Sloterdijk não aponta para essa prática sem fornecer um apoio, digamos, antropológico, para essa decisão filosófica e metodológica. No meu livro Para ler Sloterdijk faço alusão ao fato de que “o homem é um animal que tem mãe”. Essa é a sua característica principal. Sua natividade é algo especial que o faz proprietário dessa inusitada capacidade de interromper ativismos que logo desaguam na hiperatividade, e que conhecemos bem, inclusive em seus resultados funestos. O homem sabe fazer a epoché, e assim pode ser, ainda nos nossos dias, filósofo, mas isso porque nasce de um útero que lhe ensina o tempo, a crítica, o parar para não aceitar tudo, o dizer “não”. É na atividade uterina que placenta e feto, juntos, como gêmeos, distinguem vibrações que devem ser aceitas e vibrações que devem ser descartas. Nasce aí um ouvido crítico, um iluminismo do escutar. Só quem vem do útero tem isso. Só quem vem do útero materno reaproveita isso na sua eterna construção de exo-úteros, ao longo da vida. Nesse último caso, temos o homem.

Não penso que Han saiba parar. Parece que ele próprio está escrevendo veloz e se repetindo – funcionando. Ele sabe denunciar a hiperatividade e a positivização do mundo. Mas ele precisaria de Sloterdijk para saber, ele próprio, como o homem tem possibilidades de ser não preguiçoso e não ativo, ou seja, de ser um bom utilizador do ócio – aquele que sabe parar. Ele precisa dar atenção ao termo natividade, que apenas mencionou. Sem Sloterdijk, duvido que conseguirá tornar seu pensamento realmente novo e fecundo. Pois aprendemos a parar por meio do ritmo do útero. Sloterdijk é o único pensador com uma filosofia do nascimento, uma filosofia da natividade.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 05/03/2017

Tags: , , ,

One Response “Os que sabem interromper – Sloterdijk versus Byung Chul-Han”

  1. Eduardo Rocha
    06/03/2017 at 01:08

    Como ficaria então a subjetividade para Byung Chul Han? Esse excesso de positividade culminaria numa exortação contínua e ininterrupta de “potência” do sujeito? Funcionando diante de estímulos tanto múltiplos quanto intermináveis. Com essa erradicação do campo de qualquer negatividade – suspensão (epoché), o estágio neuronal culminaria em um excesso de afirmativas, possibilidades, continuidade e permissões causando um sofrimento psíquico e uma auto exploração de si mesmo recaindo na hiperatividade performática. Criando uma sociedade do cansaço.
    Me lembrei das palavras de Sloterdijk em uma entrevista: “Nobody has time for an entire generation anymore”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

About Paulo Ghiraldelli

Filósofo